Por onde andam as meninas da banda t.A.T.u., as famosas adolescentes ‘homossexuais’?

Yurii Zheludev/Global Look Press
Desde que o grupo acabou, há dez anos, elas tiveram que passar por psicólogos, emigração, luta contra o câncer e perda completa da voz. Transformadas em ícone LGBT na Rússia, uma delas virou homofóbica, enquanto a outra propaga o amor total, independente de orientação sexual.

O single “All the Things She Said” tem tanta coisa errada, que não dá para saber por onde começar a discuti-lo. Ele foi gravado em 2002 pela t.A.T.u., dupla pop russa composta por Iúlia Vôlkova e Elena Katina.

As duas moças em uniformes escolares, com saias curtas e meias 7/8, tinham acabado de completar 16 anos de idade, beijavam-se no videoclipe e cantavam sobre como uma enlouquecia a outra.

Mas, na verdade, elas nunca foram homossexuais. “Via isso como se fosse um papel de atriz, como um filme. Eu nunca fui lésbica. Nunca me senti atraída por meninas”, disse Katina, em 2013, ao site The Daily Beast em 2013.

Por trás de todo este espetáculo estavam dois produtores, dois homens adultos que convenceram as duas adolescentes do grupo infantil “Neposeda” (em português, “Irriquietos”) a fingir ter um relacionamento "não tradicional", porque viam um potencial enorme na exploração da temática “queer”. E, em geral, eles acertaram em cheio.

A faixa ficou nas paradas do Reino Unido por 15 semanas e, por uma semana, ficou em primeiro lugar. Nos Estados Unidos, ela entrou no Top 20 da Billboard. O t.A.T.u. vendeu milhões de álbuns mundo afora, ganhando o disco de ouro em sete países e o de platina em cinco.

Seu cachê por show no Japão chegou a meio milhão de dólares. “Ficamos famosas na Ásia porque todo o pornô ali tem estudantes vestidas do mesmo jeito que nós nos vestíamos no palco”, lembrou Vôlkova. Ao retornar do Japão para Moscou, cada uma delas comprou um apartamento.

Mas, no auge da popularidade, em 2009, o grupo acabou. Depois de dez anos de trabalho conjunto, Katina e Vôlkova decidiram seguir em carreira solo.

Câncer, cirurgia e perda total da voz

A imprensa marrom escreveu muitas teorias sobre o que teria acontecido com o escandaloso grupo. O ex-produtor Borís Renski disse, em entrevista, que Vôlkova tinha cancelado vários shows.

Entre eles, havia um na Califórnia que levou um semestre inteiro para ser organizado. De última hora, Vôlkova se recusou a pegar o avião devido a um ataque súbito de aerofobia, e o grupo entrou para a lista negra dos promotores norte-americanos.

De qualquer maneira, Katina e Vôlkova falavam apenas sobre estarem terrivelmente cansadas uma da outra. Porém, por mais alguns anos, elas continuaram a fazer shows esporádicos por grandes cachês, e chegaram até a gravar juntas um comercial de chocolate no Japão.

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Então, elas tinham entre 23 e 24 anos de idade, Vôlkova tinha dois filhos de pais diferentes e não ficou com nenhum deles. “Dei à luz, peguei minhas coisas e continuei trabalhando”, disse ela.

Não demorou muito para que Vôlkova gravasse seus próprios singles (no começo, ainda tentando manter a imagem de homossexual), fizesse um papel em um filme de terror russo e lançasse uma linha de sapatos com designers italianos.

Assim ela continuou até 2012, quando descobriu que tinha câncer de tireoide e precisava de cirurgia. Ela escondeu o diagnóstico do público. Assim, todos achavam que Iúlia estava rouca por causa de cigarros, álcool e drogas.

“Escondi porque essas coisas não devem ser divulgadas ao público, não se deve fazer fama usando essas coisas. Eu não queria que ninguém sentisse pena de mim”, disse, finalmente quebrando o silêncio, no programa de televisão “Segredo que vale um milhão” (“Sekret na million”), em 2017.

Com a cirurgia, sua glândula tireoide e o tumor foram completamente removidos, mas seus nervos vocais foram danificados e ela perdeu a voz. A recuperação levou três anos, com operações em Israel e na Alemanha.

Os médicos disseram que as cordas vocais danificadas não poderiam ser recuperadas. Ela só conseguiu fazê-lo na Coreia.

“Depois da operação para recuperar minha voz, tive que ficar um mês sem emitir qualquer som. Mas se passaram dois ou três meses e eu ainda tinha medo de começar a falar”, contou. Mas ela acabou falando e até cantando novamente.

‘Eu tinha certeza que teria fila uma fila de produtores’

A vida de Katina após o fim do t.A.T.u. se desenrolou sem grandes dramas. Mas ela passou por uma crise interna.

“Sabe, eu realmente achei que nós [do t.A.T.u.] éramos estrelas bacanérrimas. Eu tinha certeza: mesmo que a dupla se separasse, os produtores estariam fazendo fila para trabalhar comigo e com a Iúlia. Mas isso não aconteceu”, contou Katina em entrevista.

“Foi uma boa lição. Um tapa na cara. Foi duro, eu não sabia o que fazer. Cheguei a pensar em voltar a estudar, ter uma nova profissão. Eu tenho diploma em psicologia, mas não quero trabalhar nessa área”, diz.

Ela foi atrás de um psicólogo para fazer terapia e, depois, resolveu ir passar dois meses com seus amigos músicos em Los Angeles, onde acabou ficando.

Em 2013, Katina se casou com o músico de rock sérvio Sacho Kuzmanovitch, em duas cerimônias (uma “sérvia”, na Eslovênia, e outro “russa”, em Moscou).

Ela deu à luz um filho, gravou um EP em espanhol e fez turnê pela América Latina. Dave Aude  fez um remix do single dela em inglês “Never Forget”, que ficou no topo das paradas.

Em 2017, ela voltou para a Rússia para tentar recuperar a popularidade em casa e voltou a cantar em russo.

“Quer fumar, fume. Quer fumar, fume.

Mas não se esqueça de respirar. Isto é o que eu queria te dizer.

Quando você ama, ame. Quando você ama, ame.

Mas não se esqueça de voar.

Isto é o que eu queria te dizer.”

t.A.T.u. pode se reunir de novo?

Desde o fim do t.A.T.u., a imprensa já divulgou diversos boatos de que Vôlkova e Katina estariam prontas para se reunir novamente. Todos os boatos são recebidos com entusiasmo do público, mas, como a própria Katina disse, “as portas estão fechadas para isto”.

É verdade que houve tentativas, mas elas terminaram todas em lágrimas. Em coletivas de imprensa conjuntas, as duas preferiram ficar em cantos diferentes da sala e de lá responder a perguntas. E, mesmo que elas ressuscitem o t.A.T.u., a farsa lésbica não rolaria, mesmo que o público quisesse muito.

Em 2014, Vôlkova disse: “Parece que lésbicas são uma visão estética muito melhor que dois homens de mãos dadas ou se beijando. Quero dizer que não sou contra os gays, só quero que meu filho seja um homem de verdade, não um bicha”.

Isto apesar do fato de Vôlkova ter sido, por muito tempo, ícone da comunidade LGBT na Rússia.

Já Katina escreveu no Facebook: “Posso dizer uma coisa: Deus está nos ensinando a viver no amor, a sermos tolerantes e a não julgar os outros! Amor é amor, e é um sentimento maravilhoso!”.

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