80 dias sem ver o sol: as noites polares mais longas da Rússia

Durante o inverno no norte da Rússia, não há nascer nem pôr do sol. Mas como isso afeta as pessoas que moram nessas áreas?

Imagine essa situação. Quando você acorda, está escuro e quando você se deita, também. Durante o dia, você só consegue ver os contornos de sua cidade imersos em uma névoa gelada. O fenômeno natural que ocorre quando o sol não aparece no horizonte por mais de 24 horas é conhecido como noite polar.

Aurora boreal sobre o monumento aos soldados do Primeiro Corpo de Defesa Aérea em Abram-Mis, nos arredores de Murmansk, no final de outubro de 2019

O fenômeno ocorre dentro dos círculos polares: no caso da Rússia, nas áreas acima de 66º33’N, que constituem quase 20% do território do país. No Ártico, começa a escurecer já no início de outubro; a partir do final de novembro, o sol praticamente não aparece no horizonte, e a única luz que existe é proveniente da neve branca e da aurora boreal. O sol retorna só no final do inverno. As noites polares mais curtas são em Salekhard, a capital de Iamal, e no sul da região de Murmansk. São frequentemente chamadas de “crepúsculo polar” porque o sol aparece brevemente. Quanto mais ao norte, mais longa a noite: em alguns casos, dura várias semanas.

Dikson, território de Krasnoiarsk: 80 dias sem sol

Esta cidadezinha se encontra no “deserto do Ártico”. É uma terra de permafrost, inverno sem fim e ventos incessantes – e fica coberta de neve de setembro a maio. Em Dikson, a noite polar começa em 10 ou 11 de novembro e dura até o início de fevereiro. A população local vem diminuindo constantemente: nos anos 1980 havia cerca de 5.000 habitantes e hoje caiu para pouco mais de 500.

Tiksi, Iakútia: 67 dias

Tiksi em meados de dezembro de 2019

Nesta pequena cidade no norte da Iakútia, a noite polar dura de 17 de novembro a 25 de janeiro. Ex-moradora de Tiksi, Iúlia Bogoslova, lembra: “Na noite polar, não significa que fica escuro o tempo todo. Quando voltava da escola, entre as 13h00 e as 15h00, havia alguma luz, mas depois escurecia de novo. “As pessoas mantinham lâmpadas fluorescentes perto dos vasos no parapeito da janela, para que as plantas ficassem bem... Claro que a aurora boreal era incrível. É um espetáculo indescritível.”

Pevek, Tchukotka: 50 dias

Pevek é, oficialmente, a cidade mais setentrional da Rússia. É também uma das menores. Sua população atual é de apenas  2.500 pessoas, um décimo do que havia nos tempos soviéticos. Como muitos lugares no Ártico, só pode ser alcançada de avião (e no verão, pelo mar). Todas as casas são pintadas com cores vivas. O vento local, conhecido como iujak, é um dos mais traiçoeiros do planeta. A noite polar começa em 27 de novembro e termina em 16 de janeiro.

Pevek em novembro de 2019

Segundo a moradora local Valeria Silina, que se mudou para Pevek a partir de Voronej (cidade no sul da Rússia com população de mais de um milhão de habitantes), “a noite polar é um período difícil. Sempre tento sobreviver. No ano passado, sofri uma longa depressão e desta vez meu corpo está ficando maluco. Durante o dia, morro de vontade de dormir, mas à meia-noite meu relógio biológico me diz que é hora de passar ferro ou assistir a uma série de televisão. Se você não consegue escapar para um lugar quente, o que pode ajudar é cantar durante um banho quente com óleos aromáticos. Além disso, é importante sonhar; durante a noite polar os sonhos são como o sol, pois tornam a vida mais quente e brilhante”.

Norilsk: 45 dias

Primeira aparição do sol na península de Taimir

Em Norilsk (Krasnoiarsk), a noite polar dura de 30 de novembro a 13 de janeiro. O único momento em que há um pouco de luz é entre 1 e 2 da tarde, embora descrevê-la como luz seria um exagero: simplesmente fica um pouco menos escuro.

