Por que as russas são contra o feminismo?

Em 1917, a Rússia foi um dos primeiros países a dar a mulheres direito de voto, e igualdade era promovida como um dos grandes ideais da revolução, mas acúmulo de afazeres domésticos e trabalho foram peso esmagador sobre russas.

Em 1917, a Rússia foi um dos primeiros países a dar a mulheres direito de voto, e igualdade era promovida como um dos grandes ideais da revolução, mas acúmulo de afazeres domésticos e trabalho foram peso esmagador sobre russas.

Konstantin Maler
Mulher que faz tudo enquanto o homem descansa nunca foi sonho da causa.

Não é de surpreender um estrangeiro que já tenha visitado a Rússia que um estudo de 2004 do instituto Kinsey descreve a sociedade do país como um “sexismo sem sexo” em que, “por um lado, as diferenças de gênero/sexo foram teoricamente  desdenhadas e politicamente subestimadas”, mas, “por outro, tanto a opinião pública, como as práticas sociais são extremamente sexistas e todas as diferenças empíricas de sexo são levadas como providas pela natureza”.

O que isso significa, na prática, é que os russos em geral aderem a papeis dos gêneros relativamente estritos: espera-se que as mulheres se vistam bem e se cuidem, queiram muitos bebês, ajam como o centro dos afazeres domésticos e sejam muito femininas, enquanto os homens devem tomar a responsabilidade financeira, proteger a honra de suas mulheres, carregar coisas pesadas e dirigir o carro.

O que quase sempre surpreende estrangeiros, porém, é que as mulheres na Rússia tendam a defender esses papeis dos gêneros tão vorazmente quanto os homens – se não mais.

Em um estudo de 2013 do Centro Levada,  apenas 38% das mulheres e dos homens russos apoiavam a “igualdade abstrata” da vida doméstica: cozinhar, limpar, cuidar das crianças etc. foram classificados esmagadoramente como tarefas exclusivamente femininas, enquanto a única tarefa intrinsecamente ligada aos homens pelos entrevistados foi “ir à guerra”.

Outra pesquisa mostra que 78% dos homens e das mulheres russas acreditam que o lugar da mulher é em casa. É preciso lembrar aqui, porém, que em um lar russo é a mulher quem toma todas as decisões financeiras e domésticas. Como reza o ditado popular, “o homem é a cabeça, mas a mulher é o pescoço”.

Mas o mais importante é que as russas frequentemente torcem seus narizes visivelmente para a palavra “feminismo”, que está cheia de conotação negativa, como preguiça, agressão e vulgaridade.

“Essas feministas agem como homens”, diz minha amiga Sveta com menosprezo, ecoando os pensamentos de muitas outras russas. “Por que eu agiria como homem? Tenho orgulho de ser mulher”, completa.

Aversão começa com bolchevismo

A questão mais óbvia aqui é: como se desenvolveu essa aversão intensa ao feminismo? A resposta começa, como geralmente acontece, com a Revolução Bolchevique. Em 1917, a Rússia se tornou um dos primeiros lugares no mundo a dar às mulheres o direito do voto, e a igualdade era promovida como um dos grandes ideais da revolução.

Como muitos desses ideais, porém, esse era uma falácia. Ainda se esperava que as mulheres tomassem conta de todas as tarefas domésticas, mas agora elas tinham também que se ocupar do trabalho fora de casa. A apropriação das responsabilidades masculinas aumentou muito depois de a Rússia perder 10 milhões de homens na Segunda Guerra Mundial e outros 18 milhões nas gulags.

A carga esmagadora que essas mulheres tinham que carregar agora era expressada no ditado russo rimado que dizia: “Sou ambos, cavalo e touro, sou ambos, mulher e homem”. Ouvi muito esse ditado nas reclamações de minha mãe e suas amigas quando elas costumavam murmurar que “antes do feminismo, tudo o que se tinha que fazer era ser uma boa esposa e mãe; agora é preciso fazer tudo”.

A mulher soviética icônica, frequentemente retratada nos cartazes nacionais com uma foice em uma mão e uma colher na outra, era muito mais minimalista e produtiva que glamurosa. Não é surpresa, portanto, que com a queda da União Soviética as mulheres tenham saudado um retorno aos tradicionais papeis dos gêneros, como explica a psicóloga Iúlia Burlakova, e que tenham sentido a necessidade de dar uma compensação excessiva aos anos de feminilidade subjugada.

Retrógradas?

Pode-se aprender algumas lições dessa incursão na história. Uma delas é que, antes de se rotular um país como “retrógrado”, como acontece frequentemente com relação à Rússia, é importante olhar de dentro de seu próprio contexto histórico e entender que o progresso de uma nação pode ser o retrocesso de outra.

Neste caso, para as feministas do Ocidente, a batalha por equidade sempre foi linear por um tratamento mais como o dos homens, mas para as mulheres soviéticas, a batalha por equidade rapidamente se tornou a por um tratamento mais como mulheres.

Mas outra lição aqui mostra como devemos ter cuidado com o extremismo em qualquer causa, mesmo que nobre e benéfica como a do feminismo. Sempre penso na preocupação, por exemplo, de que uma mulher acabe por tomar tanto a responsabilidade masculina como a quando vejo os programas de TV familiares norte-americanos em que uma mulher tem emprego de tempo integral, cuida das crianças, realiza todos os afazeres domésticos e então tenta seduzir um marido “crianção” afundado no sofá e grudado na TV a pelo menos lavar os pratos. Era esse o sonho de nossas antepassadas feministas, uma mulher que faz tudo enquanto o homem senta e descansa? Acho que não.

E aí entra outra falácia problemática da cultura pop americana: as mulheres são frequentemente classificadas como “feministas” quando adotam um comportamento tradicionalmente masculino, como arrotar, contar piadas sujas, não usar maquiagem ou sutiã etc.  Isso significa que o feminismo moderno, na realidade, termina celebrando o que significa ser homem, e não o que significa ser mulher.

Não estou sugerindo que retornemos aos papeis tradicionais de gênero. A beleza do feminismo é que, primeiro e mais importante, ele se baseia em uma escolha, e se você não quiser usar salto ou batom ou se casar, ótimo.

Mas sugiro, sim, que paremos de agir como se estivéssemos sacrificando a carreira para sermos mães, usarmos saltos, ou esperarmos que os homens abram as portas para nós, algo inerentemente “antifeminista”. Porque para viver de verdade os ideais do feminismo, temos que celebrar todos os aspectos da feminilidade – e isso inclui os tradicionais também.

Diana Bruk é uma jornalista russo-americana baseada em Nova York.

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