Primeira operação de mudança de sexo foi feita por médico soviético

O médico também afirma que teve medo de fazer a cirurgia por estar mudando algo criado pela natureza Foto: ITAR-TASS

O médico também afirma que teve medo de fazer a cirurgia por estar mudando algo criado pela natureza Foto: ITAR-TASS

A primeira operação de mudança de sexo ocorreu na União Soviética na década de 1970, mas durante 20 anos o sucesso da cirurgia foi mantido em segredo.

No inverno 1968, entrou no gabinete do cirurgião Víktor Kalnberzs, em Riga, um mulherão de cabelo escuro. "Eu sei que você vai tentar me convencer do contrário, mas não vale a pena. Tenho certeza de que a natureza se enganou ao me criar mulher. O que lhe peço é que corrija esse erro."

Em novembro de 1972, a paciente sairia da clínica já com um novo corpo, masculino, e com novos documentos. Esta foi a primeira operação completa de mudança de sexo realizada não apenas na União Soviética, mas no mundo inteiro.

Mas em vez de reconhecimento, Víktor quase perdeu o emprego e esteve à beira de ser preso. A cirurgia de redesignação sexual não era a única área da medicina íntima da qual o acadêmico Kalnberzs foi pioneiro. Ele inventou uma tecnologia de prótese peniana, exclusiva naquele tempo. Durante muitos anos, ajudou os homens soviéticos com problemas de potência. No entanto, o tratamento da impotência não era algo que se encaixava na ideologia do país.

Kalnberzs diz não saber nada sobre a biografia posterior da paciente, nem sequer o novo nome adotado por ela. O seu nome de nascimento era Inna.

"Ele tinha muito medo que aquilo viesse a público. Por isso, quando recebeu os novos documentos de registro, eu pedi para não ser informado nem do novo nome, nem do endereço. Eu nem soube o número de telefone dele. A única coisa que pedi foi que ele me telefonasse de vez em quando e me relatasse o seu estado. A última vez que ouvi a sua voz foi há mais de cinco anos. Naquela altura ele já estava com quase setenta anos", diz o cirurgião.

Quando Inna entrou pela primeira vez no gabinete de Kalnberzs, diretor do Instituto Letão de Traumatologia e Ortopedia, ela tinha pouco menos de trinta anos. Era uma engenheira talentosa e promissora, filha única e muito amada na família. Era uma mulher muito bonita.

Cirurgia ou suicídio

"Desde a infância que vivia com a firme convicção de que eu era um menino”, escreveu Inna em uma carta ao médico. “Em mim se desenvolveram afeições e desejos puramente masculinos que foram me afastando gradualmente das pessoas, que foram tornando impossível eu ter amigos ou família. Aos 12 anos, tive a minha primeira experiência de amor, mas por uma pessoa do sexo feminino. Este sentimento foi o que abriu pela primeira vez diante de mim, com uma clareza brutal, a inevitabilidade da minha situação. Eu não tenho, e não posso vir a ter, qualquer esperança de algum dia aparecer alguém que me salve de ter que viver para sempre com uma máscara, de ter que usar roupas que me causam repúdio, vergonha de mim mesmo, mesmo entre parentes próximos. Estou com 30 anos. E mesmo se algum milagre conseguisse fazer eu sentir atração por homens, para mim seria absolutamente impossível mudar por completo toda a minha vida, aprender a fazer coisas e a ter hábitos puramente femininos e sobre os quais eu não sei praticamente nada. Se uma pessoa se forçar a fazer uma coisa dessas com ela mesma, o melhor é se enforcar."

Foto: Tichonov / RIA Nóvosti

"Naquela altura eu já tinha operado vários pacientes hermafroditas, e o meu programa de ajuda aos homens com impotência resultante de ferimento adquiria cada vez mais popularidade. Por isso, em princípio, operações desse gênero não eram novidade", diz o médico.

A mulher que entrara no seu gabinete tinha em seu histórico três tentativas de suicídio, uma delas por causa de um amor não correspondido por uma mulher.

O segredo do novo homem

No entanto, passou muito tempo antes que ela conseguisse chegar à mesa de operação.

"Eu tinha pena de Inna, mas a decisão de seu destino não dependia só em mim. Foi criada uma junta formada por um endocrinologista, um sexólogo, um ginecologista e um psiquiatra. E todos chegaram à conclusão de que os métodos tradicionais não apresentavam solução para o caso dela. A última palavra era a do ministro da Saúde da Letônia. Ele permitiu, mas sem assinar nenhum papel", diz o cirurgião.

Enquanto decorriam os processos para a autorização, Kalnberzs tentou recolher informações sobre esse tipo de operações em outros países. E descobriu que apenas quatro haviam sido realizadas, sendo que a mais recente tinha sido na Tchecoslováquia. Mas, do ponto de vista médico, nenhuma delas tinha sido completa, já que a pessoa operada permanecia sendo homem e mulher ao mesmo tempo.

O médico também afirma que teve medo de fazer a cirurgia por estar mudando algo criado pela natureza.

Até sair a autorização se passaram dois anos. Inna se deitou pela primeira vez na mesa de operação no dia 17 de setembro de 1970. A transformação foi realizada em várias etapas. Atualmente, a microcirurgia já permite fazer isso com uma única operação. Segundo o especialista, foi muito difícil manter a experiência em segredo.

Ao se tornar homem, Inna quis enfatizar a sua aparência masculina –a sua voz ficou mais grave como resultado da terapia hormonal.

"Ele andava de calças, tinha o hábito de ir para a garagem e fez amizade com os motoristas do hospital. Gostava de dizer palavrões, de fumar e de beber na companhia de outros homens", diz o médico.

O homem criado pelo médico viveu o resto de sua vida como engenheiro, casou duas vezes e justificava as cicatrizes deixadas pela operação como resultado de um acidente antigo.

Publicado originalmente pelo Moskóvski Komsomolets

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