‘O Compromisso’, de Dovlátov, ganha primeira tradução para o português e ficcionaliza fake news

Cheio de sarcasmo, escritor se inspira no cotidiano das ruas e da redação onde trabalhava na Estônia soviética em "O compromisso".

Cheio de sarcasmo, escritor se inspira no cotidiano das ruas e da redação onde trabalhava na Estônia soviética em "O compromisso".

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Obra de 1981 de escritor soviético radicado em Nova York traz uma enorme e desconfortável sensação de que pós-verdade veio antes da verdade em si. Pero sem perder a piada jamais.

Se você achava que a CNN ou a Fox tinham fundado a era da pós-verdade, volte cinco casas no jogo da propaganda. Tampouco foram os soviéticos que o fizeram, mas em ‘O compromisso’, obra de 1981 que é lançada agora em português pela editora Kalinka, é possível descobrir, a partir de diversas notas de jornal (cada uma, um “compromisso”) e seu backstage, um pouco mais sobre esta máquina gigante que há séculos constrói um mundo mais maniqueísta e fake.

“Pautas direcionadas, textos expurgados, entrevistas inventadas, fatos distorcidos para se adequarem a um objetivo preestabelecido: a enumeração desses procedimentos parecerá perturbadoramente familiar a quem acompanha o dia a dia do jornalismo do Terceiro Milênio. Em ‘O compromisso’, contudo, eles aparecem bem delimitados no tempo e no espaço. São as características definidoras da usina ininterrupta de fake news da URSS, descrita por um observador para lá de sarcástico: Serguei Dovlátov (1941–1990)”, escreve o tradutor e crítico Irineu Franco Perpetuo na orelha do livro.

Junto a outras mídias de massa e a literatura, a imprensa na União Soviética dos anos 1970 era vista como ferramenta de grande importância na luta ideológica. Ela não estava ali simplesmente para dar notícias, mas também servia para guiar e educar a população no espírito do socialismo e mobilizá-la para construir o comunismo.

Como escreve a pesquisadora Jekaterina Young, “além dos jornais ‘centrais’ publicados em Moscou, cada uma das 15 repúblicas publicava seu próprio jornal em russo e em sua própria língua. Os jornais na União Soviética eram estandardizados: eles tinham entre quatro e oito páginas (com algumas exceções), e a maior parte tinha seus artigos principais comentando sobretudo assuntos domésticos na primeira parte; o bem e o mal estavam claramente definidos (sobretudo como socialista e capitalista), e as notícias do mundo capitalista nunca podiam aparecer na primeira página. Na realidade, até no mundo socialista havia uma hierarquia rígida a ser seguida, como Dovlátov descreve em ‘O compromisso’”.

Assim, logo no primeiro “compromisso”, ele escreve em nota: “Acadêmicos de oito Estados chegaram a Tállin para a 7ª Conferência de Estudos da Escandinávia e da Finlândia. São especialistas da URSS, Polônia, Hungria, RDA, Finlândia, Suécia, Dinamarca e RFA”. Por isso, é repreendido pelo editor, que o acusa de cometer um “erro ideológico grosseiro”: os nomes tinham que ser listados com os países democráticos na frente, depois, os Estados neutros e, finalmente, os participantes do bloco. Mas quando ele reescreve o texto, é novamente repreendido: a Hungria vem atrás da RDA, e não em ordem alfabética - “lá houve um golpe!”.

“Meus artigos recebiam uma infinidade de resposta”, escreve ele. “Às vezes, em tom de ameaça. Isso até me alegrava. O ódio significa que o jornal ainda é capaz de despertar paixões.”

Ficcionalizando o fake

Serguêi Dovlátov chegou a Tállin, capital da Estônia então soviética, no final de setembro de 1972, onde trabalhou como freelancer para jornais diversos após ser demitido em Leningrado, passando por uma sala das caldeiras estoniana antes de finalmente voltar a alguma redação.

A atmosfera intelectual nas repúblicas Bálticas era mais aberta que no resto na URSS no período, e, como a maior parte dos jovens escritores soviéticos não tinha possibilidade de publicação oficial, isso os levava a deixar Leningrado (hoje, São Peterburgo). Entre seus destinos prediletos estavam Tallin e Tartu, ambas na Estônia. Os estonianos, além de tudo, com sua proximidade geográfica e linguística da Finlândia, costumavam pegar sinais de rádio e TV do país escandinavo para tentar se inteirar dos dois lados da notícia.

