“Assassino de Kennedy era neurastênico”, diz autor de dossiê

Código de género: Lee Harvey Oswald é detido. Parece que não seja possível fugir das mãos do FBI. Mas só parece assim. Ele será matado logo.

Código de género: Lee Harvey Oswald é detido. Parece que não seja possível fugir das mãos do FBI. Mas só parece assim. Ele será matado logo.

Coronel aposentado que conheceu o assassino do presidente americano John F. Kennedy fala com exclusividade à Gazeta Russa sobre a relação do culpado com as autoridades da URSS e como aconteceu o crime que chocou o mundo inteiro em 1953.

Esta sexta-feira (22) marca os 50 anos do assassinato do presidente norte-americano John F. Kennedy, atingido por três tiros enquanto circulava em um automóvel presidencial pela Praça Dealey, em Dallas. Em meio a especulações e inúmeras teorias de conspiração, duas investigações oficiais concluíram que Lee Harvey Oswald, funcionário do armazém Texas School Book Depository, foi o responsável pelo crime.

Pouco antes da tragédia, o coronel aposentado e veterano do serviço de contraespionagem soviético Oleg Netchiporenko, então funcionário da embaixada soviética na Cidade do México, elaborou um dossiê sobre Oswald, que havia entrado com um pedido de visto para a URSS. O pedido chegou à chefia, e o visto de Oswald para entrar na União Soviética foi negado. Depois de se aposentar, Netchiporenko se tornou escritor e alguns de seus livros dedicados ao assassinato do presidente Kennedy viraram best-sellers.

Parte 1: Quem é você, Sr. Oswald?

Gazeta Russa: Inúmeras teorias foram desenvolvidas em torno do assassinato. Acredita-se, inclusive, que Oswald teria sido apenas um bode expiatório, como ele mesmo se definiu em frente às câmeras de televisão. O sr. concorda com isso?

Oleg Netchiporenko: Eu tenho a minha própria opinião sobre essa história, e não concordo de modo algum a versão do “bode expiatório”, ao contrário de alguns dos meus ex-colegas de serviço.

GR: O que motivou as autoridades russas a produzirem um dossiê sobre Oswald?

ON: Oswald já havia entrado na URSS com um visto de turista e, em 1959, pediu asilo político. Existem seis volumes imensos sobre os dois anos e meio que ele viveu na União Soviética. Imagine só: em 1959 existia uma severa cortina de ferro e, de repente, um ex-fuzileiro se declara marxista, diz querer participar da construção de uma sociedade socialista e pede cidadania soviética. Esse foi um caso raríssimo, que provocou reações nos nossos círculos mais altos. E o KGB se envolveu no caso.

Ficamos de olho nele desde o seu primeiro dia na URSS como turista, em 16 de outubro 1959, até o dia de sua partida, em maio de 1962. Na época, existiam duas seções do KGB que se ocupavam dos turistas estrangeiros. A Primeira Diretoria Geral (PGU) se ocupava de eventuais candidatos a recrutamento para posterior utilização como agentes no exterior. A Segunda Diretoria Geral tratava da contraespionagem, e sua função era identificar os agentes do inimigo.

GR: Logo no segundo dia após a sua chegada à União Soviética, Oswald pediu a uma guia turística que o ajudasse a elaborar o pedido de cidadania soviética. Como funcionou o processo?

ON: Quase todos os funcionários da Inturist [agência de turismo mais antiga da URSS/Rússia] cooperavam conosco. O pedido do americano, que recebeu imediatamente o nome de código “Nalim”, foi estudado e examinado pelo KGB, serviços secretos militares, Ministério das Relações Exteriores, OVIR (entidade responsável pela emissão de vistos dentro da URSS), Inturist e Cruz Vermelha. A decisão de negar a cidadania soviética foi tomada pelo ministro das Relações Exteriores, Andrei Gromiko, em conjunto com o presidente do KGB, Vladímir Semitchastni, e o próprio camarada Anastas Mikoian, que supervisionava os assuntos internacionais para o governo e o Comitê Central do Partido.

Adeus, Minsk, a família de Oswald te abandona já para sempre.

GR: Por que ele foi chamado de Nalim (um tipo de peixe)?

ON: Isso tinha a ver com a imaginação fértil dos nossos funcionários. Se você olhar bem para a foto de Lee Harvey Oswald, verá que ele tem, de fato, algumas semelhanças com esse peixão. E devo dizer que a energia dele era incrível. Quando o pedido de cidadania dele encalhou e parecia não avançar mais, ele conseguiu importunar todo mundo – e isso sem saber falar russo. Escreveu cartas, implorou e, quando a cidadania lhe foi negada, tentou se suicidar.

GR: E como ele obteve permissão de residência temporária na URSS?

ON: Ele cortou o pulso e foi parar no hospital. Mas o corte foi superficial, era mais para nos intimidar com um pouco de sangue. Todos entenderam, inclusive o KGB, que Oswald era um requerente problemático. Quando definia uma meta para si, não largava mais.

E nada de ruim poderia acontecer com ele. Imagine se de repente ele cometesse suicídio de verdade? O mundo inteiro gritaria: um homem de esquerda sonha com a cidadania soviética que lhe foi negada e o conduziu à morte. Para o Ocidente, isso seria um presente. Decidiram então dar-lhe apenas uma permissão de residência temporária no território da URSS.

GR: Os serviços secretos e a contraespionagem tentaram usá-lo como um possível agente?

ON: Após algumas semanas, o serviço de contraespionagem chegou a uma conclusão sobre ele: “Não temos interesse em relação ao cidadão americano Lee Harvey Oswald”. A PGU também não precisava dele, afinal, que informações secretas ele poderia fornecer?

