Uma editora para a arte e o cinema russo

Editora de Jallageas nasceu como blog em 2009, virou revista eletrônica em 2010, e passou a ser impressa em 2015 junto a outros livros da 'Kinoruss'.

Editora de Jallageas nasceu como blog em 2009, virou revista eletrônica em 2010, e passou a ser impressa em 2015 junto a outros livros da 'Kinoruss'.

Marina Darmaros
‘Kinoruss’, da brasileira Neide Jallageas, completa dois anos no papel e tem pelo menos mais três lançamentos programados para 2017.

Quando terminou o pós-doutorado em cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a pesquisadora Neide Jallageas, 58, tinha uma bagagem grande debaixo do braço. Além de esse já ser seu segundo pós-doutorado, seguido de outro no programa de Literatura e Cultura Russa da FFLCH, ela carregou, de uma escola a outra, uma criação poderosa sua: a revista “Kinoruss”, especializada em cinema e audiovisual russo.

“Eu me demiti da Belas Artes no final de 2013, fazendo meu segundo pós-doc, e comecei a montar o conselho editorial da revista. Resolvi levar o projeto autonomamente, sem vínculos universitários. A revista tem o chamado ‘Qualis’, mas não está vinculada. Em 2015, dois dias antes de o meu neto nascer, me cadastrei como microempreendedora, com uma MEI  com o nome ‘Kinoruss Edições e Cultura’, e, a partir de então, comecei a imprimir”, conta.

Cinema, arte, ensaios, memórias, biografias e outros textos não ficcionais são foco da "Kinoruss". Foto: Marina DarmarosCinema, arte, ensaios, memórias, biografias e outros textos não ficcionais são foco da "Kinoruss". Foto: Marina Darmaros

De lá para cá, o periódico, que ganhou um conselho editorial de peso (entre seus nomes, já passaram Naum Kleiman, ex-diretor da filial do Museu do Cinema, a“Eisenstein kvartira”, a pesquisadora francesa Ada Ackerman, o uspiniano Bruno Barreto Gomide, a pesquisadora moscovita Tatiana Vétrova etc.), e teve dois números impressos, já que antes circulava apenas em formato digital.

Mas não foi só isso. Então, Jallageas resolveu transformar em uma editora completa a revista, que nasceu ainda como blog em 2009 e tornou-se, pelos idos de 2010, um caderno de pesquisas.

Entre os tomos já publicados (e disponíveis na loja virtual da editora), estão “Panorama Tarkóvski” - uma coletânea sobre a obra do cineasta russo com ensaios de pesquisadores da Rússia, Romênia, Espanha e Brasil nos 30 anos da morte o diretor - e “Piranesi, ou a fluidez das formas”, escrito por Serguêi Eisenstein e aproximando proposições do teólogo Pável Floriênski e do pintor Kazimír Maliévitch.

“A ideia é ater a produção mais ao cinema e arte russos. A questão toda é ensaística, e não temos intenção de publicar ficção, no máximo biografias e memórias de artistas e cineastas. O cinema e a arte já têm um campo tão vasto que se três editoras se dedicarem exclusivamente a isso ainda terá muita coisa para ser publicada”, diz.

A Kinoruss já tem também alguns selos editoriais, como o “kartíni” (do russo, “imagem” ou “quadro”), que lançou o título de arte “Maiakóvski”, com carta da musa da vanguarda russa Lília Brik a Stálin e fragmentos de poemas e textos de Maiakóvski ilustrados por fotografias clicadas pela própria Jallageas entre 2012 e 2013 em arquivos de Moscou.

Revista, livros e festa à vista

O oitavo número da revista está programado para novembro, e com ele, a já tradicional festa de lançamento da “Kinoruss” também elaborada por Jallageas, o “Sábado Russo”.

“O sábado russo foi criado para celebrar o lançamento dos números da revista. Ele nasceu para ser lançamento e celebração, com atividades, performance, poemas, gastronomia russa etc.”, conta.

A editora também já planeja dois novos lançamentos de livros ainda para o primeiro semestre de 2017. O primeiro é baseado na tese de Jallageas sobre Andrêi Tarkóvski, relacionada também às pesquisas do filósofo russo Pável Floriênski sobre o espaço e o tempo no campo das artes e os conceitos de cronotopia de Mikhaíl Bakhtín.

O segundo será um texto da pesquisadora francesa Ada Ackerman sobre a importância da biblioteca localizada no “Eisenstein kvartira”, o apartamento do diretor na rua Smoliênski, em Moscou, que teve as portas abertas como museu, com tudo o que tinha dentro, por Naum Kleiman.

Kleiman, que foi tutor de ambas na capital russa, Jallageas e Ackerman, foi quem as pôs em contato. E o infortúnio do ex-diretor do museu as uniu ainda mais: depois de declarar apoio à Ucrânia no conflito com a Rússia em 2014, Kleiman foi destituído do cargo e afastado da instituição que ele mesmo ajudou a fundar, a despeito da movimentação da comunidade internacional, que lançou inúmeros abaixo-assinados.

“Um dia, assisti a uma conferencia da Ada sobre importância da biblioteca do Eisenstein e de observá-la para analisar o pensamento dele. Fiquei alucinada e a contatei para fazermos um livro sobre isso. Nesse ínterim, começou a pressão sobre o Naum em Moscou. Essa publicação é uma também forma de a gente homenagear o Naum e comentar a importância do trabalho dele, e será bilíngue, em inglês e português”, conta Jallageas.

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