14 sugestões de livros russos recém-lançados para presentear (e causar impressão!) no Natal de 2020

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Não sabe o que comprar para o amigo secreto da família? Procurando um mimo para o chefe? Então não deixe de conferir os melhores lançamentos literários russos do último semestre no Brasil!

O último semestre de 2020 teve pelo menos uma notícia boa: quatorze lançamentos de literatura russa por editoras brasileiras! Os títulos variam dos clássicos importais de Tolstói e Dostoiévski em novas traduções a soviéticos brilhantes, mas ainda pouco conhecidos deste lado do oceano, como a poética prosa da dissidente Marina Tsvetáieva e a ficção científica do bolchevique Aleksandr Bogdánov, passando por um tomo inédito em português — e imperdível — de Leskov. Para facilitar, dividimos a lista em duas seções: literatura pré-revolucionária e soviética.

Literatura russa pré-revolucionária

1. “Vontade de ferro”, de Nikolai Leskóv

Vertido diretamente do russo ao português por Francisco de Araújo para as edições Jabuticaba, este volume é uma excelente opção para o amante da literatura clássica russa e pode agradar tanto o leitor que já devorou todos os volumes de Dostoiévski, Tchekhov e Tolstói, como aquele que ainda não se aventurou entre os gênios russos. A história sobre um alemão de ferro que desaparece nos atoleiros russos foi concluída por Nikolai Leskov no outono de 1876 e logo publicada por um semanário de São Petersburgo, para depois cair no esquecimento e somente ser retomada, com força total, em meio às trevas do outono de 1942, no décimo terceiro mês do cerco alemão a Leningrado.

2. “Escritos da casa morta”, de Fiódor Dostoiévski

Com este título, vertido direto do russo por Paulo Bezerra, a editora 34 encerra sua renomada publicação das obras completas de Dostoiévski, que se iniciou no ano 2000. Assim, somos convidados mais uma vez a adentrar no grande laboratório de personagens e ideias que é a prisão de Omsk. “Escritos da casa morta” é um livro semi-ficcional, se levarmos em consideração que tudo e todos ali existiram, com exceção do protagonista e narrador, Aleksandr Petrovitch Goriántchikov, condenado a 10 anos de trabalhos forçados após ter assassinado sua esposa.

Leia a resenha de “Escritos da casa morta” aqui.

3. “A morte de Ivan Ilitch”, de Lev Tolstói

Com tradução direta do russo de Lucas Simone para a editora Antofágica, esta obra curta é imprescindível no legado de Tolstói, ganhando ainda mais relevância nestes tempos sombrios. Ivan Ilitch está morto. No dia de seu velório, colegas discutem quem ficará com seu cargo no trabalho, enquanto a viúva se preocupa em conseguir uma pensão do governo. Como um homem com carreira consolidada e família exemplar chegou a esse fim? E como todos nós chegamos ao inevitável fim da vida?

Encenada com primor no teatro, vale a pena relê-la (ou descobri-la, quiçá) nos tempos sombrios da pandemia.

4. “Dois hussardos”, de Lev Tolstói

Vertida também pelo incansável Lucas Simone para a editora 34, esta novela traz a guerra como um pano de fundo longínquo, pois o que realmente interessa a Tolstói então, como escreve Italo Calvino em análise incluída no volume, é “a substância mesma de que se compõem as existências humanas”. Em “Dois hussardos”, em um intervalo de vinte anos, pai e filho, ambos militares, detêm-se por uma noite na mesma cidade de província. O modo como interagem com seus habitantes, as seduções e as trapaças em que se envolvem, refletem muito mais do que o quadro mental de dois indivíduos: são índices das transformações profundas pelas quais passava a Rússia no século 19.

