O que os soldados do tsar comiam?

Domínio público; George Muse/russiainphoto.ru
O cardápio dos soldados russos do século 18 ao 19 e como ele afetava o desempenho do exército.

“Morar em Paris é ruim, irmão: não tem nada para comer e não adianta nem pedir um pedaço de pão de centeio!” disse Piotr Cheremetev a Aleksandr Púchkin quando retornou à Rússia, após seu serviço diplomático na França, 1827. Mas por que ele falava especificamente de pão de centeio? Rico em vitaminas e preparado com fermento, o pão de centeio era o alimento básico de qualquer russo — inclusive os soldados.

Sem pão de centeio, o exército russo não funcionava. Durante a Guerra Russo-Turca de 1735-1739, os trens de suprimentos russos não conseguiam chegar à Crimeia a tempo e o exército foi deixado a deus-dará. Christoph von Manstein, um militar prussiano, escreveu que “o que mais enfraquecia os soldados era que eles estavam acostumados a comer pão de centeio azedo e ali tinham que comer pão de trigo sem fermento”.

Exército comedor de "kama"

Kama (esq.).

Antes de Pedro, o Grande, a nutrição dos militares russos durante as campanhas era deixada por conta própria — assim era desde os tempos antigos. Quando um tipo de exército regular apareceu no Tsarado de Moscou, os servidores receberam lotes de terra para seu sustento – utilizando-se do trabalho dos servos.

Mas, durante as campanhas, os militares russos anteriores a Pedro tinham que caçar, pescar nos rios locais e comprar comida dos mercadores nos trens que seguiam o exército.

Pão de centeio.

A dieta de um combatente russo daquela época era simples e não muito rica em proteínas. Pão de centeio (feito onde os vagões eram estacionados); repolho azedo; cebola e alho – que não eram apenas nutritivos, mas estimulavam o sistema imunológico; diferentes tipos de mingaus — fáceis de transportar e rápidos de cozinhar. Mingaus de milhete, aveia e cevada eram comuns na dieta das pessoas simples.

Mas, quando estavam em trânsito, os soldados até preferiam “kama” (em estoniano; em russo, chama-se “toloknó”, derivado da palavra “tolotch”, que significa “moer”), ou seja, farinha de aveia torrada. Ela não precisava ser fervida, e podia ser ingerida em qualquer lugar. Nos acampamentos temporários, a “kama” era preparada em água quente para obter mingaus nutritivos que acompanhavam peixe seco ou banha. A banha de porco era picada ou esmagada e usada para enriquecer quase todos os mingaus.

Carne desidratada era um produto nem sempre disponível, especialmente nas épocas úmidas do ano — os pedaços de carne seca apodreciam muito rapidamente com a umidade. Assim, os soldados levavam cogumelos secos e nabos consigo a longas marchas. Mas isso não era fornecido por oficiais do exército: era cada um por si. Por isso, os soldados caçavam e pescavam onde e quando podiam.

Mingau de trigo sarraceno com cebolas e cogumelos.

Pedro manda carne

Sem um suprimento regular de proteínas, o exército russo da época pré-petrina era mal nutrido. E talvez essa tenha sido uma das razões para seu desempenho ruim no século 17.

Foi o tsar Pedro que, em 1700, criou pela primeira vez um cargo especial para oficiais do exército, o “Proviantmeister General”, que era responsável pelo abastecimento de alimentos do exército russo.

Agora, o quinhão de alimentos de cada soldado consistia em duas partes: sua comida e a forragem para seu cavalo. Durante as campanhas estrangeiras, só a forragem era fornecida aos soldados — presumia-se que o soldado mesmo iria se alimentar saqueando o território inimigo. A ética militar do século 18 considerava o território capturado sujeito a saques.

Mas, em casa, a ração diária de um soldado era de 820 gramas de pão de centeio, 410 gramas de carne, 250 miligramas de vodca (um copo) e 3,27 litros de cerveja! Além disso, todos os meses, um soldado recebia cerca de 6 quilos de diferentes farelos para mingaus, além de 820 gramas de sal. Quanto mais alto era o posto do militar, mais alimentos ele recebia — um coronel, por exemplo, tinha direito a até 50 rações diárias.

Isso não significa, porém, que os coronéis recebessem 20 quilos de carne. O quinhão diário era distribuído em dinheiro aos comandantes e, com esse dinheiro, os suprimentos podiam ser comprados dos mercadores no vagão de trem. Em 1720, uma norma foi estabelecida de 75 copeques por dia “para o sal” e 72 copeques “para a carne”.

Os soldados recebiam esse dinheiro junto com o salário. A compra dos alimentos e seu cozimento eram feitos por cozinheiros selecionados por cada companhia (de 100 a 250 soldados). Os cozinheiros viajavam com o vagão de trem — eles iam à frente do exército e chegavam na parada seguinte mais cedo para ter tempo de cozinhar a comida.

