Gematogen, a guloseima russa feita com sangue de boi

Pixabay; Legion Media; Trinity1van/Wikipedia
Mesmo durante a escassez de alimentos na URSS, as crianças podiam contar com guloseima vendida em farmácias.

À primeira vista, não há nada de extraordinário nessa barra de proteína – parece uma barra de chocolate comum em um invólucro brilhante. Tem cheiro delicioso e tanto as crianças como os adultos adoram seu sabor de baunilha.

“Gematogen” significa “gerar sangue” e seu principal ingrediente é a albumina, uma proteína encontrada no plasma sanguíneo do boi. Muitos estrangeiros ficam surpresos com a possibilidade de fazer doces com sangue, e se você acha que as crianças russas não sabem o que é o Gematogen, engano seu. Todos estão plenamente cientes de sua origem sangrenta.

A guloseima foi inventada na Suíça em 1890. Na época, era apenas uma mistura de sangue bovino e gema de ovo, chamada de “Gematogen de Gomel”. Na União Soviética, era inclusive receitada às crianças, para aumentar seus níveis de ferro, e aos soldados feridos do Exército Vermelho, para ajudar na recuperação. A URSS começou a produzir sua própria versão nos anos 1920 e, durante a Segunda Guerra Mundial, as barras de Gematogen foram incluídas na alimentação dos soldados.

O Gematogen era frequentemente produzido pelas fábricas de carne depois de os touros serem abatidos – era uma boa maneira de lucrar com o sangue dos animais, que de outra forma teria sido desperdiçado. As barras eram vendidos ao público apenas em farmácias, mas agora são comercializadas em várias lojas.

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Valentina, de São Petersburgo, lembra que, quando criança, o médico lhe prescreveu Gematogen porque apresentava baixa taxa de hemoglobina. “Eu obedientemente comia tudo o que me davam”, afirma. “Aliás, ainda como essas barras, talvez uma a cada dois meses”, continua. Antigamente, as barras de Gematogen eram também recomendadas para mulheres grávidas e lactantes para aumentar os níveis de ferro.

O que mais há nas barras além de sangue?

De acordo com o padrão do Estado soviético, além da albumina, o Gematogen tinha os seguintes ingredientes: leite condensado, açúcar, xarope de glicose e vanilina. Nos dias de hoje, porém, os fabricantes produzem barras de Gematogen para todos os gostos, adicionando vitaminas B e C, nozes, frutas secas e chocolate.

Atualmente, é possível encontrar barras de Gematogen em quase todas as ex-repúblicas soviéticas, da Ucrânia à Lituânia, e até mesmo na Europa e nos EUA. Na Rússia, há cerca de uma dúzia e meia de empresas que produzem a guloseima sangrenta. Mas, segundo um fabricante de Novosibirsk, após o queda da URSS, muitas fábricas de processamento de carne pararam de produzir albumina e, por isso, necessitam comprá-la no exterior.

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O processo de produção leva cerca de 24 horas: primeiro, todos os ingredientes doces são aquecidos e misturados. Quando a mistura esfria por completo, a albumina é então adicionada (se a mistura ainda estiver quente, o sangue pode coagular).

Mas, afinal, Gematogen faz bem à saúde?

Hoje, muitos russos não estão mais convencidos dos poderes mágicos do Gematogen. Mesmo porque a albumina representa apenas 5% de cada barra, enquanto o resto é basicamente feito de açúcar – as barrinhas são feitas de um terço de leite condensado. Por esse motivo, o motivo não é indicado pela alergista e gastroenterologista russa Tatiana Bandurina. “Alimentos açucarados levam à disfunção gastrointestinal, o que pode resultar em alergias”, explica.

Os médicos recomendam, portanto, não comer mais do que duas barras por dia e tratar o Gematogen como uma sobremesa. Segundo os especialistas, para introduzir ferro à dieta, é preferível consumir alimentos como carne vermelha ou grãos.

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