Flertando com teor da poesia em prosa, escritora russa figura entre finalistas do Booker Prize

Evguênia Davidova; New Directions, 2021
Terceira representante do país em toda a história do prêmio, Maria Stepánova caiu nas graças de críticos em casa e no exterior com seu “As memórias da memória”, que reinventa o subgênero confessional que lhe rende nome.

Só duas vezes um russo foi nomeado para o prestigioso International Booker, realizado no Reino Unido. Ludmila Ulítskaia, já considerada um clássico da literatura ainda em vida, entrou para a lista de seleção de 2009 “por seguir as tradições da grande literatura russa” — e não por um livro específico. Já em 2013, o Vladímir Sorókin também entrou para os finalistas com seu incrível livro “O Dia do Oprítchnik” (ainda sem tradução para o português; o livro saiu em espanhol e em inglês como “El día del Oprichnik” e “Day of the Oprichnik”, respectivamente).

Agora, o mundo da literatura russa celebra a terceira vez em que o Booker Prize destacou uma escritora do país: Maria Stepánova, com seu livro “As memórias da memória” (em tradução livre, ainda não vertido ao português; em russo “Pamiati pamiati”), traduzido para o inglês como “In Memory of Memory” por Sasha Dugdale para a editora New Directions, que o publicou no início de 2021.

Capa da edição em inglês de

O vencedor do 2021 International Booker Prize será anunciado em 2 de junho de 2021 — portanto, os russos estão esperando de dedos cruzados.

De que trata o livro de Stepánova?

“As memórias da memória” traz um panorama da história da família da autora, uma tentativa de olhar para o passado, resumir ecos de memórias da infância e descobrir a natureza da memória.

Stepánova sempre foi uma pessoa muito dedicada à família. Ela ouviu muitas histórias sobre parentes, alguns dos quais ela sequer conheceu, e elas teceram a estrutura de sua própria vida, tornando-se parte dela.

O livro se inicia com a morte de sua solitária tia Gália. A autora entra no apartamento da tia e, saudosa, perpassa seus pertences. Uma pedra que era usada em vestimentas em reuniões familiares, toma a cena, enquanto o velho broche que pertencia a sua avó não era usado por 40 anos... Explorar os arquivos de sua tia era o que faltava para a autora finalmente colocar no papel a história da família.

No apartamento da tia, ela também encontra alguns diários e notas aleatórias, algumas listas de compras de supermercado ou apenas simples lembretes. Stepánova conta que esses pequenos cartões são muito mais sinceros e interessantes do que os diários e falam ainda mais sobre quem os escreveu. Essas notas não foram feitas para serem lidas por outrem, foram escritas espontaneamente e reflexões demasiadas.

Stepánova pondera sobre o que resta de uma pessoa morta. Algumas roupas, móveis, pequenas notas, fotos e só. Logo a pessoa seria esquecida, mas as fotos permaneceriam... E o que elas nos diriam?

A autora também cogita que, na era digital, o ser humano deixa enormes quantidades de informação e não tem mais “o luxo de desaparecer”. Ele continuará vivendo em um legado on-line, sem ter a chance de administrá-lo.

Por que o livro de Stepánova é tão importante?

O livro de Maria Stepánova despertou o interesse do grande público na Rússia. Ele recebeu o prêmio literário de maior prestígio do país The Big Book e foi elogiado pela crítica, não só ali, mas também no Ocidente.

“Um ensaio multifacetado enraizado na dúvida sobre a natureza da memória”, “Uma evocação brilhante dos últimos anos da União Soviética”, “Uma combinação ousada de história familiar”... Estes são apenas alguns fragmentos das muitas resenhas elogiosas que o livro recebeu na imprensa estrangeira.

“As memórias da memória”, de Maria Stepanova, é, como indica o título, um livro de memórias: não é romance, nem diário, e não tem a obrigação de trazer uma recontagem cronológica ou fiel dos fatos. O livro também não tem um enredo estrito. Ele é uma coleção de ensaios conectados entre si e com um tema comum.

A obra lembra a poesia em prosa dos mais amados escritores russos, onde o sentimento e o clima são ainda mais importantes que o enredo. Stepánova é, na verdade, primordialmente uma poeta, e este é seu primeiro livro em prosa. Não por acaso, sua tradutora Sasha Dugdale também é poeta. Além disso, um livro de poesias e ensaios de Stepánova intitulado, em inglês, “The Voice Over" também está programado para ser publicado (em língua inglesa) em maio de 2021.

Os críticos classificaram “As memórias da memória” como uma “não ficção filosófica”. Esta é uma obra única, que desmascara o controverso mito de que um livro russo de sucesso precisa ser um grande romance psicológico a la Dostoiévski.

E, como uma verdadeira escritora russa, Stepánova está tentando encontrar um sentido para os seres humanos. Ela o busca através das memórias que as pessoas deixam após a morte e através dos momentos de memórias de pessoas vivas. Stepánova lamenta não ter se sentado com os mais velhos e descoberto todos os detalhes de seu passado e todos os ramos da árvore genealógica.

Este livro apresenta uma visão geral de partes do século 20 na Rússia que foram tragicamente turbulentas e visavam inteiramente a apagar essa memória indesejada. Stepánova faz o possível para salvar a memória, não só de seus familiares, mas também de uma boneca de porcelana quebrada, de um pátio que costumava ser o lar de sua infância, de uma pessoa que desapareceu após ser executada na década de 1930 e muito mais.

O livro tem tantas camadas, histórias e sentidos que cada leitor poderia encontrar aqueles que mais o afetam. Este livro faz o leitor pensar mais na família e nos tesouros dela e, por fim, refletir sobre o que deixarão após a morte. “As memórias da memória” não é um obituário da memória, mas um hino dela, uma esperança de salvá-la através das gerações futuras.

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