Como os italianos construíram o Kremlin (e ajudaram Moscou a vencer guerras)

História
GUEÓRGUI MANÁEV
Os russos mal conseguiam fabricar tijolos antes de contratarem italianos. Os engenheiros estrangeiros eram proficientes em guerra e arquitetura, e por salários generosos ajudaram a construir a grandiosidade de Moscou.

A principal arma do grão-príncipe Ivan 3º de Moscou não eram seus homens ou suas táticas, mas os canhões italianos. No impasse histórico contra os tártaros, liderados por Ahmed, cã da Grande Horda, no rio Ugrá em 1480, o exército de Ivan contou com canhões feitos pelo engenheiro italiano Aristotele Fioravanti – enormes morteiros de bronze que poderiam literalmente rasgar a cavalaria tártara em pedaços. Sem se envolver em uma luta completa, o exército de Ahmed se retirou para as estepes.

Os maiores salários de Moscou

Ridolfo ‘Aristotele’ Fioravanti chegou à Rússia em 1475, quando tinha cerca de 60 anos. Especializou-se na restauração e transposição de campanários de sino e torres de castelo bem como na construção de pontes. Em 1474, na Europa, Aristotele foi abordado por Semion Tolbuzin, enviado do grão-príncipe de Moscou e contratado por 10 rublos de Moscou por mês – quando na Rússia, por apenas um rublo, um servo podia comprar toda a sua família, casa e terra de seu senhorio.

O salário de Aristotele era provavelmente o mais alto de todo o Estado de Moscou. Ivan precisava que ele reconstruísse a Catedral da Dormição, o principal templo do Estado de Moscou, que havia parcialmente desabado durante um terremoto.

Após chegar a Moscou em 1475, Aristotele ordenou a remoção do restante da catedral desmoronada, projetou um novo fogão para produção de tijolos, criou uma nova mistura de tijolos e fundou o primeiro moinho de tijolos de estilo italiano em Moscou. Suas técnicas permitiram concluir a catedral de 35 metros de altura e cinco cúpulas em somente dois anos – além da decoração, que levou mais dois anos.

Mas Aristotele não era o único arquiteto italiano em Moscou. Talvez ainda mais importante tenha sido Pietro Solari, que chegou de Milão em 1490. Solari projetou o Palácio das Facetas e seis torres do atual Kremlin de Moscou, incluindo a torre do relógio – a torre Spasskaya (do Salvador), que se tornou o principal símbolo do complexo. Outros italianos, como Antonio Gislardi e Marco Ruffo, também trabalharam na construção das muralhas e torres do Kremlin. Portanto, não é à toa que os muros do Kremlin lembram a arquitetura italiana – o projeto é, de fato, italiano.

Os italianos responderam por outras façanhas de Moscou nos séculos 15 e 16. Em quase todos os exércitos europeus do período, os engenheiros italianos foram os melhores na concepção de armas e explosivos, diz o historiador Mario Corti em seu livro “Militares italianos a serviço russo”.

Figurões na Rússia

Simultaneamente à construção da Catedral da Dormição, dentro das muralhas do Kremlin de Moscou, Fioravanti organizou uma fábrica de armas, onde produzia-se pólvora e forjava-se armas. Da primeira fornalha saíram 16 canhões leves; fáceis de manusear e transportar, rápidos de recarregar, foram mortais no final do século 15.

Ivan levou Aristotele à guerra contra a República de Nôvgorod. Em 1479, Fioravanti controlou pessoalmente uma unidade de artilharia que bombardeou a cidade e os obrigou a se render: “As armas eram incessantemente disparadas porque Aristotele era mestre de seu ofício”, diz uma crônica russa. O italiano ensinou as tropas russas a disparar canhões em certos momentos da batalha, treinou-as para organizar disparos incessantes e lidar com diferentes tipos de armas de fogo, explica Mario Corti. Na batalha de Ugrá, Fioravanti também estava na força principal. A sua última menção nos documentos russos foi em 1485 – talvez tenha morado na Rússia por apenas dez anos, mas deixou um grande legado para trás.

Em 1488, supostamente após a morte de Aristotele, outro armeiro italiano, Paolo De Bossis, criou um “grande canhão” (como descreve uma crônica russa) chamado Pavlin (‘pavão’, que soa exatamente como o nome de Paolo em russo). Por sinal, esse canhão continuou em uso até, pelo menos, 1563, quando foi mencionado durante o cerco de Ivan, o Terrível, a Polotsk. Já o armeiro Jacobo, também italiano, chegou a Moscou em 1490 e criou pelo menos 15 canhões pequenos. Pode-se dizer que no final do século 15 e no início do 16 os italianos dominaram a produção de armas russas.

Italianos vs Tártaros

O filho de Ivan 3º, o grão-príncipe Vassíli 3º de Moscou, também recorreu à ajuda de arquitetos e armeiros italianos; durante seu reinado, a Igreja da Ascensão em Kolomenskoie foi projetada e construída por Pietro Annibale, que também respondeu pelo muro da fortaleza de Kitai-Gorod, cercando os bairros centrais de Moscou.

Ivan, o Terrível, o primeiro tsar de Moscou, usou engenheiros de guerra italianos na conquista de Canato de Kazan. A Crônica de Kazan, criada de 1560 a 1565, a única fonte que conta a história da conquista de Kazan por Ivan, menciona os estrangeiros.

Em 1552, Ivan, o Terrível, tentou, pela quarta ocasião, capturar Kazan. Desta vez, ele levou italianos para ajudar a explodir as muralhas da cidade. Segundo as crônicas, o tsar conversou pessoalmente com os engenheiros, informando que as muralhas do Kremlin de Kazan eram muito fortes; mas os italianos disseram que as derrubariam em questão de dias com uma explosão. “Isso será feito”, rebateram os italiano. “Apenas isso, ou matar os defensores de fome, poderá ajudar a tomar esta cidade.”

Os italianos construíram quatro torres mais altas que as muralhas da cidade que foram usadas pelos arqueiros para atacar a guarnição do Kremlin de Kazan. Também fizeram várias pontes sobre o fosso do Kremlin e, enfim, abriram túneis levando à fundação das muralhas, colocando explosivos dentro deles. Em um determinado momento durante o cerco, os muros desmoronaram com as explosões, e a infantaria de Ivan, atravessando o fosso pelas pontes, invadiu a cidade. O tsar havia tentado tomar Kazan por quase 5 anos, desde 1547, e só conseguiu graças aos italianos.

Após o governo de Ivan, o Terrível, os italianos pararam de trabalhar em Moscou porque, com a crise econômica e militar, os tsares russos não podiam pagar aos engenheiros os salários exigidos. No entanto, um século depois, o tsar Pedro, o Grande, contratou novamente construtores e armadores italianos para erguer a nova Rússia. A Catedral da Dormição, a Igreja da Ascensão e, o mais importante, o Kremlin de Moscou estão intactos até hoje e em uso constante – e já faz 500 anos que os russos sabem como fazer tijolos com propriedade.

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