Por que a Era de Prata da poesia russa é tão importante?

Da esq. para dir. Serguei Iessênin, Marina Tsvetáieva, Vladímir Maiakóvski.

Da esq. para dir. Serguei Iessênin, Marina Tsvetáieva, Vladímir Maiakóvski.

Viktor Gritsuk/Russky Vzglyad; Divulgação
Você não encontrará outro período na literatura russa que tenha uma concentração tão grande de poetas talentosos e que usem de maneira tão brilhante a língua russa! Quem foram esses gênios literários do início do século 20 e sobre o que eles escreveram?

O que é a Era de Prata da poesia russa?

Pesquisadores russos já escreveram enormes livros sobre esse período da literatura, dedicando vidas inteiras a ele. Mas tomamos coragem de resumi-la para aqueles que estejam se aventurando a descobri-lo agora.

Da esq. para dir.: Óssip Mandelstam, Kornêi Tchukóvski, Benedikt Livchits e Iúri Annenkov.

A Era de Prata da poesia russa é um período artístico que se inicia no final do século 19 e termina na década de 1920. São parte dele uma ampla quantidade de poetas, gêneros e estilos literários. Existe uma noção ainda mais ampla da Era de Prata da cultura russa, que inclui arte de vanguarda, teatro, cinema, fotografia e escultura - frequentemente feita por grupos artísticos compostos por pessoas de diferentes esferas.

A incrível concentração de poetas geniais durante a Era de Prata não se repetiu em nenhum outro momento da literatura russa.

Houve uma Era de Ouro?

Sim, houve uma era de ouro da poesia russa! Ela remonta ao primeiro terço do século 19. Para simplificar, chamamos os poetas do período de "poetas da Era Púchkin", porque Aleksandr Pushkin foi, com certeza, um dos maiores poetas russos de todos os tempos e o mais notável daquela época - e ele ainda é muito relevante hoje.

Além de grandes nomes como Púchkin e Mikhaíl Liérmontov, a Era de Ouro também contou com Evguêni Baratinski, Piotr Viazemski, Vassíli Jukovski e outros poetas que hoje são menos conhecidos.

Mais tarde, os pesquisadores passaram a classificar todos os autores de prosa "clássica" do século 19 na Era de Ouro, entre eles Nikolai Gógol, Lev Tolstói, Fiódor Dostoiévski, Ivan Turguiênev e Nikolai Nekrássov. O século 19 foi marcado pelo desenvolvimento de movimentos literários: do sentimentalismo ao romantismo e, depois, ao realismo e ao naturalismo.

O que diferencia a Era de Prata?

Após décadas de realismo e naturalismo na literatura, as pessoas se enfadaram e começaram a buscar novas maneiras de expressar sentimentos, novas imagens, meios poéticos e metáforas. Reproduzir a realidade se tornou uma arte, mas, ao mesmo tempo, verdadeiros artistas estavam inventando símbolos e refletindo sobre coisas que não existem no mundo real, mas, sim, no imaginário e nos sonhos. Embora isso pareça bastante normal hoje, era revolucionário na época.

Outra característica interessante sobre a Era de Prata é que ela inclui poetas muito diversos entre si. Eles começaram a se reunir, a criar manifestos para seus movimentos, a discutir ferramentas poéticas e até a organizar “cabarés poéticos”, onde liam seus poemas e organizavam duelos literários.

A maioria desses poetas era respeitosa com a literatura passada, brincava com imagens e com poetas da Era de Ouro e deixava sugestões e alusões a outros poetas nas entrelinhas. É por isso que ler e tentar entender a poesia da Era de Prata hoje é uma tarefa desafiadora.

Ilustração para o poema de Blok “Os Doze”.

Obviamente, a Era de Prata testemunhou a Revolução de 1905 e a Revolução de 1917. Esses eventos não poderiam ficar à parte da arte produzida por seus representantes: os poetas repensaram, reconsideraram e reinterpretaram os contecimentos com seus talentos artísticos e um dos exemplos mais vívidos é o poema de Alexander Blok "Os Doze", em que ele acrescenta uma imagem de Jesus Cristo. Não está claro se Jesus lidera a procissão dos bolcheviques ou se ele é estimulado por eles a deixar o país.

Quem são os principais poetas da Era de Prata?

É preciso destacar os principais movimentos literários da Era de Prata. No entanto, é importante notar que todos esses poetas tinham um rico caminho artístico e sua arte e estilo mudavam ao longo do tempo, além de que eles se comunicavam frequentemente uns com os outros.

