Quando o fim não é o fim

Editora Kalinka
Em “A Cidade Ene”, novela de Leonid Dobýtchin recém-lançada no Brasil, miopia é pano de fundo da Rússia do início do século. Livro conta história de menino que lê muito e enxerga mal no cenário da guerra russo-japonesa.

Depois de ter publicado em 2009 os contos do russo Leonid Dobýtchin (1894-1936), a editora Kalinka lança agora a única novela do autor, A cidade Ene, com tradução direta do russo por Moissei Mountian e com prefácio de Valéri Sájin. Assemelha-se, assim, à ordem cronológica do percurso do próprio escritor, que, depois de ter escrito aqueles contos a partir de 1924 e de ser encorajado por colegas a se aventurar numa obra mais longa, publicou esta novela em 1935. Onze anos, portanto, foi o tempo de diferença entre as publicações de lá e daqui.

A cidade Ene é uma novela que conta a história particular de um menino que lê muito e enxerga mal, narrada por ele mesmo em retrospectiva. Cobre a primeira década do século XX numa cidadezinha russa. O narrador, esse menino de vista fraca, confunde-se com o próprio autor, e sua ficção deixa entrever o que a Rússia atravessava naquele tempo. Aparecem eventos marcantes, como exposições, revoluções, a morte de Liev Tólstoi, o centenário de Nikolai Gógol, a guerra da Rússia contra o Japão.

Dois desses eventos destacam-se. O primeiro deles é o centenário de Gógol. Embora não exerça por si só uma função prática no enredo do livro, o acontecimento faz parte de uma variedade quase obsessiva de referências a Gógol, a começar pelo título, que toma emprestado o nome da cidade fictícia de Almas mortas. O narrador, sem especificar qual a localização de seu relato, mas que muito provavelmente remete a Dvinsk (hoje Letônia), compara o lugar que vivia com a cidade Ene, pensa e imagina a cidade Ene, como se trouxesse da ficção de Gógol a distração que sua realidade pedia. “— Com o que está se distraindo? — perguntou maman. Ela sempre falava assim, em vez de: ‘— o que está lendo?’”. E ele, de fato, se distrai muito, o tempo todo menciona suas inúmeras leituras. O nome que talvez chame tanta atenção quanto a obsessão por Gógol é o de Púchkin: “— Oh, Aleksándr!” aparece na voz de uma mulher e é repetida pelo narrador por diversas vezes. Não à toa são esses nomes os mais referidos: Púchkin é considerado o fundador da literatura russa moderna; e Gógol, segundo Fiódor Dostoiévski, é de onde derivam todos os escritores russos posteriores a ele.

O segundo evento histórico a se destacar é a guerra russo-japonesa. Esta não aparece em primeiro plano, mas apenas nos comentários de quem não foi ao campo de batalha e acompanha as notícias de longe. Então por que um evento desse, cuja ação fica inacessível ao leitor — através de A cidade Ene, não ficamos sabendo detalhes da guerra, seu local, sua dimensão, os grandes feitos, seus heróis e vítimas, enfim, quase nada — por que, então, um evento desse merece destaque? Acontece que a narrativa conta o amadurecimento desse personagem: um menino que, ao início, se mantém tão colado à mãe, que chega a narrar as ações dela na primeira pessoa do plural, como se ele e ela fossem um só nós. Aos poucos, conforme a vida acontece, ele se desenvolve cada vez mais num indivíduo. Em certa ocasião, quando o menino é posto injustamente de castigo por um professor, já com as notícias dessa guerra como uma constante no cotidiano, ele é tomado por pensamentos violentos e deseja a morte do professor. Esse desejo causa estranheza ao leitor acostumado ao menino até então bem comportado. Mesmo depois que a guerra acaba e que ele descobre que esse professor morre por outro motivo, o menino continua desejando que tivesse sido ele o responsável por aquela morte. A cidade Ene não precisa detalhar nem narrar extensiva e explicitamente uma guerra para expor do que é capaz a violência — precisa somente mostrar como um acontecimento desse influencia a maneira pela qual uma criança passa a viver a vida.

Aliás, a vida em A cidade Ene passa voando. Uma estação do ano mal é registrada, e já a seguinte a sucede, de modo que as estações repetem-se todas em ritmo mecânico e de tirar o fôlego. As carruagens troam. Um navio batizado “Progresso” manobra a certa altura. As pessoas vêm e vão numa velocidade que não permite ao texto aprofundá-las. É uma verdadeira multidão de pessoas, numa quantidade proporcionalmente tão numerosa quanto à dos longos romances russos. E se não há profundidade expressa, porque a concisão e a rapidez de A cidade Ene não a permitem, tampouco há indiferença para com toda essa gente, que é nomeada uma a uma e não some numa grande massa anônima. A bem da verdade, então, não é que não haja profundidade — há; só não são todas exploradas na ocasião, quem sabe se por certa prudência do narrador. “— Como conhecemos pouco as pessoas — pensei eu — e como as julgamos incorretamente.”

Dois personagens coadjuvantes têm grande relevância para entendermos melhor o narrador, o personagem principal e o autor Dobýtchin, que até certo ponto são todos a mesma pessoa. Um deles, Serge, é o seu primeiro amigo de infância; o segundo, Andrei, é outro amigo, de quem o menino parece gostar mais. Ele sofre por achar que deve ser exclusivo ao primeiro, como se houvesse uma reprimenda por viver entre coisas diferentes e aparentemente inconciliáveis. Essa ingenuidade infantil que, mesmo depois de passar o tempo, se mantém no narrador ao relembrar a impossibilidade de duas amizades concomitantes parece a atitude de quem esquece que cresceu e que pode agora repensar de forma crítica o passado; ou, o que é mais plausível: a ingenuidade mantida serve para, na voz de uma criança, ironizar os que reivindicavam do próprio Dobýtchin o abandono de uma tradição pela modernidade do novo século. As coisas, no entanto, em A cidade Ene, são mais complexas: “Fui invadido por um tristeza agradável, e fiquei contente por eu, assim como um adulto, já recordar a infância.”

O livro, enfim, é de leitura rápida, como rápido é tudo o que passa ali. Mas numa cena, quando o menino põe um pincenê, passa a enxergar melhor e admite que a sua história pode estar incorreta devido à visão deturpada, o leitor é impelido a uma releitura para conferir o que acabou de ler. A rapidez e a brevidade da vida estão marcadas nas muitas procissões fúnebres em A cidade Ene, que não só fazem parte de todo um universo religioso desse menino criado no catecismo da Igreja Ortodoxa Russa, como também dão às lembranças escritas por Leonid Dobýtchin a sugestão de que a morte passa e não é obrigatoriamente o fim de tudo.

Luis Eduardo Campagnoli é mestrando em Teoria Literária na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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