Super Mário: como um paulista virou estrela da seleção russa

Reuters
Mário Fernandes nasceu em São Caetano do Sul, mas se naturalizou russo e mudou completamente de vida no país.

A seleção russa surpreendeu nesta Copa do Mundo. O time iniciou o campeonato com o pior lugar no ranking da Fifa, mas chegou às quartas de final.

Muito disto se deveu ao lateral-direito paulista Mario Fernandes, que ainda em 2014 vestia a camisa canarinha em amistoso contra o Japão.

Russo

 “[Comecei o processo para aquisição da cidadania russa] em 2015. Falei com [o diretor geral do clube moscovita CSKA, onde joga Mário] Roman Babaev, mas naquela época fui chamado para a seleção brasileira. Depois disto, não falamos por um tempo sobre minha cidadania. Voltamos ao assunto no segundo semestre daquele ano, antes do jogo da Liga dos Campeões contra o Wolfsburg. Eu disse que queria o passaporte russo. Todos me apoiaram na minha família. Meu pai achou a ideia ótima. Logo depois disso eu fui ao escritório do Babaev, conversei com ele e começamos o processo”, contou Mário em entrevista ao jornal estatal russo “Rossískaia gazeta”.

No final das contas, Mário recebeu a cidadania em meados de 2016, sem exame de língua russa e outras formalidades: os documentos foram submetidos de maneira facilitada e ele só teve mesmo que ir buscar o passaporte.

É interessante notar que então ninguém falava sobre Mário como uma possibilidade para complementar a seleção russa. O clube se ocupou de sua cidadania apenas em favor próprio, mas isto levou Mário para além dos limites estabelecidos aos jogadores estrangeiros atuando no futebol russo.

No fronte dos laterais-direitos já havia jogadores suficientes, e Mário parecia apenas mais um candidato, e não dos mais notáveis.

Aos poucos, porém, seus concorrentes foram sendo ofuscados, e Mário jogava pelo CSKA bem e de maneira estável. Com o novo treinador Stanislav Tchetchesov, Mário acabou convocado para a seleção.

Ele estreou pela Rússia oficialmente já em meados de 2017, mas não foi para a Copa das Confederações. Após a temporada dos clubes, ele fez uma operação no nariz e Tchertchesov não ficou nada feliz em saber com tanto atraso dos planos do jogador.

Apesar disto, não houve nenhuma desavença grave, e desde o segundo semestre de 2017 Mário passou a figurar regularmente na seleção russa.

“Não sou melhor que eles [os outros jogadores da seleção russa]. Não tenho nenhuma qualidade além das deles. E tem quem pense que já que sou naturalizado, devo sempre estar na seleção russa. Mas não é assim. Pelo contrário, eu devo mostrar muito mais serviço para ter esta honra”, diz Mário.

Lar, doce (frio?) lar

Mário já vive há seis anos na Rússia, e diz com gosto que a transferência para o CSKA mudou sua vida para melhor. Se no Brasil ele tinha reputação como um bom lateral, capaz de cair na farra - ou na depressão – e não chegar à seleção, dormindo no avião, em Moscou ele transformou-se em outra pessoa.

Ele deixou completamente a bebida alcoólica e começou a ir regularmente à igreja. Mário não é casado, mas leva uma vida privada muito modesta.

Com isto, ele até hoje não aprendeu a falar russo: compreende quase tudo, mas ainda tem vergonha de se comunicar na língua. Para o clube, a situação é comum, mas, para a seleção é algo novo.

Ele não tem tradutor ali, e quem o ajuda é outro brasileiro, Paulinho Granero, que é treinador de fisioterapia no CSKA e na seleção russa.

Mário se comunica bem com outros jogadores, mas só isso. Ele fez amizade porém com Denís Tchérichev, meia do Villarreal que cresceu na Espanha e que, em termos de mentalidade, também é praticamente um estrangeiro entre os jogadores russos.

Por isto, durante a Copa, Mário e Denís passam praticamente todo o tempo juntos – o que é bom para ambos.

“Eu sonhava em jogar na Copa, e o realizei na seleção da Rússia. A União do Futebol Russo abriu para mim portas que estavam fechadas na minha terra natal, o Brasil. Eu agradeço a Deus pela minha carreira ter tomado esse rumo. Sou uma pessoa feliz”, disse Mário em entrevista recente ao jornal russo Izvêstia.

Com os resultados nos jogos contra Uruguai e Espanha, é possível ainda que o CSKA pense em potenciais compradores para Mário.

Em 2012, o clube moscovita pagou 15 milhões de euros pelo jogador, a transferência mais cara da história do CSKA. Assim, se Fernandes passar para outro time, isto só ocorrerá mediante uma grande quantia. Se ele quer ou não deixar o país que passou a chamar de segunda casa ainda é uma questão sem resposta.

Segundo seu irmão Jô, talvez a resposta seja não. “A Rússia mudou a vida dele. Ee diz que é muito feliz ali, que mudar para a Rússia foi a melhor resolução da vida dele. Os russos o tratam muito bem e permitiram que ele se tornasse um deles. Ele sempre diz que encontrou seu lugar no mundo”, diz Jô.

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