Releitura dos ‘Sete de Chicago’ por Godard na fase ‘Vértov’ entra no streaming brasileiro

Cena do filme "Vladimir e Rosa"

Cena do filme "Vladimir e Rosa"

Grupo Dziga Vértov, Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin, 1971
Filme polêmico de 1971 traz pesadas críticas do cineasta francês ao sistema político em período altamente inspirado por diretor soviético.

Já há alguns anos no Brasil, a plataforma de streaming de filmes cult Mubi traz neste mês “Vladimir e Rosa” (1971), que fica em cartaz até 15 de maio (e pode ser assistido gratuitamente por meio de uma parceria entre o Mubi e o Russia Beyond).

Dirigido e estrelado por Jean-Luc Godard (1930) e Jean-Pierre Gorin (1943), criadores do Grupo Dziga Vértov, o filme foi exibido, na época de seu lançamento, apenas entre operários e estudantes e traz uma releitura do julgamento dos chamados "Os sete de Chicago" - sete réus acusados pelo governo dos Estados Unidos de conspiração, incitação à revolta e protestos contraculturais, em 1968, em Chicago.

Cena do filme “Vladimir e Rosa”.

Em “Vladimir e Rosa”, os diretores se concentram na justiça em relação aos movimentos feminista, pacifista, social e negro, focando a história de Bobby Seale, dos Panteras Negras. Na vida real, Seale foi condenado pelo juiz Julius Hoffman, que mostrou seu lado racista ao negar a Seale o pedido de julgamento em separado e o manteve algemado e amordaçado no banco dos réus. No filme, o magistrado é pintado com as cores que usou no julgamento, chamado até mesmo de “Adolf Himmler” (aqui, uma mistura do führer com o comandante da SS).

Os diretores se inserem entre os julgados usando os nomes Friedrich Vladimir e Karl Rosa, que rendem título à película. É uma alusão a uma mistura efervescente de Friedrich Engels, Karl Marx, Vladímir Lenin, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Enquanto os dois primeiros foram os teóricos alemães da revolução e o segundo, mentor do processo revolucionário do início do século 20 na Rússia, Luxemburgo era uma filósofa e feminista polonesa, defensora da democracia mesmo em meio a revolução e do pacifismo, e Liebknecht, autor do livro “Militarismo e antimilitarismo”, que denuncia o imperialismo e militarismo alemão do início do século 20.

Assim, o caso dos “Os Sete de Chicago” é transformado em um microcosmos da sociedade revolucionária francesa, e Godard e Gorin interpretam Friedrich Vladimir e Karl Rosa, respectivamente, discutindo política e como mostrá-la por meio do cinema. Os dois conversam, por exemplo, através e ao longo de uma rede de tênis em meio a um jogo de duplas, em um possível simbolismo de sua libertação da classe. O experimento resulta em uma obra de arte altamente politizada, e a exibição do filme em si pela plataforma em alta qualidade e com legendas em português é uma joia rara.

Grupo Vértov

“Vladimir e Rosa” é também uma produção do período em que Godard trabalhou com seu Grupo Dzíga Vértov (1968-1972). O Vértov que inspirou o grupo, nascido Denis Kaufman (1896 - 1954), ganhou impulso na Rússia quando Vladimir Lênin, após a Revolução de 1917, colocou o cinema como o principal canal de divulgação da nova ordem social da União Soviética.

Vértov se tornou o responsável pelo primeiro cinejornal do Estado Soviético e, como defensor do cinema documental, criou os conceitos kinoglass (cine-olho) e o kinopravda (cine-verdade), fundamentais para a formação do cinema direto adotado por diversos diretores nos anos 1960, com a combinação olho/câmera/realidade/montagem.

Dziga Vértov.

Assim, os integrantes do coletivo de Godard – já então adepto do maoísmo e afastado do revisionismo soviético - consideravam que o trabalho cinematográfico deveria refletir integralmente as questões políticas, mostrando os eventos de maio de 1968, ápice de um processo iniciado bem antes nas universidades francesas, com estudantes que se organizavam em grupos marxistas. Em uma entrevista, Godard afirma que o grupo buscava, naquele momento, um contato estreito com as massas.

Os manifestos estudantis ocorridos na França em 1968 motivaram a continuidade de movimentos revolucionários em outras partes do mundo, como, por exemplo, protestos contra a Guerra do Vietnã, que passava por sua fase mais violenta. O ano foi ainda marcado pelo assassinato de Martin Luther King, enquanto na antiga Tchecoslováquia ecoavam protestos que culminaram com a Primavera de Praga, além, é claro, da luta revolucionária em curso nos países sul-americanos contra as ditaduras militares e a dos países do continente africano pela descolonização.

Em "Vladimir e Rosa" a mensagem parece bem transparente já nos primeiros minutos: colocar-se em oposição àqueles que os diretores chamam de fascistas burgueses e expor o sistema de justiça - com a imagem de que os resultados dos julgamentos já são conhecidos antes mesmo do julgamento em si ou até mesmo na comparação do sistema judiciário com uma peça teatral, em menção a Bertolt Brecht.

No filme são igualmente apresentados vários recursos de documentário, filme repetição, cinecartaz, intervalos, cortes sistemáticos, representação do movimento hippie e trilha sonora do grupo Rolling Stones, hino da juventude e representação de ideais revolucionários. 

O olho da câmera capta aquilo que o olho humano é incapaz de ver, com o foco se deslocando para a experiência, a "cinessensação do mundo", a verdadeira realidade, a cine expressão da verdade. Como em Vértov, nada pode escapar da verdade, a imagem é a representação da humanidade em seus feitos e problemas. A imagem é parte da busca por uma sociedade justa.

Edelcio Americo é doutor em Letras pelo Programa de Literatura e Cultura Russa da Universidade de São Paulo, tradutor, intérprete e professor de língua russa.

 

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