Por que Velíki Nôvgorod era única e tão diferente de outras cidades da Rússia Antiga?

Velíki Nôvgorod, Constantin Gorbatov, 1919.

Velíki Nôvgorod, Constantin Gorbatov, 1919.

Constantin Gorbatov
“O Senhor Nôvgorod, o Grande”, como a República foi chamada pelos russos, era muito diferente de outras cidades e Estados eslavos que formaram a Rússia em quase todas as áreas da vida. A história da ascensão e queda da República de Nôvgorod (também chamada de República de Novogárdia em português) serviu de fonte de inspiração para figuras culturais e defensores da democracia durante séculos.

Posto avançado no nordeste das terras russas, uma cidade repleta de mercadores e marinheiros ultramarinos, Nôvgorod sempre foi diferente de outras cidades da Rússia. Tradicionalmente, todas as cidades russas cresciam em torno de um único centro; na maioria dos casos, uma fortaleza. Nôvgorod surgiu da união de três assentamentos habitados por tribos diferentes.

Nos séculos 14 e 15, época de seu apogeu, a República de Nôvgorod (também chamada de República de Novogárdia em português) controlava as terras desde o Mar Báltico, no oeste, até os Montes Urais, no leste, e desde o Mar Branco, no norte, até o rio Volga, no sul — sendo o segundo mais poderoso Estado da Rússia depois de Kiev.

Comércio de Nôvgorod

Mercado de Nôvgorod no século 17, Apollinari Vasnetsov, 1908–1909

A base da prosperidade de Nôvgorod era o comércio muito bem-sucedido. Os artesãos locais, entre eles tecelões, joalheiros, sopradores de vidro, oleiros, armeiros e serralheiros, eram famosos em toda a Rússia e na Europa. Através do Báltico, Nôvgorod conduzia um comércio ativo com a Europa Ocidental. Já em meados do século 13, foi aberta em Nôvgorod uma representação de mercadores da Gotlândia, ilha e maior centro de comércio do Mar Báltico. No século 13, os novgorodianos também abriram sua representação na Gotlândia, construindo um mercado e a Igreja Ortodoxa de São Nicolau na ilha.

“Convidados estrangeiros”, 1901, Nicholas Roerich

No final do século 13, apareceu em Nôvgorod a representação de mercadores hanseáticos. A Liga Hanseática, a maior associação de comerciantes de cidades alemãs, tinha apenas quatro representações no exterior: em Nôvgorod, Bruges, Bergen e Londres, por meio das quais protegia os seus interesses na celebração de contratos. Em Nôvgorod, apenas os moradores desta cidade podiam negociar com a Liga Hanseática, diferentemente dos representantes de outras terras russas.

Comerciantes estrangeiros vendiam aos novgorodianos vinhos, bens de luxo e materiais necessários para a produção artesanal: tecidos caros, pedras ornamentais, metais não ferrosos e preciosos. Os comerciantes de Nôvgorod exportavam peles, cera para velas de igreja, mel, couro e marfim de morsa.

República dos boiardos

Velíki Nôvgorod,  Apollinari Vasnetsov, 1901

O sistema político da República de Nôvgorod não tinha análogos nas terras russas. A sociedade local era governada por um círculo de famílias boiardas, ou seja, pelos membros do mais alto escalão da nobreza feudal, que possuíam enormes propriedades e terras perto da cidade e nas remotas regiões do norte. Ao contrário das outras regiões da Rússia, era impossível se tornar um boiardo de Nôvgorod se não fosse por nascimento.

A autoridade máxima era a veche (também transliterado do russo como “viétche”), ou seja, Assembleia de Estado, que incluía pelo menos 300 boiardos das famílias mais nobres e ricas. Segundo as fontes alemãs do século 14, essa assembleia principal de Nôvgorod era chamada de “300 cinturões de ouro”. A veche se reunia na praça próxima ao mercado, sua convocação era anunciada por um sino especial, símbolo da liberdade da cidade. Veches também existiram em outras cidades da Rússia Antiga antes do estabelecimento da monarquia principesca, mas só em Nôvgorod essas assembleias continuaram sendo a autoridade máxima até o século 15.

A veche elegia e expulsava os príncipes, julgava, adotava leis, declarava guerras e estabelecia a paz, assim como cobrava impostos e taxas. Além disso, o prefeito, chefe da cidade, também era eleito pelos membros da veche. O prefeito tinha que monitorar se o príncipe cumpria os termos do acordo com a cidade, administrava as possessões de Nôvgorod, era responsável pela manutenção da lei e da ordem, do tribunal e pela assinatura de tratados diplomáticos. O príncipe de Nôvgorod, por sua vez, apenas representava a república no exterior e era responsável pela defesa.

No entanto, a vida política dos novgorodianos não se limitava à veche geral; os moradores locais participavam das veches das ruas e bairros da cidade, chamados de extremidades. Os boiardos usavam essas reuniões para apoiar os seus interesses e lutar contra os seus oponentes.

