Como sobreviver ao ‘iuják’, o vento mais perigoso do planeta

Vladimir Sayapin/TASS
Você viu nesta semana um turco sair voando em um guarda-sol com o vento? Então imagine sair de sua casa e ser arrastado pelos pés por uma rajada de vento tão forte que o leva por uma estrada coberta de neve. A única coisa que se pode fazer é grudar no poste mais próximo (evite os de guarda-sóis, ok?), agarrá-lo como se fosse sua própria vida e rezar para o ‘iuják’ ter misericórdia.

Para os moradores da pequena cidade de Pevek, no norte de Tchukotka, aventuras como essas são cotidianas. O vento local iuják é o mais forte do planeta. Ali ele sopra o ano todo com rajadas que chegam a 60 ou 80 metros por segundo. E se no verão ele é só um incômodo porque levanta poeira e areia das estradas, no inverno, juntamente com temperaturas extremamente baixas, pode ser perigoso de verdade.

O vento mais setentrional

"Se tivesse árvores aqui, elas teriam sido arrancadas do solo", conta o moscovita Serguêi Trunov, que trabalhou no setor de transportes de Pevek. "Vim para cá pela primeira vez em fevereiro de 2013. Quando o avião estava pousando, vi os montes negros e, à noite, ouvi as janelas tremerem. Fui até a janela e não consegui ver nada. Tinha só esse som de uivo. Assim foi meu primeiro encontro com o iuják”, lembra.

Os moradores locais dizem que quando há nuvens em forma de couve-flor imóveis pairando sobre os montes por vários dias, isto significa que o iukják está chegando. Isto dura por vários dias e, depois, as nuvens desaparecem.

Este vento é muito peculiar: ele pode soprar por quilômetros e, de repente, desaparecer antes de recomeçar. "Você pode sair de casa e não sentir vento nenhum, mas quando você chegar a um espaço aberto, pode ser pego por uma rajada que parece espremer todo seu corpo", conta Serguêi.

Pevek é, oficialmente, a cidade mais setentrional da Rússia. O clima ali é duro: no inverno, a temperatura cai a 40 graus Celsius negativos, e a assim fica de outubro a maio. O vento é exclusivo de Pevek e se origina devido à paisagem local.

A cidade está localizada na costa, no sopé de um grande monte que separa a cidade de uma ampla tundra. O vento acumula força na tundra e atravessa a colina. Ele sopra a neve a partir do topo da colina, e ela desce a encosta com ondas cheias de espuma em um dia de mar bravo.

Quando o vento chega a 20 metros por segundo, as aulas nas escolas são canceladas. Quando vai a 30 ou 35 metros por segundo, algumas empresas também fecham. Mas a vida na cidade não para, e muitas gente continuam indo trabalhar e se encontrar com amigos.

Sem refúgio

As rajadas súbitas de vento são muito perigosas, e podem durar de cinco a 15 minutos. Isto significa que, se você sair de casa, olhar em volta, e ficar feliz de não haver vento, ao chegar à esquina pode ser surpreendido por uma rajada de vento.

Quando isto acontece, é muito difícil se manter em pé. As pessoas às vezes acabam de quatro no chão e procurando refúgio nas casas das redondezas. Antes de sair, algumas pessoas chegam a vestir máscaras de esqui para proteger os olhos da areia e do cascalho erguidos pelo vento.

“Quando essas rajadas chegam, o mais importante é se segurar em alguma coisa, porque, caso contrário, o vento pode te levar pela rua e você não pode fazer nada para evitar isso”, conta Evguênia.

Ela e o marido se mudaram de Vladivostók para lá a trabalho. “Teve vezes em que as pessoas se agarravam a um poste enquanto os pés simplesmente flutuavam, e acabavam penduradas como uma bandeira ao vento”, diz.

O iuják pode levantar mais do que apenas humanos do chão. "Certa vez, vi uma minivan sendo virada de ponta-cabeça pelo vento. Outra vez, vimos pela janela quando um contêiner pesado daqueles de navios ser levado pela rua. Talvez ele estivesse vazio, mas, como a própria estrutura é bem pesada, ficamos assustados”, lembra Serguêi.

No início do ano letivo, as crianças passam por treinamentos para saber o que fazer para se proteger no caso de um iuják. "Em casa também dizemos aos nossos filhos o que pode acontecer e eles mesmos veem o que acontece nas ruas", diz Evguênia.

Mas, para ela, o pior é quando o iuják pega uma pessoa na tundra. “A neve cobre a via em questão de minutos e você fica sozinho no meio do nada. Não há marcos na tundra, tudo ao seu redor é branco. Em uma situação como essa, o mais sensato é ficar parado – mas, claro, só se você tiver um carro com combustível o suficiente. Caso contrário, significa morte certa”, diz Evguênia.

Mas Serguêi relembra como já acabou em um iuják na tundra, fora da cidade, e nem estar no carro o acalmou. Então, ocorreu uma nevasca e ele não conseguia ver a via. “Estar no carro em uma situação assim é assustador demais. As janelas tomam porradas do vento, e parece que vão quebrar a qualquer momento”, diz.

Cidade de margaridas e românticos

Nos tempos soviéticos, a população da cidade era de mais de 12.000 pessoas. Havia ali grandes depósitos de ouro, mercúrio, carvão e urânio aqui. No entanto, por causa da crise da década de 1990, as pessoas começaram a deixá-la e, agora, a população é de apenas 4.000. O declínio da população, porém, se estabilizou.

“Muita gente que nasceu aqui considera Pevek sua casa e não quer se mudar. As empresas de mineração de ouro têm trabalhadores principalmente sob contratos temporários, e a cidade é povoada por patriotas e aventureiros. O pagamento aqui não é tão alto quanto costumava ser. O lado positivo disso é que não é precisa temer pelos filhos: todo mundo se vê o tempo todo, todos se conhecem”, diz Evguênia.

Os moradores locais dizem que Pevek é uma cidade de margaridas e românticos. No verão, um milhão de flores brancas e amarelas florescem ali, tornando a cidade inconfundível.

Como outras do Extremo Norte, porém, há problemas com o transporte, a comida e a bebida são caras e a internet, lenta. Mas também há uma vista incrível dos montes e da Aurora Boreal – algo impagável!

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