Monólogo põe em cena novela de Tolstói

A atriz Cácia Goulart interpreta Ivan Ilitch no monólogo baseado em romance de Tolstói Foto: divulgação

A atriz Cácia Goulart interpreta Ivan Ilitch no monólogo baseado em romance de Tolstói Foto: divulgação

"A Morte de Ivan Ilitch" fica em cartaz no Espaço Redimunho de Teatro, em São Paulo, até 7 de dezembro.

“O homem só não anda de quatro porque morre. Portanto, nada de subestimar a morte”, sentenciou o dramaturgo Nelson Rodrigues.

O monólogo “A Morte de Ivan Ilitch” aborda justamente essa faceta ao mesmo tempo comum e trágica do fim de todos nós, da qual só o ser humano tem consciência.

Baseado na novela homônima do escritor russo Lev Tolstói (1828-1910), o espetáculo trata-se de uma adaptação livre da tradução que Boris Shnaiderman fez para a Editora 34.

De origem aristocrática, Tolstói foi um escritor obcecado por questões como o sentido da vida e a religião. Aos poucos, tornou-se vegetariano, pacifista e um cristão radical, simpatizante do anarquismo e cultivador de hábitos extremamente simples.

A atriz Cácia Goulart escolheu montar o triste fim de Ilitch depois de assistir à agonia de sua própria mãe, vitimada por um câncer na vesícula.

Cácia, que já foi indicada na 21ª. edição do Prêmio Shell como melhor atriz por outro texto literário adaptado (“Bartleby”, de Herman Melville), atua e dirige sozinha a montagem, cuja dramaturgia divide com Edmilson Cordeiro.

Vida e a morte de um juiz de direito

A história dos últimos momentos de vida do juiz Ivan Ilitch, publicada em 1886, virou um clássico da literatura mundial.

“Ninguém quer estar em contato com a sua finitude, mas isso é elementar inclusive para traçar melhor sua trajetória de vida. A pessoa saudável precisa estar em contato com a morte”, diz Cácia.

O personagem do título é um magistrado burguês, pai de um casal e com uma vida convencional, voltada para o conforto e para a família.

Principal objeto cênico é uma mesa que se transforma em tribuna de julgamento, mesa de jantar, cama e caixão Foto: divulgação

Na novela de Tolstói, Ilitch é tão cioso da sua imagem na sociedade quanto da sua carreira. 

Ele se casou com Praskóvia  Fiódorovna, uma mulher bela e rica. A união foi muito mais uma solução de conveniência para as questões práticas da vida social do que uma comunhão de afinidades.

Assim que começa a subir na vida profissional, Ilitch adquiriu uma bela casa. Um dia, estando sobre uma escada, cuidando de detalhes da arrumação do novo lar, dá um passo em falso, se desequilibra e bate a lateral do corpo contra a moldura da janela.

O que nos primeiros tempos parecia um acidente doméstico banal, aos poucos evolui para uma doença que não encontra diagnóstico preciso na medicina.

O sintoma inicial se resumia a uma dor incômoda entre as costas e o ventre, acompanhada de um gosto amargo na boca.

Nas mãos dos médicos que procuravam sua cura, o juiz inverteu os papéis a que tinha se habituado e passou de magistrado julgador a um doente cujo quadro de saúde era constantemente julgado.

Em razão da doença, Ilitch vai definhando vagarosamente e todo o castelo social que ele construiu acaba por ruir.

No embate com a morte, vem à tona toda a miséria da sua condição humana: solidão, indiferença, interesses escusos, sentimento de que se tornara um peso para todos e de que tinha se deixado envenenar pelas companhias que o cercavam.

Ao seu redor, o juiz constata que as pessoas só pensam em si mesmas, no dinheiro que ele vai deixar, na vaga que sua morte abrirá na magistratura e no desejo se verem livres do doente e dos incômodos que a doença representa.

O único que lhe dá algum carinho e atenção desinteressada é Guerássim, um camponês sintonizado com a vida e a morte, que trabalha como cuidador.

O juiz moribundo faz então uma revisão de sua biografia, concluindo que sua existência foi um fracasso e que ele havia apenas reagido às demandas sociais, sem se preocupar com o real significado da vida.

“À beira da morte, ele tem uma consciência tardia de que vestiu uma máscara e ficou distante de si mesmo, desejando coisas que talvez fossem importantes para os outros e não para ele”, analisa Cácia.

No palco, os espaços simbólicos do trabalho, do lar e da morte, habitados por Ilitch, se misturam.

“Como a história não é linear, dividimos a montagem em três planos: o tribunal, a casa e o velório. Também juntamos à trilha sonora ladainhas mineiras, que têm a ver com a minha história de vida”, conta a atriz.

A montagem opta por um minimalismo cromático, reduzindo o cenário e a luz praticamente aos tons preto e branco para expressar a vida sem cor protagonizada pelo magistrado.

O principal objeto cênico é uma mesa, que se transforma em tribuna de julgamento, mesa de jantar, cama, andador de idoso, cova e caixão, resquícios materiais da existência vazia de um personagem à beira da extinção.

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