5. “Novelas completas”, de Lev Tolstói

Vertido diretamente do russo pelo premiado Rubens Figueiredo para a editora Todavia, este tomo traz quatro quatro novelas: “Felicidade conjugal”, publicada quando Tosltói tinha apenas 31 anos; “A morte de Ivan Ilitch”, escrita quando o autor tinha 58 anos, era pai de treze e filhos e se encontrava em uma profunda crise pessoal; a sensacional “Sonata a Kreutzer”, de 1890, baseada em uma história real e proibida à época em alguns países; e “Padre Siérgui”, em que o protagonista, um nobre e militar, homem bem-sucedido também na vida sentimental, abandona tudo para se dedicar à vida monástica.

6. “Ressurreição”, de Lev Tolstói

“Herdeira” do catálogo da Cosac Naify, a Companhia das Letras reedita pela primeira vez esta obra, vertida ao português por Rubens Figueiredo em um trabalho colossal sobre a obra tolstoiana. No tribunal para compor o júri que vai definir o futuro de Máslova ― prostituta acusada de roubar e envenenar um cliente ―, o príncipe Nekhliúdov reconhece a serva por quem, no passado, se apaixonou. Depois de seduzi-la e abandoná-la, ele agora se vê às voltas com a difícil decisão de definir sua sentença. Quem assina o prefácio é a primorosa escritora italiana Natalia Ginzburg.

7. “O diabo e outras histórias”, de Lev Tolstói

Traduzido ao português por Beatriz Morabito, Beatriz Ricci e Mayra Pinto para Cia. das Letras, o volume traz as histórias “Três mortes”, “Kholstomier”, “O diabo”, “Falso cupom” e “Depois do baile”, que sintetizam, com maestria, os temas presentes na vasta produção tolstoiana: paixão, ciúme, morte, traição, consciência moral, decadência da aristocracia, vida no campo e dilemas da justiça.

8. “Oblómov”, de Ivan Gontcharóv

Vertido direto do russo por Rubens Figueiredo, este título é outra herança da Cosac Naify — cujo preço, pasmem, chegou a ter quase quatro casas decimais nos sebos com o fim da editora. Agora, ele retorna ao catálogo da Cia. das Letras com um preço mais realista. O símbolo máximo da preguiça russa é Iliá Oblómov, protagonista deste romance homônimo de Ivan Gontcharov. Oblómov é um homem absolutamente fraco, totalmente dependente de seu servo. Espécie de Macunaíma russo, ele não sofre de depressão: a preguiça é seu modus operandi.

9. “Estrela vermelha”, de AleksandrBogdánov

Traduzida a quatro mãos por Paula Vaz de Almeida e Ekaterina Vólkova para a editora Boitempo, esta obra inédita em português de ficção científica de 1908 conta a história de Leonid, cientista e revolucionário que é convidado por um estranho camarada de codinome Menny a fazer uma expedição ao planeta Marte. Após aceitar o convite, Leonid encontra no planeta vermelho uma sociedade igualitária, apátrida, sem propriedades privadas, estratificação social ou alienação do trabalho, de alto nível intelectual, tecnológico e científico, em que a democracia prospera e os homens e as mulheres são verdadeiramente livres.

Período Soviético

10. “O diabo”, de Marina Tsvetáieva

Vertido ao português pela pioneira da tradução direta Aurora Fornoni Bernardini para a editora Kalinka, “O diabo” foi publicado primeiramente em Paris, em 1935. No livro, a poeta Tsvetáieva reconstrói em prosa suas lembranças de si mesma até os sete anos. No entanto, o texto não é “apenas um quadro vivo de sua infância, mas a interpretação mitologizada de sua vocação poética”, como escreveu Аnna Kamiénskaia. A obra traz as impressões ambíguas, sensuais, sensoriais, literárias e pluriculturais de quem era para a escritora o diabo: vivia no quarto de Valéria, sua meia-irmã, era dual e paródico.

Leia a resenha de “O diabo” aqui.

