Esta aeromoça salvou 43 vidas recentemente – então por que a Rússia a esqueceu?

Elena LaputskaIa

Zvezda TV
Elena Laputskaia executou sozinha os procedimentos de evacuação, resgatando dezenas de pessoas de um avião em chamas. Mas, ao contrário de caso recente nos arredores de Moscou, a comissária não obteve reconhecimento formal.

“Minutos antes da tragédia aérea.” Esse é o nome (em russo) do vídeo que circula na internet há um mês e meio. Nele, um pequeno avião de passageiros em um trajeto nacional de rotina é forçado a fazer um pouso de emergência.  Primeiro o avião sobrevoa áreas habitáveis ​​e, em seguida, dispara em grande velocidade em direção à pista. O pouso só é interrompido por uma construção. O autor deste vídeo poderia estar morto se não fosse pelos esforços de uma mulher.

A comissária de bordo Elena Laputskaia, de 41 anos, teve diversas costelas quebradas, mas isso não a impediu de ser a única pessoa a adotar os procedimentos de emergência, salvando 43 vidas na aeronave. “Ela fez o impossível”, descreveu a imprensa. Mas depois foi esquecida.

É irônico que, quando esse ato de heroísmo foi enfim trazido à tona por dezenas de meios de comunicação meses depois, isso ocorreu por razões totalmente diferentes.

“Percebi que toda minha equipe tinha morrido”

O avião AN-24, operado pela companhia aérea Angara, fazia o trajeto de Ulan-Ude para a pequena cidade de Nijneangarsk, na Buriátia, no último dia 27 de junho. Grande parte do voo seguiu conforme planejado. Os problemas tiveram início pouco antes da descida; um dos motores parou de funcionar a cerca de 30 km do destino.

Os passageiros e a tripulação rapidamente perceberam o que estava acontecendo; um passageiro relatou, mais tarde, que ninguém, porém, entrou em pânico. “E quando a aeronave finalmente pousou, houve uma sensação de alívio, mas depois...”, declarou.

O AN-24 seguiu direto da pista para o solo, atravessando outros 100 metros e colidindo com uma estação de tratamento. O motor direito começou a pegar fogo. O capitão, Vladimir Kolomin, e o técnico, Oleg Bardanov, morreram quase de imediato. O copiloto escapou pela saída de emergência da cabine e sobreviveu. Havia apenas um comissário de bordo para os 43 passageiros – Laputskaia.

“Assim que o avião pousou, entendi que a situação era grave, que eu precisava agir rápido. E quando ele saiu da pista, entendi que as coisas estavam ruins. Então houve um forte impacto. Foi quando percebi que minha equipe provavelmente tinha morrido. Mas mantive a calma, sabia o que tinha que ser feito”, lembrou a comissária em entrevista ao jornal “Komsomolskaya Pravda”.

Mesmo antes do incêndio no avião, Laputskaia conseguiu arrombar as portas de emergência – e foi assim que quebrou três costelas e machucou uma perna. Levou apenas cinco minutos para evacuar toda a aeronave, incluindo os deficientes.

Ela foi a última a sair.

Flagrante injustiça

Após o incidente, a companhia aérea escreveu ao Ministério dos Transportes pedindo que Elena fosse “recompensada por sua coragem e sacrifício”. Mas a decisão foi simplesmente relegada. O caso veio à tona novamente após outro “milagre” recente, em 15 de agosto, quando dois jovens pilotos conseguiram pousar um avião de passageiros em um milharal perto Moscou com os tanques cheios de combustível, salvando 233 vidas. Eles foram imediatamente premiados com o título de Heróis da Rússia, e o resto da tripulação recebeu Medalhas da Bravura.

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“Sem qualquer dúvida do merecimento da recompensa da equipe da [companhia aérea] Uralskie Avialinii, a situação com Laputskaia parece uma flagrante injustiça. Uma injustiça descabida. Então, parece que, se ocorre uma emergência nas proximidades de Moscou, os heróis são elogiados. Quanto a Nijneangarsk, fica muito longe, quem se importa, certo?”, escreveu na internet um jornalista do Rossiya-1.

E o comentário dele é apenas um dos centenas.

O descontentamento público logo se transformou em uma campanha e, desde então, uma carta foi escrita ao presidente Vladimir Putin para tratar do assunto.

A comissária passou três semanas no hospital, “ainda se recuperando das costelas quebradas, e o hematoma na perna se recusa a ir embora”, disse sua mãe, Irina, em entrevista recente. Segundo ela, a filha não espera medalhas por suas ações, e que a ação não se deve apenas a ela. “Acho que [os pilotos] deliberadamente conduziram a aeronave em direção à estação de tratamento. Foi assim que foi parada. Caso contrário, teria continuado em direção a áreas residenciais”, declarou.

Laputskaia está na aviação há 18 anos e garante: não tem planos de parar.

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