O russo de 68 anos que viaja descalço

Nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos

Vladimir Nesin
Vladímir Nesin acredita que ver o mundo como uma criança o veria é o que faz com que ele consiga atravessar até mesmo regiões tão desafiadoras como a África Subsaariana sem nada nos pés

"Uma das minhas curiosidades quando chego a um lugar novo é saber quanto ganham as pessoas por lá. Por exemplo, um motorista de táxi. Eu saco essa quantia em dinheiro e vivo com isso. Na Ásia, eles ganham em média de R$397 a R$465 e eu achei fácil até viver com isso, já que eles sustentam famílias e eu só preciso cuidar de mim mesmo", disse o aposentado Vladímir Nesin, de Nizhnevartovsk (Oeste da Sibéria) em uma entrevista.

Cidadão descalço do mundo

Na República Dominicana

Mesmo com todas as facilidades dos transportes modernos, Nesin prefere conhecer o mundo a pé. "Eu andava descalço quando era criança e todas as vezes que tiro meus sapatos é como se voltasse à infância. É um desejo incontrolável", diz ele, que usa sapatos apenas em circunstâncias extremas.

Na maior parte do tempo Nesin viaja sozinho, embora tenha uma ou outra companhia em partes de suas jornadas. Verônica, sua terceira esposa e neta de um chefe das Primeiras Nações (povos indígenas da América no Norte), é quem mais o acompanha. Eles já conheceram 55 países juntos em apenas 10 anos.

Nikita, filho de um outro casamento, também já fez 33 viagens com o pai e quem quiser se juntar à jornada pode procurar por Nesin Online. "Nunca ninguém teve medo de viajar comigo. As pessoas sabem, sentem que estão seguras comigo", diz o aposentado.  

Em Cuba

Mesmo tendo passado por algumas das regiões mais perigosas da África Subsaariana, Nesin nunca se sentiu ameaçado e não pensa muito sobre isso. "Não leio sobre os lugares antes de visitá-los. Chego lá como chegaria uma criança, vendo tudo com meus próprios olhos", recomenda.

Ele tem mais uma dica para quem quer se tornar um viajante: aprender a confiar nos outros. "Dizem que o mundo existe por conta das boas pessoas, e isso é verdade. As pessoas ruins são uma exceção à regra. O que é preciso fazer é tratar os outros como você gostaria de ser tratado", ensina.

No Zâmbia

Além do passaporte russo, Nesin tem o chamado "World Passport". "Não ajuda nada para vistos, mas assim me sinto um verdadeiro cidadão do mundo", diz ele. O russo considera a Terra sua única casa e não um país ou cidade específicos.

Nesin tem amigos e parentes em muitos lugares, incluindo países como o Canadá, a Ucrânia, a Alemanha e o Cazaquistão.

Sem remédios ou seguro saúde.

Nesin vive de sua aposentadoria russa de 12 mil rublos (R$736) que gasta principalmente com comida. Ele nunca ficou em um hotel em 20 anos de estrada, prefere usar sua barraca de camping ou, se o clima permitir, dormir sob as estrelas.

Também quase nunca viaja de avião. Pede carona ou usa outros meios de transporte além dos pés só quando é absolutamente necessário.

Na República do Niger

O viajante não admite a ideia de tomar remédios e não tem seguro saúde.

Fazer as malas para ele na verdade é só o ato de escolher seu próximo destino e chegar até ele. "Certa vez eu queria chegar até a Austrália e eu simplesmente fui caminhando na direção do país", lembra.

No Japão

Nesin usa uma mochila de cerca de 17 quilos, que ele carrega nos 25 quilômetros que caminha diariamente. "Estou sempre de bermuda e camiseta e carrego um saco de dormir e uma panela de camping", diz. Isso dá a ele autonomia para viajar por cerca de nove meses (a viagem mais longa durou 14 meses). Ele diz que poderia viajar por muito mais tempo, mas precisa voltar à Rússia a cada três anos para resgatar sua aposentadoria.

146 países até agora.

A primeira vez que Nesin saiu de sua casa para conhecer o mundo foi nos anos 1970, naquela época ainda rompendo apenas as fronteiras da União Soviética. Ele conheceu 14 repúblicas soviéticas em 20 anos. Só conseguiu seu passaporte em 1997, quando fez sua primeira viagem realmente internacional.

Mas não sem se deparar com alguns percalços. "Na minha primeira viagem, tentei um visto para o Brunei, mas eles não me deram pois meu passaporte era de um país que não existia mais. Na Rússia pós URSS ainda eram emitidos passaportes com o papel que tinha restado dos tempos soviéticos", lembra.

Na França

Depois do Brunei, as próximas paradas foram China e Laos, um total de 5 mil quilometros caminhados, sem sapatos, em 11 meses.

Até o momento, ele já visitou 146 países, mas isso não quer dizer que esteja diminuindo seu ritmo. Nesin já tem planos de visitar a Groenlândia em breve.

Antes de se aposentar, o viajante trabalhou como motorista, eletricista e professor. Quando não está viajando, ele ensina Sambo (a arte marcial russa) para crianças em Nizhnevartovsk. 

Nos Estados Unidos

Nesin não tem a ambição de visitar todos os países do mundo. "O que eu gosto mesmo é do processo de viajar em si", explica.

Há lugares que ele diz que poderia voltar mil vezes, como o Vietnã, a Tailândia, a China e todo o Sudeste Asiático. Ele aprendeu sozinho inglês e espanhol e tem três livros já escritos sobre viajar descalço e a pé. A ideia agora é encontrar uma editora que os publique.

Quer receber as principais notícias sobre a Rússia em seu e-mail? 
Clique aqui para assinar nossa newsletter.

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Russia Beyond.

Mais reportagens e vídeos interessantes na nossa página no Facebook.
Leia mais

Este site utiliza cookies. Clique aqui para saber mais.

Aceitar cookies