Por que Stálin tentou criar um Estado judeu em plena Sibéria?

Desenho de judeus deportados no início do século 20. Judeus sofreram na Rússia durante a Revolução de 1917 e a Guerra Civil, entre outros eventos.

Desenho de judeus deportados no início do século 20. Judeus sofreram na Rússia durante a Revolução de 1917 e a Guerra Civil, entre outros eventos.

Global Look Press
Na década de 1920, Iossif Stalin apoiou a concessão de uma terra própria aos judeus soviéticos. A Região Autônoma Judia, porém, mostrou-se um fracasso, em grande parte devido a sua localização, nos rincões do Extremo Oriente. Mesmo assim, ela ainda existe até hoje, apesar de os judeus comporem apenas 1% de sua população.

O início do século 20 foi um tempo difícil para os judeus na Rússia. Eles só podiam viver dentro dos limites do Pale, a zona de assentamento de judeus no país, e enfrentaram violentos pogroms. Em 1905, por exemplo, 800 pessoas foram mortas nesses assentamentos devido a turbulências políticas.

O Pale foi abolido após a Revolução de Fevereiro de 1917, mas como todas as outras etnias na Rússia, os judeus sofreram horrendamente durante a Guerra Civil (1918-1921), quando facções militares de todos os lados roubavam, violentavam e matavam, saindo impunes.

Pelo menos 200 mil judeus foram mortos durante a Guerra Civil, de acordo com estatísticas. Quando a paz retornou e o poder soviético se solidificou, o governo começou a cogitar sobre como lidar com “a questão judia”.

Decisões de Stálin

Multidão de refugiados judeus ao ar livre na Rússia. Um dos três oficiais uniformizados analisa seus documentos.

Dizia-se que o líder soviético Iossif Stálin, subiu ao poder em 1924, era um antissemita. Apesar disto, ele negava veementemente tais afirmações e dizia que o antissemitismo era “um vestígio do canibalismo”. Mesmo assim, ele achava que era preciso fazer algo com os judeus soviéticos.

Após a Revolução de Outubro, o comércio e artesanato, principais ocupações dos judeus então, eram vistos de maneira negativa por razões de classe. Por isso, o governo planejava transformar os judeus em camponeses.

Stálin estava ávido por fazer a população judia dispersa viver em um território claramente definido e lhes conceder autonomia nacional, algo que muitas das outras nacionalidades soviéticas também tinham.

Para além de ajudar a resolver problemas domésticos, a criação de um tipo especial de “sionismo socialista” para judeus soviéticos também ajudaria a competir com o projeto sionista para a Palestina que estava ganhando corpo naquele tempo. Mas onde colocar a “Terra Prometida” soviética?

A Califórnia da Crimeia

A primeira opção surgiu em 1926, quando Moscou anunciou apoio à região autônoma da Crimeia, para onde quase 96 mil família judias se mudariam.

O projeto ganhou dimensões internacionais quando, em 1929, a URSS assinou um acordo com o Comitê Judaico Americano de Distribuição Conjunta, organização de assistência exclusiva a judeus em risco baseada em Nova York. A associação concedeu 1,5 milhão de dólares anuais para financiar a “Califórnia da Crimeia” e o reassentamento dos judeus na região.

A URSS começou a equipar as comunas na Crimeia para que os judeus ali vivessem. Tudo começou bem: diversas comunas foram criadas e funcionavam eficientemente, plantando sementes e desenvolvendo a criação de gado.

Mas os problemas logo começaram quando grupos locais que invejavam os gordos financiamentos concedidos aos judeus da Crimeia começaram pogroms e criaram agitações graves pela península.

Plano “B”

A família judia dos Guefen em sua terra natal em Birobidjan, na Região Autônoma Judia da URSS. Colonizadores judeus começaram a chegar à região em 1928.

Insatisfeito, Stálin começou pouco a pouco a fechar a “Califórnia da Crimeia” e inventou um novo plano: enviar os judeus para áreas remotas na Sibéria, onde havia muitas terras e nenhum motivo para guerrear.

Em 1928, as primeiras famílias judias começaram a se mudar para a bacia do rio Amur, nas vizinhanças de uma pequena aldeia, Tikhônkaia (em tradução literal, “A Quieta”).

Gradualmente, ela se transformou na cidade de Birobidjan, 6.000 quilômetros a leste de Moscou, e se transformou na capital da Região Autônoma Judia.

Revistas oficiais judias soviéticas publicavam poemas e contos dedicados à região, que passou a ser conhecida como “a Palestina Soviética”, um porto seguro há muito aguardado por este povo sem terra.

O que deu errado?

O projeto de concessão de terras a judeus soviéticos, porém, não foi muito além de placas em ídiche junto a outras em russo. A viagem a Birobidjan era extremamente longa e árdua, e o reassentamento, mal organizado.

O status da região também não era claro: não era uma república, mas uma mera “região autônoma” com privilégios incertos dentro da Região de Khábarovsk. Então, em 1935, Stálin decidiu não delegar real autonomia à região, deixando os judeus soviéticos mais uma vez sem Estado.

Além disso, Stálin não planejava deixar judeus estrangeiros se mudarem para lá, mesmo nos anos 1930, quando muitos tentavam escapar de países europeus ameaçados pelos nazistas.

O líder soviético ainda executou muitos dos oficiais judeus da região, tanto antes como depois da Segunda Guerra Mundial.

Situação atual

Praça Lênin, em Birobidjan, nos tempos da URSS.

Com a fundação do Estado de Israel, em 1948, os judeus tinham lugares muito mais atraentes para onde se mudarem que a remota região no norte asiático soviético. Logo após sua criação, Israel tornou-se adversária da URSS, por isso Stálin estava cético sobre ajudar os judeus.

“O próprio Stálin arruinou a Região Autônoma Judia como uma base nacional [do povo judeu]”, escreveu o historiador da região Valéri Gurevitch.

A Região Autônoma Judia ainda existe, e Birobidjan tem hoje uma população de 75 mil pessoas. De acordo com o censo de 2010, porém, os judeus compõem apenas 1% desse número. Quase 90 anos após a ideia ser esboçada, está claro que os planos para uma “Palestina do Extremo Oriente” fracassaram.

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