Abismo entre gêneros na Rússia ainda é mais profundo para mulheres

Como em muitos outros países, a Rússia tem uma longa história de abusos contra as mulheres, e antes de 1917 era um país patriarcal.

Como em muitos outros países, a Rússia tem uma longa história de abusos contra as mulheres, e antes de 1917 era um país patriarcal.

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Em pesquisas, cidadãos dizem que são a favor de direitos iguais, mas realidade é bem diferente.

Em outubro, uma professora da cidade de Sarátov pediu que seus alunos do quinto ano escrevessem sobre o papel dos gêneros em casa.

Após uma aluna escrever exatamente as mesmas tarefas para homens e mulheres – cozinhar, lavar a louça, arrumar a casa, lavar roupa, pegar as crianças na escola – sua irmã tirou uma foto do caderno e postou no Twitter com os dizeres: “Acho que minha irmã mandou bem nessa tarefa sexista”.

O tuíte se tornou viral na internet russa, e não devido à tarefa. Um rapaz respondeu ao tuíte: “Ainda é sexista. Onde estão furar a parede, consertar os móveis, tirar o lixo, arrumar o carro etc.?”

Como em muitos outros países, a Rússia tem uma longa história de abusos contra as mulheres, e antes de 1917 era um país patriarcal.

Entre as classes mais altas, as mulheres eram vistas primeiramente como posses e “troféus”, confinadas ao lar.

Dando tanto duro quanto os homens no trabalho, as mulheres camponesas ainda estavam subordinadas a seus maridos, pais e irmãos. A questão do machismo nunca era levantada porque ninguém podia imaginar que a vida poderia ser diferente.

Há apenas 64 mulheres entre os 446 deputados na Duma de Estado (câmara dos deputados na Rússia), e ministras mulheres são algo muito raro de se encontrar: elas foram apenas 14 nos últimos 100 anos!

Porém, com a ascensão soviética ao poder, as mulheres se tornaram camaradas e receberam o direito ao voto, assim como direitos iguais à educação e ao trabalho.

Todas as mulheres, mesmo as de origens nobres, tinham que trabalhar tão pesadamente como os homens.

As mulheres soviéticas lutaram durante a Segunda Guerra Mundial, exploraram o espaço e conquistaram o Monte Elbrus. E ninguém discutia o machismo porque os salários pelo país eram mais ou menos os mesmos.

Mas os tempos mudaram, e hoje as mulheres não são forçadas a trabalhar – não existe uma lei sobre o parasitismo social, como acontecia na União Soviética. Mesmo assim, a maioria trabalha. Por isso, a questão dos direitos iguais é ainda mais relevante.

Igualdade de direitos, exceto na política

A Rússia ficou em 75° lugar no Relatório Global de Diferenças de Gêneros de 2016 do Fórum Econômico Mundial que avaliava 144 países.

O resultado é ainda pior que o de 2015, quando a Rússia ficou na 53° posição. Um fato interessante é que a Rússia ficou entre o 40° e 45° em termos de economia, educação e saúde, mas na 129° posição quanto ao empoderamento político.

As notícias recentes dos planos da famosa jornalista e socialite russa Ksênia Sobtchak de se candidatar à presidência e as reações russas realçaram a rara presença feminina na política do país.

Código de Trabalho Russo proíbe que mulheres trabalhem em locais “pesados” e “perigosos” como dirigindo o metrô - mas elas podem limpá-lo sem problemas.

Há apenas 64 mulheres entre os 446 deputados na Duma de Estado (câmara dos deputados na Rússia), e ministras mulheres são algo muito raro de se encontrar: elas foram apenas 14 nos últimos 100 anos!

É de se surpreender, mas 33% dos russos não são contra uma presidente mulher, de acordo com pesquisa do Centro Levada de março de 2017.

Cerca de 30% dos respondentes, porém, não aprovam mulheres na política. Além disso, a maior parte dos russos diz apoiar oportunidades iguais para mulheres e homens.

Mulheres são baratas ao empregador

Em 2016, a diferença de salários entre mulheres e homens era de 27,4% a favor deles, de acordo com a agência russa de estatísticas Rosstat.

A diferença de gêneros na Rússia é próxima à dos EUA, onde uma mulher ganha 79 centavos para cada dólar que recebe um homem. No Reino Unido, porém, os homens ganham 18,1% a mais que as mulheres, de acordo com pesquisa do Escritório de Estatísticas Nacionais em 2016.

Diferentemente do que acontece nos países ocidentais, porém, a disparidade entre os gêneros cresce na Rússia. Há três anos, ela era de 25,8%.

No primeiro semestre de 2017, o “Comitê dos Pais” sugeriu que quem inicia os divórcios (na Rússia, as mulheres são 80% desses) também paguem pensão aos filhos.

Alguns especialistas ressaltam que a discriminação de gênero no trabalho pode ser dissimulada porque muitas empresas não contratam mulheres para determinados trabalhos: não apenas como executivas, mas também nos chamados “trabalhos pesados”, como motoristas de trens subterrâneos, por exemplo.

O Código de Trabalho Russo proíbe que mulheres trabalhem em locais “pesados” e “perigosos” como o metrô, como ferreiras e outros. Em 2009, uma estudante russa abriu um processo pelo direito de trabalhar como motorista de metrô, mas a Corte Suprema não concedeu o direito.

A gerente da agência de recrutamento russa ASAP, Lia Serguêieva, disse ao jornal russo Vêdomosti que posições executivas normalmente são oferecidas a homens no setor da construção, engenharia e tecnologia da informação.

Mas as mulheres têm mais opções de carreira que os homens nas indústrias da beleza, do varejo e de serviços e alimentação.

Uma pesquisa do site de empregos Rabota.ru mostra ainda que as expectativas de salários das mulheres são 10% menores que as dos homens para executar os mesmos trabalhos.

Trabalho de homem?

Não é por acaso que 54% dos russos pensam que o homem deve suprir a família, de acordo com pesquisa do VTsIOM.

Mas quando o assunto é criar os filhos e limpar a casa, quase 80% dos russos acham que o casal deve fazê-lo junto.

Ao falar de discriminação quanto ao sexo oposto, a maior parte das pessoas acha que as vítimas são apenas mulheres. Mas em casos de divórcio, a criança fica com a mãe, e alguns russos acham que isso seja injusto.  

No primeiro semestre de 2017, o “Comitê dos Pais” sugeriu que quem inicia os divórcios (na Rússia, as mulheres são 80% desses) também paguem pensão aos filhos.

Mas a líder do movimento “Pelos Direitos das Mulheres”, Ludmilla Aivar, chama a iniciativa de populista, e aponta para o fato de que tais propostas aparecem quando os homens têm que pagar pensão alimentícia de salários reais.

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