Klara Gourianova e a sincronicidade

Arquivo pessoal
A professora, mestre em Teoria Literária e escritora Elisabet Moreira discorre sobre sua amizade com uma das pioneiras da tradução direta do russo no Brasil, que morreu em janeiro de 2021.

Segundo a Wikipedia, a sincronicidade é “um conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal, e sim por relação de significado. Desta forma, é necessário que consideremos os eventos sincronísticos não relacionados com o princípio da causalidade, mas por terem um significado igual ou semelhante. A sincronicidade é também referida por Jung como ‘coincidência significativa’”.

Há muito venho rememorando exemplos e procurando me informar. Não sou psicóloga e nem vou entrar em discussão pró ou contra Jung. Foram os encontros com minha amiga russa, Klara Gourianova (1932-2021), recentemente falecida, que me incentivaram também para essa escrita, uma homenagem pelos significados que essa amizade representou.

Em 1972, saí de um apartamento quitinete na Bela Vista, centro de São Paulo, e mudei, com o marido e o filho de um ano, para o bairro de Veleiros, zona sul de São Paulo, depois de Santo Amaro. Uma tranquilidade de final de linha de ônibus, de pequenas casas residenciais com muro e jardim.

Fazia o curso de Letras/Russo na USP. Acho que foi no mercadinho do bairro que me encontrei com Klara Gourianova em vez primeira. Não me lembro de detalhes, talvez estivesse com o livro de russo ou alguma frase foi proferida; sei que deveríamos nos encontrar ali para eu treinar o incipiente aprendizado.

Ela me convidou para ir a sua casa e lá estive várias vezes, em rua não muito distante. E conheci seu marido, o pintor Octávio Araújo, em seu ateliê. Sempre gostei de desenhar, mas poder apreciar o trabalho de um verdadeiro artista foi um acontecimento especial. A própria Klara me convidou para observar Otávio pintando quando eu quisesse, mas “perdi” a oportunidade, pois tinha filho pequeno, trabalhava como professora primária e ainda fazia universidade. Poucas vezes pude observar.

Mas alguma coisa aprendi, pois o próprio Octávio era um intelectual notável. Falou de sua paixão por Rilke na literatura e Ingres na pintura, pesquisando sempre e recriando composições fascinantes para suas telas e gravuras. E a modelo quem era? Sua esposa Klara.

Eles eram um casal até insólito, dado que Octávio era negro, paulista do interior, e Klara, clara como seu nome, russa. Haviam se conhecido em Moscou, quando Octávio ganhara uma bolsa de estudos para a União Soviética em 1960, onde ficou por oito anos.  Curiosa, fiz algumas perguntas e soube que Klara trabalhava com arte e tinha contatos com artistas estrangeiros. Klara me contou alguns detalhes de sua vida de casada, das dificuldades e até mesmo perseguição porque o regime soviético via com maus olhos casamentos com estrangeiros, pois isso implicava numa saída futura do país e uma propaganda negativa.

Minhas ilusões e idealismo sobre o comunismo na URSS foram então apresentadas de um ponto de vista bem diferente para a jovem universitária na época. A própria vinda do casal para o Brasil não foi nada fácil, inclusive porque já tinham dois filhos, Kiril e Arinka.

Ganhei uma cópia desta belíssima e instigadora gravura. Disseram-me que nela havia um defeito... nunca vi. Ainda hoje ocupa um lugar de destaque em minha casa, algo valioso e especial, do qual muito me orgulho possuir.

“Cântico onírico em louvor de Nefertite.”

Na parte inferior, podemos ler, manuscrito à lápis: P.A. V/V Litograv. “Cântico onírico em louvor de Nefertite” Octávio/74.

Pena que, ao fotografar, minha imagem fica refletida no vidro. Ainda tateio nos caminhos do digital e da tecnologia... Mas o título da obra, sugestivo e poético, diz muito do caminho artístico de Octávio. A simbologia e a perfeição dos desenhos e detalhes me instigam até hoje. Octávio Araújo (1926-2015) um grande pintor. Conheceu Portinari, pertenceu à geração de 47, era amigo de Marcelo Grasman, gravador de renome nas artes brasileiras. Pude ver, ainda em processo, alguns dos mais belos quadros de Octávio. Geralmente de grandes proporções, encomendas de milionários ou empresas paulistas.

E eu me divertia muito com isso, brincando com Klara, pois ela, às vezes, ficava impaciente com a demora de Octávio para finalizar suas obras, já que tinha as contas a pagar em sua realidade burguesa... Mas, eu pressenti: “Olha, Klara, um dia você ainda vai morar no Morumbi, o bairro dos ricos paulistas.” Não sei se isso realmente aconteceu, mas ela se mudou de Veleiros mais tarde.