Além disso, em Norilsk faz muito mais frio do que em outros lugares. No outono, as temperaturas podem despencar até - 30ºC. Acrescente a isso os ventos de Taimir (a península é frequentemente chamada de “cemitério dos ciclones do Atlântico”) e a ausência de vegetação. O dia comum de um morador de Norilsk durante a noite polar é um esforço heroico. Mas as pessoas conseguem encontrar beleza mesmo assim.

“Venho de um lugar muito mais quente, mas não tive problemas em me adaptar ao norte. Durante a noite polar em Norilsk, sinto que estou em um conto de fadas, é como uma temporada permanente de festas de Ano Novo”, diz um morador local. Além disso, os residentes de Norilsk são constantemente lembrados da necessidade de tomar vitaminas (principalmente óleo de peixe e vitamina D) e praticar esportes.

Murmansk: 41 dias

Com uma população de cerca de 300.000 habitantes, Murmansk é a maior cidade acima do Círculo Polar Ártico. A noite polar começa em 1º ou 2 de dezembro e dura até 10 ou 11 de janeiro.

“Não há nada muito romântico aqui. A primeira semana é boa, mas depois começa a ficar entediante. A depressão se instala, as pessoas ficam perdidas, sofrem de insônia e sentem-se desesperadas para ver a luz do sol. A melhor maneira de viver a noite polar é passar o tempo em centros de lazer, no teatro, no cinema, praticando esportes, ou seja, fazendo qualquer coisa para se distrair e não tendo tempo livre para se aprofundar em pensamentos indesejados”, diz um usuário de internet.

Aurora Boreal nos arredores de Murmansk

A cidade possui uma iluminação artificial brilhante, o que é essencial para prevenir a depressão. Para quem quer mais luz, há um bônus na forma de aurora boreal. Pode ser vista na própria cidade, embora, para admirar as luzes do norte em todo o seu esplendor, seja melhor ir para o campo. A propósito, a região de Murmansk é o destino mais popular para turistas que querem ver a aurora boreal. Durante a noite polar, as aulas na região começam mais tarde e duram cinco minutos a menos.

“Em Murmansk, você tem tudo: frio, vento, edifícios em mau estado, monotonia. Mas a noite polar está me matando. Quanto à aurora boreal, nos dois anos em que vivo aqui, só a vi duas vezes. Ambas as vezes no outono”, comenta outro morador local.

Moradores de Murmansk na colina Sólnetchnaia, em 11 de janeiro de 2018

Os moradores de Murmansk têm a tradição de dar boas-vindas ao sol após o término das noites polares. Eles se encontram no ponto mais alto da cidade, a colina Sólnetchnaia (“ensolarada”, em russo), para receber os primeiros raios de sol.

Narian-Mar: 25 dias

Rua em Narian-Mar

A capital da região autônoma de Nénets é uma cidade pequena, com população de apenas 25.000 habitantes. Narian-Mar é considerada o centro do turismo no Ártico: as pessoas a visitam para montar em um cervo ou andar de motoneve, para ver a aurora boreal e passear pela tundra. O pano de fundo dessas atrações são geadas a uma temperatura de -40° C e escuridão constante.

A noite polar dura de 9 ou 10 de dezembro até 1º ou 2 de janeiro. Em Narian-Mar, há a tradição de “ver o sol apagado”. Neste dia, pastores de renas encerram a temporada nômade e se estabelecem em pastagens de inverno.

Vorkutá: 11 dias

Transeuntes em Vorkutá

Nesta cidade de mineração, a noite polar é bastante curta: dura apenas 11 dias em meados de dezembro. No entanto, isso não significa que no resto do tempo exista luz. A professora Anna Sorókina, que se mudou de Vorkutá para Moscou, diz que no inverno o crepúsculo é quase constante, as temperaturas caem para -40°C, e os ventos “destroem telhados”. Segundo ela, porém, “a parte positiva é que de vez em quando  aparece a aurora boreal e há veados nas ruas da cidade, que conduzem os nativos, os nenets, à cidade para fazer suas compras”.

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