É possível combater a falta de amor com uma boa arritmia?

O ano de 2017 se encerrou com duas excelentes obras produzidas pela cinematografia russa: Sem amor, de Andrei Zviáguintsev e Arritmia de Boris Khlébnikov.

O ano de 2017 se encerrou com duas excelentes obras produzidas pela cinematografia russa: "Sem amor", de Andrei Zviáguintsev e "Arritmia" de Boris Khlébnikov. O primeiro, que já perambulou pelas telonas do Brasil, ficou mundialmente famoso, entre outras coisas, pela indicação ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

"Arritmia", apesar de não ter alcançado a mesma projeção internacional, atingiu um grande público, entre outras coisas, por sua sutileza, que se dá em meio à brutalidade.

Mesmo com um enredo bastante simples, o longa "Arritmia" recebeu vários prêmios e tocou muitos espectadores, não apenas por conta da tensão dos atendimentos médicos, a frenética vida dos socorristas nas ambulâncias, mas pelo sofrimento nas relações mais íntimas dos personagens principais, a dificuldade real de desempenhar o papel de protagonista de nossas próprias vidas, sem nenhuma máscara ou escudo, e de revelar os sentimentos mais verdadeiros e puros. 

Cena do filme Arritmia

Oleg Mirónov, na ótima intepretação de Aleksandr Iatsiénko, é um médico socorrista que nos atendimentos prima pela habilidade e conhecimento da medicina, sabe ousar e improvisar, mesmo sem os recursos necessários; não tem medo de encarar as mais terríveis situações e o inesperado e é capaz de ignorar as ordens de seus superiores quando elas colocam em risco a vida de seus pacientes.

No entanto, ao chegar em casa, diante de sua esposa Kátia, interpretada pela jovem e promissora Irina Gorbatchióva, Oleg usa artifícios para se esconder da realidade, fugir de sua própria vida. Parece uma criança que acredita que, se nada for feito, tudo se ajeitará sozinho.

No ambiente familiar, ele se esforça para não entender o que desagrada sua esposa e os motivos que a levaram a pedir a separação.

No seu pequeno cosmos de paz, o trabalho, Oleg vê na mudança de chefia mais uma coisa contra a qual não consegue lutar, a nova realidade do “socorrismo” no país, a tentativa de convertê-lo em um elemento predominantemente estatístico.

Khlébnikov, ao colocar igualmente os personagens principais se cruzando também no ambiente de trabalho, revela uma dualidade paradoxal e acentua a diferença de comportamento de um homem determinado e corajoso no trabalho e um “adolescente” dormindo em um colchão na cozinha de sua casa. 

Em sua vida, Oleg parece concentrar todos os seus esforços na profissão, não conseguindo crescer como homem, como marido. A separação não ocorre porque ambos parecem estar a espera de um milagre - talvez algo que esteja relacionado à profissão de médico, já que, quando não há mais o que fazer, é preciso acreditar em milagres. 

O diretor aproxima a condição de vida dos protagonistas e de grande parte dos espectadores: Oleg e Kátia moram em um apartamento apertado de um quarto e todos os pacientes atendidos pelo médico também vivem em condição semelhante, sempre em prédios antigos de poucos andares. A vida dos personagens é mostrada de forma bastante simples.

"'Arritmia" se coloca, ainda, como uma reflexão crítica sobre a situação atual da medicina no país, no contexto das reformas implementadas na última década. A posição do diretor do filme fica bem clara, mas os fatos são indicados de forma objetiva, sem histeria.

Nos últimos anos, os filmes russos tendiam a representar cenários que buscavam sair da realidade, em um sentimento nostálgico de volta ao passado, ou se esconder atrás de uma imagem glamorosa ou, ainda, mostrando o lado mais sombrio do homem e da sociedade, o que levava a plateia à mais completa depressão.

"Arritmia" retrata a vida na Rússia em sua forma cotidiana, em toda a complexidade contraditória e com muitos detalhes cirurgicamente inseridos.

O filme "Arritmia" deixa de lado as grandes intrigas, cenas comoventes, estética sofisticada e revelações celestiais. É comum, como a própria vida.