Klara também fazia tapeçaria de tear. Trabalho muito lindo que nunca me atrevi a fazer. Pelo meu interesse com bordados e outros trabalhos manuais ela me deu uma coleção maravilhosa de motivos. Inspiração de outras terras...

Em 1976, me mudei para Petrolina, em Pernambuco. Mantivemos uma correspondência, mas, lamento, perdi suas longas cartas. Acredito que foi nessa época que ela trouxe para o Brasil sua irmã, Elena, juntamente com o filho pequeno. Da correspondência, restaram duas fotos e algo que muito me marcou. Elena trouxe um casal de belos galgos russos pois pretendia vender seus filhotes e garantir uma renda.

Casal de galgos russos no Brasil.
Arinka e seu primo com um dos cães.

Arinka agora me lembrou: “Essa da foto é a fêmea, Lanka. Ela teve uma vida muito curta, morreu de osteosarcoma antes de completar um ano de idade. Foi uma comoção geral, era muito linda... O casal de galgos veio do canil real, os dois eram descendentes diretos dos cães imperiais.” O garoto é Vadim Nikitin, hoje ator, tradutor e encenador.

O distanciamento e uma grande mudança em minha vida, agora com duas filhas, terminando de escrever a monografia do Mestrado, dando aulas na Faculdade de Petrolina, me afastaram de muitas amizades, de colegas uspianos e de vizinhos.

Certo dia, assistindo ao noticiário na TV, quem eu vejo acompanhando uma comitiva russa em visita ao Brasil? Sim, Klara Gourianova, reconheci imediatamente, atuando como intérprete. Foi muita emoção e é disso que guarda minha memória, olvidando outros detalhes. Sim, Klara atuou como intérprete em várias ocasiões, trabalhando para o Itamaraty.

Vez em quando viajava para São Paulo, pois minha mãe morava na cidade, assim como alguns de meus irmãos ou, por outros motivos, passava por lá. E uma visita fundamental era ir à casa de Boris Schnaiderman, meu mestre e meu amigo de muitas décadas.

Boris havia se casado com Jerusa e me convidou para tomar um chá em seu apartamento, avisando que haveria também outra pessoa convidada.  Nossa, quem estava lá? Klara Gourianova! Foi uma alegria enorme. Comemos do bolo de casamento, ou o bolo da noiva, como brincava a sorridente Jerusa. Isso foi em 1986.

Boris Schnaiderman, Klara Gourianova, Elisabet Moreira e Jerusa Pires Ferreira. 1986, São Paulo.

Acho que foi até indelicadeza nossa, mas Klara e eu conversamos muito, sobre nossas vidas, filhos, trabalho. Bom, nem tudo deve ser colocado aqui, mas há detalhes que guardo como referências até mesmo de um modo de encarar o mundo, mais crítico e mais aberto. Só ficamos nesta conversa e neste inesperado encontro. Outros rumos tomamos, sem encruzilhadas possíveis.

Século 21, outubro de 2017, referências indiretas me levam a mais descobertas e encontros(des)... Pela TV, no Canal Brasil, zapeando sem qualquer indicação (sincronia?), assisto ao filme Anna K. do artista plástico José Roberto Aguilar, de 2015. Levei um susto quando se destaca o nome de Boris Schnaiderman como ator. Na verdade, Boris é apenas citado em uma das falas e há uma gravação em off dele lendo um poema de Púchkin, logo no início do filme. No geral, depois, ficamos sabendo que Boris foi a grande referência para a realização desse filme, dado seu comprometimento e divulgação da literatura russa no Brasil.

O filme gira em torno de Joana, mulher que sofre de dupla personalidade e pensa ser Anna Karênina, personagem do romance de Leão Tolstói. A personagem quer aprender russo e adorei lembrar de minhas aulas, ainda no final dos anos 1960. O professor-personagem, soube depois, é Vadim Nikitin e aparece Elena Nikitina, mãe de Vadim na vida real, também como professora de russo.

Isso me intrigou... pesquisei sobre o filme, sobre o lançamento e encontrei no Facebook o perfil de Elena Nikitina e resolvi escrever  para ela, em 9 de dezembro de 2020. "Gostei muito do filme, da produção. Mas, por favor, sua mãe ou seu pai é parente de Klara Gourianova? Fui vizinha de Klara há muitos anos em São Paulo e perdi o contato.”

