“Não é uma felicidade participar do mundo moderno”

Rubens Figueiredo é um dos mais importantes tradutores de russo do Brasil Foto: Rafael Munduruca

Rubens Figueiredo é um dos mais importantes tradutores de russo do Brasil Foto: Rafael Munduruca

Um dos principais tradutores do russo da atualidade, Rubens Figueiredo fala com exclusividade à Gazeta Russa.

Premiado escritor de contos e romances, tendo recebido, entre outros, os prêmios Jabuti, São Paulo e Portugal Telecom de literatura, Rubens Figueiredo é responável pela recém-lançada tradução direta do russo de duas obras de Nikolai Gógol: “Avenida Niévski” e “Notas de Petersburgo de 1936”.

Um dos principais nomes da tradução direta do russo na atualidade, Figueiredo já verteu para o português dezenas de títulos em diversos idiomas, e falou com exclusividade à Gazeta Russa sobre os lançamentos:

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 Gógol na avenida

 Gazeta Russa: A que o senhor atribui esse interesse que sempre existiu pela literatura russa, mas que agora cresce com mais traduções de primeira linha, diretas do russo?

 Rubens Figueiredo: São livros muito bons, um sistema de obras incomparável. Esses livros nos propõem olhar de uma outra perspectiva, a de um povo que não participa da experiência do    mundo moderno. Eu me refiro ao mundo capitalista que foi se expandindo ao longo do século 19, e continua a se expandir.

 Essa literatura trata desses conflitos, do trauma de incorporar o mundo moderno a uma sociedade que tinha uma matriz agrária e era vista como atrasada.

 A própria Rússia se via como atrasada e tinha a França e a Inglaterra como modelos. Por outro lado, o país tinha uma história rural muito rica, sua língua, seu alfabeto, sua religião, tudo peculiar, e é um povo asiático, um povo do Oriente.

Então podemos ver hoje, lendo os livros, o que há de agressivo nessa expansão [do capitalismo], o que há de traumático para o povo, para o país, para as pessoas. Essa literatura é feita disso.

Da mesma maneira como os russos viam a Europa como superior, países tidos como avançados são os nossos modelos. Ao ler esses livros a gente sente alguma coisa que nos diz respeito.

GR: O senhor então situa o interesse em torno de uma posição periférica ao capitalismo?

RF: Eu acho que é uma chave, o debate sobre como a Rússia iria se inserir e ao mesmo tempo o preço disso. Interessa que isso é tratado como algo conflituoso e não algo bonito, ameno, feliz.

Não é uma felicidade participar do mundo moderno, é uma coisa traumática, muito diferente de um escritor inglês falando sobre a visita à colônia inglesa, onde há uma justificação da dominação. No caso da literatura russa, é um conflito generalizado, abrangia todo o espectro da experiência.

GR: E Gógol está no centro desse debate?

RF: O Gógol era da Ucrânia, do interior, da vida rural, daquelas histórias de bruxas e fantasmas. A cidade para ele era um horror. A urbanização é uma das grandes violências que a gente percebe nos livros russos e em “Avenida Niévski” eu acho que existe esse choque. Não é um passeio alegre pela rua.

GR: Quais as particularidades na tradução de Gógol?

RF: Foi muito mais difícil do que qualquer outro autor que eu traduzi. A quantidade, a variedade de palavras, e também registros de discursos muito variados, oral, escrito, formal, informal, coloquial, popular, tudo muito próximo, uma linguagem muito rica, que concentra vários padrões de linguagem em pouco espaço.

GR: O senhor consulta outras traduções para comparar com a sua?

RF: Eu sempre olho outras traduções, porque toda tradução é uma pesquisa. Se você for traduzir, vai dar outras soluções. Pode ser que eu tenha infernizado demais o texto, mas eu tento evitar isso.

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