‘Feminismo não é um único jeito de existir, de se afirmar’, diz Noemi Jaffe

Noemi Jaffe

Noemi Jaffe

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A premiada escritora brasileira fala ao Russia Beyond sobre ‘O que ela sussurra’, seu novo livro inspirado na dura realidade da mulher do poeta soviético Óssip Mandelstam, Nadejda, que decorou os versos do marido, vítima da repressão stalinista.

A premiada escritora Noemi Jaffe, 59, fala ao Russia Beyond sobre seu livro mais recente, “O que ela sussurra” (Cia. das Letras), em que recria ficcionalmente a vida de Nadejda, mulher do poeta russo Óssip Mandelstam, morto em um campo de trabalhos forçados durante o regime stalinista. Noemi comenta a relação entre ficção e realidade e entre o feminino e o feminismo na literatura:

O livro O que ela sussurra é baseado na vida de uma mulher que realmente existiu, Nadejda Mandelstam. Como você pensa a relação entre ficção e verdade, entre ficção e realidade?

Uma coisa que eu sempre falo para os meus alunos é que, etimologicamente, ficção é fingimento. Então como temos total liberdade, posso mentir a respeito de uma pessoa que efetivamente existiu, inventar coisas sobre as vivências dela, porque a ficção me autoriza a isso. Quando assumimos estar no terreno da mentira é fácil falar a verdade.

Por outro lado, toda proposta ficcional está inevitavelmente pressionada por dados reais, pois vivemos numa determinada circunstância, num determinado país, numa determinada época. Enquanto você está escrevendo, toca a campainha, você está triste ou feliz naquele dia, você está o tempo todo premida pela realidade e está colocando experiências que são suas dentro da ficção que escreve.

Principalmente quem escreve ficção está o tempo todo carregado de mentiras, de histórias, de imaginação, sonhando, vivendo uma coisa, mas imaginando que ela é outra. Eu sonho muito e dou muita importância para os meus sonhos. Escrevo vários sonhos. Toda vez que vou dormir, falo “bom, tchau, vou ao cinema!” A ficção está dentro da nossa vida o tempo todo.

O período de repressão stalinista teve paralelos em outros lugares do mundo, como o nazismo e, de certa forma, o autoritarismo do regime getulista no Brasil. Como foi a recriação desses temas no seu livro?

Na verdade, eu não escolhi o período, mas a pessoa, a Nadejda. Acontece que ela viveu nessa época, o momento mais duro do stalinismo, a década de 1930. Ela escreveu dois livros incríveis chamados Hope Against Hope e Hope Abandoned [em tradução livre, “Esperança contra esperança” e “Esperança abandonada”; os livros ainda não foram publicados em português e são a versão em inglês de seus tomos “Vospominania”, ou seja, "Memórias", originalmente em russo]. O nome Nadejda significa esperança em russo, por isso do nome dos livros em inglês.

Ela é muito precisa e detalhista sobre o período do stalinismo, conta uma visão geral sobre a sociedade e a política — eu diria até que é mais aguçada que o próprio Óssip. Li esses livros duas vezes, fazendo anotações com muito interesse, assim como o livro de Boris Schnaiderman “Os escombros e o mito”, que fala sobre o que sobrou depois da glasnost e da abertura na Rússia com Gorbatchov, analisando tudo o que foi descoberto nos arquivos que tinha sido ocultado ou censurado pela repressão.

Também li todos os livros do Óssip [Mandelstam] e outros sobre a Revolução Russa, fazendo a pesquisa para poder compor o cenário. Então fui me dando conta de um aparelho repressivo sem par na história. Não sei existiu algo parecido... talvez apenas o nazismo. Na Rússia havia casos de mandar assassinar, de todo mundo espionando todo mundo, de denúncias, de se viver em estado de pânico, sempre com medo de ser condenado sem motivo...

No livro surge a imagem de “uma rede de mulheres sussurrando” para que as obras de seus companheiros perseguidos não desaparecessem na repressão da União Soviética. Como você pensa o papel feminino em sua obra?