11. “A cidade Ene”, de Leonid Dobýtchin

Traduzido diretamente do russo por Moissei Mountian para a editora Kalinka, esta obra-prima do modernismo russo foi publicada pela primeira vez em 1935 e retoma de imediato a cidade N onde se passa “Almas mortas”, de Nikolai Gógol. Com traços autobiográ­cos, “A Cidade Ene” traz uma narrativa construída do ponto de vista de uma criança na primeira década do século 20. Desvela-se não exatamente uma história, mas uma sucessão de instantâneos da vida de um menino oriundo de uma burguesia elitista e religiosa com a qual ele estabelece uma relação de cumplicidade — nenhuma sutileza escapa à pena do autor.

Leia a resenha de “A cidade Ene” aqui.

12. “Vkhutemas”, de Neide Jallageas e Celso Lima

A escola soviética de arte e design Vkhutemás sempre esteve ligada às vanguardas estéticas do período e existiu entre 1918 e 1930, quando foi fechada pelo regime stalinista. Ela ficou mais conhecida por terras brasileiras em 2019, quando virou tema de uma mostra de encher os olhos no Sesc. Com sucesso das exposições, seus curadores lançam, em dezembro de 2020, um livro sobre o tema para a editora Kinoruss, que é resultado de 20 anos de pesquisas da dupla Neide Jallageas e Celso Lima.

A obra tem enorme importância bibliográfica, já que é a primeira em língua portuguesa e um dos poucos títulos no mundo sobre o tema, e realiza um resgate fundamental da escola, invisibilizada na história do design e da arquitetura, trazendo à luz suas importantes realizações na criação de revolucionários métodos pedagógicos para o ensino das artes, arquitetura e design, durante seus 13 anos de existência. Uma das maiores irradiações da escola soviética é a fundação e desenvolvimento da escola alemã Bauhaus.

13. “Arquipélago Gulag”, de Aleksandr Soljenítsyn

Vertido direto do russo pela poderosa e premiada equipe formada pelos tradutores Lucas Simone, Irineu Franco Perpetuo, Francisco de Araújo, Odomiro Fonseca, Rafael Bonavina para a editora Carambaia, esta é a primeira versão em décadas de um clássico sobre o gulag soviético. Esta obra está longe de ser uma leitura fácil e não é um romance, mas "uma tentativa de pesquisa fictícia".

Para escrevê-la, Soljenítsin conversou, durante dez anos, em segredo, com 250 ex-prisioneiros, baseando-se também em sua própria experiência no gulag. Assim, Soljenítsin conseguiu não apenas descrever todo o sistema de campos de trabalho soviético entre 1918 e 1956, mas também fazer um relato pessoal - que ele considerava ainda mais importante que o científico.

14. “Anotações de um jovem médico”, de Mikhaíl Bulgákov

Vertido ao português por Érika Batista para a editora 34, este volume reúne nove narrativas ficcionais e traz alguns dos primeiros experimentos literários de Mikhail Bulgákov (1891-1940), um dos mais aclamados escritores russos do século 20, autor de “O mestre e Margarida”. Publicados entre 1925 e 1926 em um periódico soviético direcionado aos trabalhadores da medicina, estes textos têm como base a experiência do próprio autor nos anos de 1916 e 1917, quando, logo após obter o diploma de médico na maior universidade do país, foi enviado para atuar em um pequeno hospital no interior da Rússia.

São histórias que exploram o que há de mais humano na profissão, seus medos e incertezas, bem como as agruras da população rural, formando um retrato vívido e melancólico, ainda que não desprovido de humor, de um período especialmente turbulento do país, que atravessava a Primeira Guerra Mundial, a Revolução de 1917 e a Guerra Civil.

 

Marina Darmaros é doutora em Cultura e Literatura Russa pela Universidade de São Paulo (USP). É subeditora do Russia Beyond e tradutora.

Daniel Dago é tradutor de holandês e professor do curso “Panorama da Literatura Holandesa”, no departamento de extensão da Universidade de São Paulo (USP). Idealizou e organiza o “Barco Holandês” na Flip e é responsável pela já clássica lista anual de lançamentos literários do “Jornal Plural”, que cobre todo o mercado editorial do país. 

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