O que foge à ordem ininterrupta da mesmice

A escritora Marina Tsvetáieva em 1911.

A escritora Marina Tsvetáieva em 1911.

Domínio público
Vertido ao português por Aurora Fornoni Bernardini, um novo volume de Marina Tsvetáieva, “O diabo”, é lançado neste mês de dezembro pela editora Kalinka. No visionário título, autora escreve que a circunstância ideal para que o diabo se aproxime de alguém é a solidão — algo bem recorrente no fatídico 2020. Mas nem tudo são trevas, segundo nosso resenhista...

Quando o escritor Vladímir Nabôkov (1899-1977) foi perguntado da influência que seu conterrâneo Nikolai Gógol (1809-1852) exercia sobre ele, respondeu que era cuidadoso o bastante para não aprender nada do autor de “Almas mortas”. A resposta, claro, é antes espirituosa do que rebelde. Vladímir Nabôkov escreveu um livro sobre Nikolai Gógol — uma mistura de biografia com crítica literária — e não é difícil de se supor que alguém que se preste a um trabalho desses acabe aprendendo uma ou outra coisinha, quer queira ou não.

A poeta Marina Tsvetáieva (1892-1941), russa assim como os dois escritores acima e inclusive contemporânea a Nabôkov, embora um pouco mais velha do que este e tendo vivido um tanto menos, diz algo semelhante sobre o livro “Almas mortas”, em “O diabo”, relato autobiográfico que acaba de ser publicado em edição bilíngue pela editora Kalinka, com tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Ou melhor: semelhante não, porque, diferente de alguém que tenha lido o livro e diz não aprender nada com ele, ela confessa nem mesmo ter acabado a leitura do clássico da literatura russa. “Assim, nunca consegui terminar de ler as ‘Almas mortas’, nem então, nem depois, pois nenhum pavor moral (prazer físico) dos heróis de Gógol nunca coincidiu, dentro de mim, com o simples pavor do título: nunca satisfez em mim a paixão do terror suscitada pelo espantoso do título”.

“O diabo” é uma prosa curta na qual Tsvetáieva resgata memórias de sua infância, dando protagonismo a senão outro que o próprio diabo. Um diabo só dela, particular, cujo nome é Mycháty e cuja aparência compara-se ao mais próximo possível de um alão, tipo de cachorro já extinto que deu origem ao dogue alemão e ao fila brasileiro, por exemplo. Porte grande, portanto. Ao mesmo tempo, no entanto, ele tem corpo de leoa, pernas para lá de esquisitas, pode ser que tenha chifres, ou não, ou seja, tanto faz a sua aparência. Tsvetáieva o reconhece mais que tudo pelo mistério dos olhos, como um sentimento que só se percebe nas expressões não verbais, porque ainda não foi posto em palavras.

Assim como uma dúzia pode também conter treze unidades, lição que Tsvetáieva aprende nos naipes de um jogo de cartas, e essa, ela afirma, é a dúzia do diabo — o diabo que é cão, ainda que não precisamente cão, pode parecer bastante com as formas do mundo, mas está ligeiramente em desacordo com o mundo. Como se fosse o diabo a personificação de tudo aquilo que escapa à atenção comum, de tudo aquilo que passa despercebido, de tudo o que foge à ordem ininterrupta da mesmice; como se fosse o diabo a poesia.

Aos solitários deste mundo

Tsvetáieva conta, a certa altura, que a circunstância ideal para que o diabo se aproxime de alguém é a solidão, condição que foi imposta a muita gente neste ano de 2020. E que era também a da menina Marina Tsvetáieva, que, apesar de interagir com familiares, ir a festas e participar de jogos coletivos, teve seus momentos solitários, como toda criança que desenvolve fecundamente a imaginação: “[...] o primeiro indício de que ele escolheu alguém é a solidão total, sempre e em qualquer lugar — a exclusão”.

Ao contrário do ditado popular de que a mente vazia se torna oficina do diabo, no caso das lembranças e do postulado de Tsvetáieva é mesmo quando a mente se enche, sobretudo de imaginação, que o diabo pode aparecer, porque terá ali algo com o que dialogar. E, para Tsvetáieva, está tudo bem que haja esta interlocução diabólica: por toda a extensão do livro, há claramente um esforço para tirar da figura do diabo o mal absoluto, conferindo-lhe o que, geralmente, conferimos à humanidade, a saber, uma oscilação entre o bem e o mal, entre o direito e o dever, a certeza e a dúvida, o certo e o errado. Diferente de Deus e das religiões, segundo ela terríveis, impositivos, fixos, fechados ao diálogo, e por isso tudo enfadonhos e desinteressantes, o diabo permite que com ele se aprenda, que a ele se ensine, que nele a vida de fato aconteça por haver conversa, surpresa, espanto, movimento, renovação, em duas ou três palavras: o diabo proporciona aos solitários deste mundo uma amizade.

Toda a narrativa do livro, na qual Tsvetáieva conta de sua infância, de seus encontros, de suas leituras, de suas percepções do que são Deus e o diabo, culmina arrebatadoramente nas últimas dez páginas, onde o ele, a terceira pessoa, o diabo, vira um tu, e nós, enquanto leitores, ficamos de vela, iluminando a transformação de um relato interessante e fruitivo numa verdadeira declaração de amor, muito apaixonada e extremamente poética, ao diabo, ao humano, à poesia.

Vale dizer, por fim, que já existe uma tradução portuguesa de O diabo, feita nos anos 1990, e publicada não de forma bilíngue. Esta é a primeira que chega ao Brasil e, de bônus, vem com um QR Code que possibilita aos estudiosos e entusiastas a audição do texto original, em russo.

Luis Eduardo Campagnoli é mestre em Teoria Literária na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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