Sim, a partir de então, via o nome de Klara, grafado como Klara. E uma resposta constrangedora: “Elisabet Moreira, boa tarde! Sou Elena Nikitina, irmã da Klara Gurianova. Ela está no hospital agora. Fraturou o fêmur. Vai ser operada na sexta feira, colocando prótese. Ela tem 88 anos e no momento está muito debilitada. Vamos esperar como corre a operação e a recuperação dela.”

Klara Gournianova faleceu em 7 de janeiro de 2021. No perfil de Arinka Araújo, encontro uma doce caracterização de Klara, de 11 de maio de 2014:

“Russa guerreira, lutadora, passou fome na guerra, tirou do próprio prato para dar de comer aos filhos, já no Brasil, recomeçando a vida! Aqui vai minha singela homenagem à menina que virou ‘mãe’ aos 8 anos, para cuidar da irmã recém-nascida enquanto meu avô lutava na 2° Guerra e minha avó tinha que trabalhar. Mãezinha querida, Deus me abençoou quando me deu a oportunidade de ser sua filha! (...) Te amo eternamente!”

Klara Gourianova (1932-2021) em foto usada em seu perfil no Facebook.

A Klara, mulher, também foi retratada em belas alegorias nas obras de seu marido, Octávio Araújo.

Pitonisa, óleo sobre tela de Octávio Araújo. 1975

Neste pandêmico ano de 2021 é que venho a saber mais da obra de Klara Gourianova como tradutora de obras da literatura russa. Já havia lido alguns contos traduzidos por ela, mas não me atinara para esse lado profissional que assumira há alguns anos.

Li uma opinião bem arguta de Klara, no jornal Folha de Londrina, de agosto de 2003, justificando o interesse dos leitores brasileiros pela literatura russa. Segundo ela as razões para esse interesse não são novas, “vêm do tempo em que o mundo comunista era fechado e ‘um enigma’, tanto para os que defendiam a sua ideologia quanto pelos que a atacavam – mas teriam se fortalecido com o aumento do intercâmbio entre os países a partir da Perestroika, no fim dos anos 1980. (...) Além disso, há muitas semelhanças entre os dois países: geográficas, demográficas e econômicas. Rússia e Brasil são ricos e pobres, ao mesmo tempo.”

Em outra entrevista, em 2010, publicada no jornal Folha de São Paulo, perguntada sobre quantas obras traduzira, ela respondeu: “Umas 25. Só traduzo diretamente do russo, que é minha língua materna.”

De Dostoiévski, Klara verteu "Humilhados e Ofendidos" e "A Aldeia de Stepântchikov e Seus Habitantes", além de obras de Púchkin, Tolstói, Tchékhov, Gógol, G[orki, Turguêniev, M. Aguêiev, “e outros [autores] que não estão no domínio público, mas traduzo para mim, porque gosto.” Interessante relacionar que, na entrevista citada anteriormente, ela disse ter vontade de traduzir Clarice Lispector e Zélia Gattai para o russo.

“Não vou dizer que traduzir é fácil, ao contrário, sempre surgem dificuldades, e é claro que recorro a dicionários e todo tipo de consultas que achar necessário.” Ela respeitava, sobretudo, o estilo de cada autor, como uma obrigação do tradutor.  Em último caso, colocava uma nota explicativa. Não é difícil encontrar obras traduzidas por Klara nos catálogos de muitas editoras.

Intelectual comprometida com seu ofício, soube caracterizar a literatura russa clássica e a contemporânea.  “A clássica é mais universal em todos os sentidos, já a contemporânea, principalmente do período soviético, é mais voltada para a vida e os problemas do país que três vezes mudou bruscamente de regime, sofreu duas revoluções e duas guerras — uma civil e outra contra os alemães, ambas sangrentas, o terror stalinista, os campos de concentração... Falo da literatura, não do ‘realismo socialista’ que não considero como tal. Além disso, as novas ondas e tendências que ocorreram na literatura, nas artes e na música no mundo inteiro, não deixaram de atingir a literatura russa contemporânea.”

Não posso mais ter a presença de Klara Gourianova e trocar informações, livros, saberes, mas acredito que, nestes textos, a memória de minha amiga pôde ser revivida. Parti em busca de Klara e a encontrei...

Petrolina, primeiro dia do mês de março de 2021.

Elisabet Moreira é professora, mestre em Teoria Literária, crítica e escritora. Vive em Petrolina, Pernambuco, de onde escreve o blog BET (com t mudo).

Agradecemos a Elisabet Moreira por conceder a permissão para publicação do texto e a Arinka Araújo pela permissão de publicação das imagens que o ilustram. 

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