  1. Simbolismo
Aleksandr Blok (esq.) e Marina Tsvetava (dir.).

Os simbolistas escreviam por meio de símbolos porque estavam interessados ​​na filosofia idealista, segundo a qual tudo e toda noção da Terra tem seu próprio símbolo em um mundo metafísico. A primeira geração de simbolistas (ou dos "simbolistas mais velhos") foi composta por Dmítri Merejkóvski e sua mulher, Zinaída Guippius, Valéri Briusov, Konstantín Balmont e Fiódor Sologúb. Seus versos são geralmente chamados de "decadentes" e estavam voltados para a estética pura.

A segunda geração (ou os “Simbolistas mais jovens”) era de místicos que apelavam ao símbolo do eterno feminino que poderia aparecer como um belo estranho ideal ou uma criatura efêmera sagrada e é composta por Andrêi Biéli, Viatchesláv Ivánov e Aleksander Blok, um dos mais famosos simbolistas. Mais tarde, a eles se juntaram Borís Pasternak e Marina Tsvetáieva.

  1. Acmeísmo
“Retrato de Anna Akhmatova”, por Natan Altman.

O movimento acmeísta não tinha tantos membros, mas todos eram poetas muito poderosos: Anna Akhmatova e seu marido, Nikolai Gumilióv, Óssip Mandelstam e Serguêi Gorodetski. Eles enfrentavam fortemente outros simbolistas e seus métodos artísticos.

O acmeísmo tratava de objetos e detalhes da vida real. Em suas metáforas, eles comparavam a natureza a objetos inanimados e até a objetos criados pelo homem. Eles chamaram o grupo de “Guilda dos Poetas” e afirmavam que a poesia era uma arte, pesquisando seu nascimento.

  1. Futurismo (Ego-Futurismo, Cubo-Futurismo)
Vladímir Maiakóvski se apresenta diante do soldado Exército Vermelho, em 1929.

Vladímir Maiakóvski , Velimír Khlébnikov, Aleksêi Krutchenikh, Ígor Severianin, David Burliuk e muitos outros nomes foram inovadores na poesia, assim como Maliêvitch na arte. Eles eram radicais e tentavam abolir tudo o que tinha sido inventado na poesia antes deles: queriam destruir todas as rimas, versos, formas e até as próprias palavras. Eles construíam seus poemas como figuras geométricas e usavam metáforas bizarras.

  1. Nova poesia camponesa
Serguêi Iessiênin (esq.) e Nikolai Kliuev (dir.).

O final do século 19 e o início do século 20 foram marcados pelo renascimento do estilo e da moda russos para todos os motivos tradicionais da arquitetura e da arte. E a literatura não foi uma exceção.

Um dos poetas camponeses mais famosos foi Serguêi Iessiênin, que chocou os refinados simbolistas, surgindo em roupas de camponês completas e lendo sua poesia. Nikolai Kliuev e outros apelaram para o campo, retratando a natureza russa, elogiando os prados e bétulas e analisando como tudo isso influenciou seus sentimentos. Eles eram muito nostálgicos em relação às aldeias, mas passavam muito tempo nas grandes cidades.

  1. Imaginismo
Serguêi Iessiênin (esq.) e Anatóli Marienhof.

Esse movimento surgiu em Moscou, após a Revolução, formado por Anatóli Marienhof, Serguêi Iessiênin, o dramaturgo Nikolai Erdman e outros. Essas pessoas eram leais à Revolução e estavam inspiradas pela nova liberdade.

Elas elogiavam o cinismo e a falta de moral e não hesitavam em criticar e rejeitar a religião. O movimento terminou rápido, em 1925, após Serguêi Iessiênin ser encontrado morto em um hotel em São Petersburgo. Ainda há debate sobre se o poeta se matou ou se foi assassinado pelos serviços de inteligência soviéticos.

Por que e como a Era de Prata terminou?

Frequentemente, considera-se que o fim da Era de Prata chegou com o suicídio de Vladímir Maiakóvski, assim como com o fortalecimento do regime de Stálin. A nova política soviética deixou claro que esses poetas não eram mais necessários e, mais ainda, eram prejudiciais e destrutivos para os cidadãos soviéticos.

Um homem soviético devia, em primeiro lugar, pensar em sua terra natal, no proletariado e na construção do comunismo. Os poéticos versos da Era de Prata, no entanto, focavam o ser humano, a alma e os sofrimentos pessoais e filosóficos - que não deviam mais ser existir, mortos junto com o capitalismo.

O censor soviético passou a ler todos os poemas com muito cuidado e impedia rapidamente a publicação de muitos poetas. Os próprios poetas às vezes encontraram destinos horríveis. Óssip Mandelstam foi preso por causa de um poema contra Stalin e morreu em um campo de prisioneiros, em algum lugar do Extremo Oriente. Muitos poetas foram executados ou cometeram suicídio e os que sobreviveram tiveram que permanecer calados.

 

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