Posteriormente, a dieta do soldado de Pedro finalmente incluía carne. Mas faltavam gorduras, peixes, verduras — eram os mesmos repolho, beterraba, cebola, nabo, alho etc. Durante os jejuns religiosos, cuja duração naquela época era de 200 dias por ano, a carne era substituída por peixe.

Pedro se preocupava muito com a qualidade do pão: “É preciso ver especialmente se o pão e a farinha não estão podres ou fedorentos, para que nenhuma doença ocorresse no exército”, escreveu Pedro em seu Estatuto Militar de 1716. “É necessário para controlar o [pessoal das] padarias de campo, para que [...] não diminuam o peso [da farinha] definido pelas regras.”

Famintos de novo

O marechal de campo Aleksandr Suvorov divide a refeição com seus soldados.

A dieta do soldado estipulada por Pedro era de apenas cerca de 3.100 quilocalorias, enquanto a necessidade nutricional diária de um homem de 18 a 40 anos realizando trabalho físico pesado é de 4.200 a 4.500 quilocalorias. Ainda assim, a dieta permaneceu praticamente intocada durante todo o século 18.

Durante a época de Isabel da Rússia, torradas passaram a fazer parte da dieta — eram leves e fáceis de transportar. Mas, durante longos acampamentos e cercos a cidades, os soldados não conseguiam se sustentar com pão por muito tempo, pois começavam a ter distúrbios digestivos - comer pão seco frequentemente traumatiza o epitélio do intestino humano e causa sangramento. A “diarreia do miolo de pão” se tornou uma ocorrência comum no exército.

Torrada de pão de centeio.

Depois das guerras napoleônicas, a nutrição do exército russo piorou ainda mais. A carne escasseou novamente na dieta do soldado. Os soldados eram alimentados com sopas (de repolho, de ervilha, de aveia etc.) e aqueles mesmos mingaus de aveia e cevada. Mas isso não era suficiente para manter os soldados saudáveis. O escorbuto, doença causada pela falta de vitamina C, se espalhava entre os militares. O historiador e médico Aleksandr Putchkóvski escreveu que, em 1830, cerca de 760 mil soldados adoeceram de escorbuto e mais de 70 mil deles morreram.

A má nutrição afetou negativamente o desempenho do exército: os russos tiveram dificuldades com o levante de Varsóvia entre 1830 e 1831, assim como com a revolução húngara de 1849. Na Guerra da Crimeia, os problemas de abastecimento estavam entre os piores — de novo, assim como na Guerra Russo-Turca de 1735-1739, não havia trens de suprimentos e alimentos suficientes para sustentar o exército russo na Crimeia. Não houve, durante toda a campanha da Crimeia, frutas e vegetais para o exército russo e os recursos locais da Crimeia terminaram rapidamente. Assim, a má nutrição foi um dos principais motivos da derrota da Rússia na Guerra da Crimeia.

Para combater a corrupção no sistema de abastecimento do exército, na época de Alexandre 2°, os oficiais do exército voltaram a dar aos soldados um quinhão de comida obrigatório que continha 913 gramas de farinha e 120 a 130 gramas de mingau por dia. Não era muito — mas, em meados do século 19, a ração de pão dos soldados alemães ou franceses era de apenas 750 gramas por dia.

Uma das primeiras cozinhas de campo, na Guerra Turco-Russa de 1877-1878

Carne, gordura, verduras e óleos não estavam inclusos nas rações obrigatórias e os soldados recebiam um bônus em dinheiro para comprar os produtos necessários nos vagões de abastecimento. No entanto, verduras frescas eram raras mais uma vez e, geralmente, eram substituídas por ervilhas e repolho.

Após a guerra russo-turca de 1877-1878, quando muitos soldados tiveram queimaduras com as geadas e ficaram resfriados nas campanhas de inverno, os russos ganharam de volta a dose diária de álcool, de 145 gramas de vodca. Com o aumento do consumo de chá, ele também foi introduzido ao cardápio dos soldados. Assim, em 1905, os soldados tinham direito a 737 gramas de chá por ano — enquanto os soldados ingleses recebiam 2,5 quilos de chá por ano e um marinheiro inglês, mais de 3 quilos.

Os produtos enlatados demoraram a ser introduzidos no exército russo. Isso ocorreu apenas em 1873, durante a campanha de Khiva, quando sopas e carnes enlatadas foram distribuídas ao exército — mas os soldados russos não aceitaram comê-las. Mas, no final do século 19, a carne ensopada em lata já tinha se tornado comum para os soldados russos. As latas eram abertas com uma faca ou baioneta, aquecidas na fogueira e o guisado, comido direto da lata.

No início da Guerra Russo-Japonesa, todos os regimentos do exército russo estavam equipados com cozinhas de campanha que permitiam preparar os alimentos mesmo durante as marchas, em trânsito. Apenas em algumas companhias do exército o preparo dos alimentos ainda era feito à moda antiga, em panelas e caldeirões. No início do século 20, o suprimento de alimentos do exército russo era equiparável aos dos exércitos europeus.

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