GR: Então quer dizer que Oswald nunca foi um agente soviético?

ON: Nunca, ele nem passou por qualquer tipo de recrutamento. Para os nossos serviços secretos ele era persona non grata. Além disso, persistiam dúvidas sobre ele, nunca ficou descartada a possibilidade de que, apesar de tudo, ele pudesse ser um espião norte-americano. Quando ele se mudou para Minsk, foi como tirar um imenso peso de cima dos ombros, pois entregamos o assunto para o KGB da Bielorrússia. De acordo com o ex-diretor do KGB, Semitchastni, "lá, o controle de Oswald era rotineiro, com recorrência a agentes, meios e equipamentos operacionais, vigilância externa”.

GR: Por que ele foi transferido para Minsk?

ON: Eles queriam enviá-lo para o Báltico, mas Oswald se recusou. Ele acabou aceitando ir pra Minsk, onde passou a trabalhar como operador em uma fábrica de aparelhos eletrônicos. Assim, o Centro de Operações deixou de ter qualquer interesse nele.

GR: Em que condições ele vivia na Bielorrússia?

ON: Pela Cruz Vermelha, e por decisão do Comitê Central do PCUS, ele recebia 5.000 rublos, além de um salário mensal de 700 rublos e apartamento subsidiado.

GR: Pelos padrões da época isso era muito dinheiro...Por ele decidiu regressar para os Estados Unidos?

ON: Acontece que ele era preguiçoso e descuidado no trabalho. E não lhe interessava marxismo nenhum nem mesmo aprendeu a falar russo corretamente. Por outro lado, frequentava todas as festas, gostava de garotas e acabou se casando com Marina Prussakova, de 20 anos. Esses foram todos os êxitos alcançados por ele.

Em Minsk, os agentes de escalão superior nem chegaram perto dele. Dava para sentir que ele estava já pensando em partir e não fazia sentido expor algumas pessoas. Mas quando surgiram dificuldades com a sua partida, ele voltou de novo a exibir uma extraordinária energia e desenvoltura.

Constatou-se que, ao contrário do que havia dito, ele não recusara a cidadania norte-americana. Acabou partindo com Marina e o filho para alívio de todos. Esse cara nervoso e egoísta não nos saiu nada barato. E foi tudo em vão. Depois de que ele partiu, ficou claro que Oswald não tinha quaisquer ligações com os serviços de inteligência dos Estados Unidos.

}

Parte 2: Três balas contra JFK


O grito de morte do assassino. Ruby, que tirou quase à queima, não podia falhar.

GR: O sr. acredita que Oswald pode ter matado o presidente dos EUA sem a ajuda de ninguém?

ON: Sim. Quem disse que o Nalim era mau atirador? Quando morava em Minsk, ele comprou uma espingarda de cano que usava para caçar. Nos Estados Unidos ele também conseguiu uma espingarda.

GR: O senhor era um dos três funcionários da embaixada soviética na Cidade do México que falaram com Oswald quando, pouco tempo antes do assassinato de Kennedy em Dallas, Nalim foi pedir um visto soviético. Por que o visto foi negado?

ON: Depois do assassinato de Kennedy, os americanos encontraram na casa de Oswald esses documentos com a nossa recusa de visto para entrar na URSS. Consegue imaginar a bagunça que teria sido se tivéssemos dado o visto a ele?

Oswald foi à embaixada no dia 27 de setembro de 1963. No início da entrevista ele estava um pouco abatido, mas depois conseguiu se concentrar. Falou sobre sua vida em Minsk e do casamento com uma cidadã soviética. Ele justificou sua vontade de regressar para a URSS pela vigilância permanente que sofria como alvo do FBI. Falava ora com irritação, ora com entusiasmo. A ideia de uma possível colaboração com ele não foi sequer cogitada durante a conversa de uma hora que tivemos com ele.

GR: Por quê?

ON: Ele não servia para atividades operacionais. Falava russo, mas distorcia as palavras. Sua pronúncia era terrível e às vezes punha inglês pelo meio. Teve uma segunda reunião na embaixada, com dois outros colegas meus. E eles também foram da opinião de que o assassino de Kennedy era, na realidade, neurastênico e desequilibrado.

GR: E como é que ele conseguiu furar a segurança e atingir Kennedy?

ON: No dia 22 de novembro de 1963, ele escolheu um dos locais mais adequados no trajeto da comitiva para matar o presidente: a Praça Dealey, em Dallas. Oswald trabalhava no prédio onde se encontrava o armazém de livros escolares. Ele pôde entrar ali livremente e esconder antes um rifle com mira telescópica. O mais surpreendente é que as casas ao longo do trajeto não foram inspecionadas pela polícia, porque os serviços secretos normalmente não exigiam essa medida de segurança.

Para avaliar a situação, chamei na investigação funcionários de agências de segurança russas, e eles confirmaram a escolha do local para os disparos. O diretor deles também considerou o prédio do armazém de livros escolares um bom abrigo, onde o atirador teria a oportunidade de  acertar a pontaria com apoio da arma. Isso aumenta bastante a eficácia do tiro. O ângulo entre o tiro e o objeto e o declive da rua facilitam a pontaria.

GR: Pelo que o sr. disse, não era necessário ter ali o melhor dos atiradores para conseguir acertar o alvo, certo?

ON: Sim. Os especialistas também acreditam que todas essas condições reduzem a necessidade de preparação profissional do atirador. Pode-se dizer com bastante segurança que, nessas condições, até um atirador mediano conseguiria efetuar um tiro bastante certeiro. As três balas disparadas por Oswald atingiram o alvo.

}

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.