Livro sobre escola soviética de arte ‘Vkhutemás’ ganha campanha no Catarse

Alexandre Nunis
Com sucesso de exposições no Sesc sobre o tema, curadores planejam livro e iniciam campanha de financiamento coletivo. Obra deverá ser lançada em abril de 2020 e é resultado de 20 anos de pesquisas da dupla.

Ainda pouco conhecida no Brasil, a escola soviética de arte e design Vkhutemás, sempre ligada às vanguardas estéticas do período, existiu entre 1918 e 1930, quando foi fechada pelo regime stalinista.

“O resgate histórico da escola Vkhutemás recontextualiza todas as relações entre diversos movimentos e linguagens da arquitetura e do design modernos a partir de suas irradiações nos anos 1920 e também posteriormente, influenciando as ações de profissionais desses segmentos por todo o mundo”, diz Celso Lima, coautor de “Vkhutemas, desenho de uma revolução”, que deverá ser lançado pela editora Kinoruss Edições e Cultura.

A obra é resultado de vinte anos de pesquisas de Neide Jallageas e Celso Lima sobre arte e design do período revolucionário russo e aprofunda o conteúdo publicado pelos curadores no catálogo da mostra “Vkhutemas, o futuro em construção”, exibida no Sesc Pompeia em 2018 e em itinerância entre o Sesc Rio Preto e o Sesc Sorocaba em 2019. No último, a mostra ficará em cartaz até janeiro de 2020, e como todas as exibições tiveram expografias diferentes, a disposição e apresentação dos objetos de arte torna cada uma delas única e diversa das demais.

Livro já tem projeto gráfico e brindes de encher os olhos para apoiadores no Catarse.

Assim como as exposições, o livro se propõe a resgatar a organização e o funcionamento do centenário complexo universitário Vkhutemás, que não encontra precedentes e nem sucessores até os dias de hoje. 

Inaugurada em 1918 em Moscou, a universidade Vkhutemás esteve alinhada à vanguarda do pensamento estético do começo do século 20, sobretudo às correntes futuristas, suprematistas e construtivistas.

Seguindo os ideais de liberdade propostos pela revolução de outubro de 1917, a Vkhutemás foi criada como um centro de experimentações, defendendo o uso da arte como instrumento educativo e de transformação social.

Em seu arrojado modelo de escola de artes e ofícios – que se distanciava dos processos distintos das chamadas “belas artes” –, a aprendizagem estava diretamente vinculada à invenção de um mundo novo, de uma sociedade diferente.

Porcelana criadas por Kazimir Maliévitch e seus discípulos Iliá Tcháchnik e Nikolai Suiétin entre 1923 e 1924 e que compõem mostras sobre Vkhutemás no Sesc.

Suas novas práticas pedagógicas se equilibravam entre atitude estética e postura política e visavam a democratizar o ensino, combater o analfabetismo e promover a emancipação feminina.

Após o abrupto fechamento da escola nos anos 1930, a maior parte dos registros históricos e ações desenvolvidas pela instituição foram destruídos ou se perderam. Mas a escola alemã Bauhaus teve em seu corpo docente muitos dos mestres que saíram da instituição soviética e um programa de ensino originário dos russos – que também inspirou a concepção do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) e as Oficinas de Criatividade do Sesc Pompeia, projeto arquitetônico e conceitual concebido por Lina Bo Bardi.

“Descrevemos na obra o surgimento das faculdades em um contexto histórico turbulento, durante a Revolução de Outubro de 1917, e relacionamos a riqueza e densidade dos anseios revolucionários de mestres e alunos, de homens e mulheres em dar concretude ao novo mundo, então nascente, em meio às tensões crescentes das disputas pelo poder na Rússia nos primeiros anos de revolução”, explica Jallageas

O comprometimento dos artistas com a perspectiva revolucionária é demonstrado já nos primeiros capítulos, onde é introduzida a insubordinação dos artistas russos, ainda nos primeiros anos do século 20, antes da Revolução. A obra segue descrevendo criticamente a gênese da Vkhutemás - a qual sucedeu os ateliês livres fundados em 1918, como o Svomás -, e colocando em relevo projetos que seriam conduzidos até o fechamento da universidade, em 1930.

Dentre os mestres e mestras que conceberam tão exigente e sofisticado pensamento pedagógico e sua respectiva aplicação, destacam-se: Maiakóvski, Kandinsky, Popóva, Ródtchenko, Tatlin, Maliévitch, Lissitzky, Stepânova, Ladóvski, Zaliêskaia e outros.

A campanha de financiamento coletivo para a obra já está aberta no Catarse e pode ser acessada até o dia 15 de novembro. Por meio dela, é possível não só financiar o título, mas também garantir sua cópia e figurar na lista de apoiadores impressa no livro - além de ganhar mimos com design exclusivo inspirado na escola. A campanha pode ser acessada aqui.

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