Como relembra a pesquisadora Mervi Pantti, da Universidade de Helsinque, em 1971 a Companhia de Transmissões Finlandesas YLE construiu um nova antena de TV em Espoo, no sul do país, e era ela que transmitia, involuntariamente, a TV finlandesa para o norte da Estônia. Como resultado, “assistir à TV finlandesa se tornou parte do cotidiano de consumo da TV no Norte da Estônia”, segundo ela, transportando os habitantes locais a "um mundo colorido de consumo e entretenimento" apesar dos esforços soviéticos em restringir as transmissões.

Portanto, apesar de o alterego do escritor em “O compromisso” afirmar que o que levou até Tallin foi apenas a carona - de um quase (senão totalmente) mafioso Grichânia - as aumentadas chances de ser publicado por ali certamente influíram em sua decisão.

A censura nos Bálticos não era tão grande e, na literatura, podia-se tratar de quase qualquer assunto - à exceção de questões de nacionalismo, especialmente se escritas em estoniano. Foi ali, inclusive, que seu livro “Cinco esquinas” (ainda sem tradução para o português) foi aceito para publicação - a qual foi repentinamente cancelada pela KGB já com a obra na fase de revisão.

Muitos dos "compromissos" foram publicados separadamente em jornais de emigrantes russos antes de serem reunidos no livro. É o narrador em primeira pessoa quem une as histórias entre si. Mas, dentre as notas reproduzidas no livro, apenas duas foram realmente publicadas no Estônia Soviética e, enquanto a maioria data de 1976, ele retornou a Leningrado um ano antes disso. As que foram publicadas em outros jornais também sofrem alterações na obra.

Alguns dos nomes usados por Dovlátov no livro também são trocados, mas remetem claramente a pessoas de seu círculo. Micha Chablínski é seu amigo, desde os tempos da faculdade, Mikhaíl Roguínski. O personagem performático e galanteador Erik Buch, uma espécie de gigolô a la John Tuturro, é Mikhaíl Buch.

A Marina do livro também existia sob outro nome: era a jornalista Tamara Zibunova, com quem o escritor viveu em Tallin.

A Marina do livro também existiu sob outro nome: foi a jornalista Tamara Zibunova, com quem ele viveu em Tallin, sua terceira esposa e a primeira a lhe dar uma filha. Aliás, depois da terceira mulher, a primeira também lhe deu uma filha e, mais tarde ainda, a segunda - mais uma prova de que a vida regada a álcool e relacionamentos complicados dos alteregos de Dovlátov não é mera ficção.

A terceira mulher de Dovlátov, Tamara Zibunova, e o escritor.

Mas o pobre editor do diário Estônia Soviética - que em uma das passagens do livro, por exemplo, desfila um dia inteiro com as calças rasgadas e a ceroula azul à mostra nas nádegas - era mesmo o Guénrikh Frántsevitch Turónok que perpassa de cabo a rabo (com o perdão do trocadilho) “O Compromisso”. E não gostou nada de como sua figura foi retratada.

Isto, porém, não significa que ele diferisse tanto assim da descrição e das invencionices de Dovlátov. Como relembra uma colega de redação, Elena Skulskaia, certa vez ela inseriu alguns versos em um texto e Turônok lhe perguntou se o autor estava vivo, como fazia de praxe – se estivesse, o excerto era cortado. Dovlátov mais tarde explicou a Skulskaia: e se o autor estivesse vivo e depois fugisse da URSS?! Imagine o escândalo, se eles houvessem publicado um dissidente!

Em entrevista ao pesquisador e tradutor John Glad, Dovlátov falou sobre a importância do "real" na sua obra de ficção. "Normalmente não são romances que se tornam best sellers, mas livros construídos sobre alguma base factual - livros de interesse local ou o relato de algum evento político que forme a base do livro etc. Eu tomo vantagem disso e tento dar a minhas histórias um toque documentário, mas, na essência, é tudo ficção, histórias inventadas disfarçadas de acontecimentos reais".

Tudo isto, claro, sem perder o humor inerente a Dovlátov. Um cientista que relata como traficou um vibrador da França à URSS, um funcionário dedo-duro do jornal que “faz hora extra” na KGB do outro lado da rua, um pai que ameaçaria dar a seu filho, cidadão “N° 400.000” de Tallin, o nome de Adolf, chantageando o jornal por 25 rublos – será que veio daí a inspiração de “Qual é o nome do bebê” (2012)? - ou um fotógrafo bêbado que procura por microfones e câmeras escondidos... Os personagens do pseudo-jornalismo-gonzo de Dovlátov são garantia de riso do começo ao fim.

“O compromisso” será lançado na Casa do Saber, em São Paulo, neste sábado (27 de abril) , às 11h, com link com a tradutora Yulia Mikaelyan, em Moscou, e o crítico Cadão Volpato, em Nova York, além da participação da também tradutora e editora da obra Daniela Mountian e de Irineu Franco Perpétuo, presentes no local.

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