Eu acho que que a questão feminina é tecedora da sobrevivência, como costurar, cozinhar, contar, carregar, lembrar, memorizar. São todas tarefas historicamente atribuídas e desempenhadas por mulheres, que são as tarefas comezinhas, mas sem as quais os homens não sobrevivem. Eu atribuo a essas tarefas um tecido que envolve o mundo, a vida, a subsistência da sociedade.

Acho precioso esse conhecimento: a palavra masculina é a palavra do poder e a palavra feminina é a do resguardo, do subliminar. Mas estou falando de papéis atribuídos historicamente e culturalmente à mulher, porque isso tem se modificado e vai se modificar ainda mais.

Para além desses papéis atribuídos às mulheres, existe, na sua opinião, uma escrita feminina?

É muito difícil falar sobre isso, mas eu acho que existe sim. Acho que muita gente poderia me condenar por dizer isso, mas, por exemplo, não gosto de pensar que existe uma “escrita judaica”. O que seria uma “escrita judaica”? Seria aquela feita por escritores judeus? Não faz sentido, porque um escritor judeu que fala sobre o sertão nordestino não faz uma “escrita judaica”.

Sobre a escrita feminina é difícil não associar a papéis. As mulheres foram historicamente proibidas de escrever, não havia estímulo para falar, se manifestar, reivindicar, por isso as mulheres foram aprendendo a se expressar nas entrelinhas. A escrita feminina é mais subtextual, metafórica, do indizível... Mais misteriosa. Mas tem muitos homens que também escrevem assim, então são homens com uma escrita feminina, por assim dizer.

Assim, a escrita feminina não precisa ser praticada só por mulheres. Mia Couto, por exemplo, quando se lê um livro dele, não dá pra dizer que foi escrito por um homem. Ou Chico Buarque na música, muitas vezes José Saramago, Proust... Dá para dizer que eles têm uma escrita feminina, nesse sentido. Mas ela não é intrinsecamente feminina, pois não acredito que exista nada intrínseco e imutável, porque tudo vai sendo transformado pela realidade, pelo tempo, pela vida.

No livro também há trechos em que, por um lado, Nadejda elabora questionamentos feministas, mas, por outro lado, abdica dos próprios projetos, como pintar. Há, portanto, uma tensão entre ideais feministas e um modo de vida que, por vezes, não reflete isso?

Acho que uma das forças do livro é essa contradição vivida por ela e por muitas mulheres, a de ser feminista, mas, na vida prática, viver uma vida machista. A Nadejda é uma representação disso. Na sua posição teórica, a Revolução Russa é feminista, porque ela atribui às mulheres um papel igual ao dos homens. Mulheres que iriam construir um novo país, uma nova sociedade, mulheres operárias, nos tratores, nos aviões, no exército, na política, em todas as funções. Como também é uma revolução antirreligiosa, pois não cabia mais o papel de serem donas de casa, preservarem o casamento, essa unidade sagrada.

Mas, na prática, é tudo muito diferente. E o Óssip era extremamente machista, a tal ponto que ele queria que a Nadejda andasse atrás dele na rua, mandava ela calar a boca, não queria que ela tivesse um emprego, trazia amantes para casa. Mas ela optou, ela quis seguir esse homem. Ela sabia o quanto ele era machista, opressivo, autoritário, mas ela fez uma opção, o que é muito paradoxal.

Ela o amava muito e ele a amava muito. Ela acreditava que ele era o maior poeta da Rússia e fez uma opção deliberada, consciente, por essa submissão. Isso é altamente discutível. Por que uma mulher faria isso? Não tem por que, não é uma questão de defender ou condenar, foi acontecendo assim e talvez o amor justifique.

Talvez isso que a gente tem agora, que são as poesias dele e as memórias dela, também justifiquem. Mas é difícil julgar e dizer que ela errou. Não acho que ela tenha errado: ela não se arrependeu disso até morrer. Porque o feminismo não é uma coisa só, um único jeito de existir, de se afirmar... Existem muitas maneiras de ser feminista e essas maneiras estão submetidas à vida das pessoas em cada momento, em cada lugar. É o que você consegue ser, o que você pode ser.

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