Nele, as pessoas morrem, lutam, sofrem pelo amor que não conseguem manifestar, para aprender a falar sobre seus sentimentos, algo como uma unidade atrofiada do ser que precisa lutar para superar a dificuldade de revelar o inevitável.

Ou seja, não é possível ter vida sem alguém para amar. É impossível salvar o outro sem conseguir salvar a si próprio.

Oleg não pode viver dentro das convenções sociais: o estresse do trabalho, o trânsito, a luta contra o tempo, o sangue, as mortes, tudo o distrai dos problemas pessoais e recai na dificuldade de demonstrar seus sentimentos.

O processo de aprendizado é mostrado durante o filme, uma forma de trabalhar suas próprias emoções, que inicialmente o destroem, mas gradualmente se tornam o início criativo de um ato de amor, uma forma de seguir adiante, de dar o próximo passo.

Oleg tenta se esconder atrás do álcool, com a constante presença de pessoas em casa e as emergências. Aos poucos, aprende a demonstrar seus sentimentos para outras pessoas.

Falar sobre amor com Kátia é um ato de superação, de deixar de se esconder, de sair da zona de conforto. Encarar os problemas de frente.

Após a aguda crítica de Zviaguintsev em "Leviatã" e "Sem amor", "Arritmia" apresenta os problemas de um ponto de vista mais esperançoso, sem deixar de atentar para a gravidade deles e para a necessidade de muitas mudanças.

Khlébnikov tenta mostrar que a sociedade consegue, mesmo que nem sempre, fazer algo além de se destruir, de se desiludir e de se separar; que há ainda algumas moléculas de esperança e de amor pela vida, apesar de os batimentos já estarem cada vez mais frágeis. 

Por terem entrado em cartaz no mesmo ano, é impossível não traçar alguns paralelos entre os filmes "Arritmia" e "Sem amor".

No caso de Zviáguintsev, a obra detalha, impiedosamente, como toda uma vida pode ser destruída com palavras e atitudes. Como um casal jovem em crise acaba por perder o principal, o próprio filho, sem sequer perceber inicialmente a gravidade da perda.

Zviáguintsev reflete sobre a falta de amor que nos cerca, começando pelas famílias destruídas, a indiferença na escola e chegando aos grandes conflitos militares.

Trata também da perda do amor como habilidade, uma fuga para estética da verdade que desagrada, a verdade da impossibilidade de mudança, uma verdade negra que amedronta. A destruição do indivíduo e, por consequência, do coletivo.

Nós como que procuramos encontrar o amor como um tesouro ou como um prêmio e, junto do amor, um outro mundo, onde tudo se apresenta da forma que sonhamos, embora sejamos incapazes de dar qualquer passo nesse sentido.

Cena de Sem amor

Ievguiênia (Mariana Spivak), personagem principal de "Sem amor", após o horror da perda do filho, tenta recomeçar a vida, agora repleta de felicidade. Um dos símbolos mostrados por Zvianguintsev é uma roupa nova.

No entanto, a felicidade para ela continua longe, nada acontece, afinal a roupa pode ser nova, mas a pessoa, em seu estado interior, continua sendo a mesma. 

"Arritmia" nos ensina a síntese: superar, refazer e reconectar os sentimentos, permanecendo, como resultado, renovado, inteiro e vivo, mesmo depois de uma grave crise de identidade.

Podemos dizer que este é o principal ponto de distanciamento entre os filmes "Sem amor" e "Arritmia". Um é o fato da análise, o outro é o fato da síntese, e ambos representam os polos de uma mesma realidade, extremamente complexa.

Um mostra o problema em detalhes, com uma lupa, o outro mostra um passo para tentar resolver o problema sem se destruir. Ambos os processos são inevitáveis.

Sem análise não pode haver síntese, sem crise não pode haver renovação. Como é do conhecimento de todos, não se pode aprender com os erros dos outros.

Não é possível aprender a andar sem cair algumas vezes. Além disso, sem síntese, não pode haver análise, do contrário é apenas uma decomposição e desfragmentação do sistema, sem tentar salvá-lo.

 Edélcio Américo é doutor em letras (russo) pela USP, professor de russo do programa de línguas estrangeiras modernas da UFF, tradutor e intérprete.

As opiniões expressas neste artigo pertencem ao autor e não refletem necessariamente as do Russia Beyond.

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