As autoridades eclesiásticas da cidade também gozavam de grande liberdade. Os novgorodianos conquistaram autonomia para o seu arcebispo. A partir do início do século 12, o Metropolita de Kiev aprovava apenas o candidato proposto pelos novgorodianos para este cargo. O arcebispo tinha regimento próprio, participava de negociações diplomáticas e colocava seu selo nos acordos internacionais.

Governantes com poder limitado

Iaroslav, o Sábio, Nicholas Roerich, 1941-1942

A restrição dos direitos e poderes dos príncipes começou em Nôvgorod durante o reinado de Jaroslau I, o Sábio, que concordou que os boiardos de Nôvgorod não estariam sujeitos à jurisdição do príncipe em troca do apoio dos novgorodianos na luta por Kiev. Antes de morrer em 1054, Jaroslau deixou Kiev e Nôvgorod de herança para o seu filho mais velho. Como resultado, um representante da família principesca mais forte geralmente acabava no trono de Nôvgorod.

Em 1136, ocorreu uma revolta em Nôvgorod e o príncipe foi expulso. A partir de então, foram os novgorodianos que convidaram os príncipes e firmaram acordos com eles, segundo o qual os governantes convidados não podiam interferir nos assuntos de governo da cidade, substituir altos funcionários ou adquirir terras nos arredores de Nôvgorod.

Em caso de violação do acordo, o príncipe era expulso da cidade e a veche escolhia um novo candidato. Esses episódios sempre tiveram grande impacto na vida de toda a Rússia.

Apesar dessa liberdade no tratamento dos príncipes, todas as principais figuras da Rússia de Kiev, os construtores do futuro Estado russo unido, desde Vladimir, o Grande, até Vladimir Monômaco, reinaram em Nôvgorod antes de ascender ao trono de Kiev. É simbólico que Nôvgorod também tenha sido o primeiro local de reinado de Rurik, o primeiro príncipe russo e fundador da dinastia ruríquida.

A cidade mais culta

Carta de casca de bétula nº 1

Em 26 de julho de 1951, durante as escavações arqueológicas em Nôvgorod, foi encontrada a primeira escrita em casca de bétula com texto esculpido na superfície. No total, foram encontradas na Rússia cerca de 1.200 escritas semelhantes — das quais 1.100 apenas em Nôvgorod.

A análise das escritas em casca de bétula de Nôvgorod permitiu recriar a vida cotidiana da cidade e de seus habitantes nos séculos 14 e 15.

Esses textos em casca de bétula indicam a alta alfabetização dos locais, os novgorodianos escreviam uns aos outros com frequência e sobre uma variedade de assuntos, discutindo assuntos domésticos, transações, decisões judiciais e boatos. Além disso, tanto homens como mulheres eram alfabetizados.

As escritas em casca de bétula também mostraram que a posição das mulheres na sociedade de Nôvgorod era surpreendentemente elevada para a época. Elas conduziam negócios de forma independente, concluíam transações financeiras, enviavam ordens aos seus maridos, podiam se representar em tribunais, inclusive em questões financeiras e, em geral, estavam ativamente envolvidas em atividades econômicas.

Os arqueólogos também encontraram textos com confissões de amor, como, por exemplo, a famosa carta de uma desconhecida do século 12: “Mandei já três cartas para você. Que mal tem contra mim que ainda não veio?”, e uma das primeiras provas escritas do uso de palavrões na Rússia Antiga.

Heróis de Nôvgorod e a queda da República

Sadko, Iliá Rêpin, 1876

As estruturas política e econômica especiais criaram heróis (culturais e reais) específicos. Ao contrário dos tradicionais personagens épicos russos que, segundo as lendas, passavam o tempo todo deitados no fogão esperando a oportunidade de defender a pátria, o herói épico de Nôvgorod, chamado Sadko, era um homem bonito, músico e comerciante muito ativo que sempre queria enriquecimento e se tornar famoso. Segundo uma das versões do poema épico sobre ele, Sadko enganou com sucesso o rei do mar, tornou-se rico e prometeu comprar todas as mercadorias no mercado de Nôvgorod.

Outro herói atípico, desta vez não épico, mas real, é a líder da resistência de Nôvgorod contra Moscou, Marfa Borétskaia. Membra de uma família de boiardos influentes, Borétskaia era proprietária de vastas terras da região.

A retirada do sino de Nôvgorod. Marfa Boretskaia. 1889

Quando, no século 15, o grão-príncipe de Moscou, Ivan 3º, começou a unir as terras russas ao redor de Moscou, Marfa iniciou negociações secretas com o grão-duque da Lituânia sobre a entrada da República de Nôvgorod no Grão-Ducado da Lituânia com a condição de manter a sua autonomia.

Ao saber dessas negociações secretas, Ivan 3º declarou guerra à República de Nôvgorod e venceu. Em 1478, a República de Nôvgorod deixou de existir. Como sinal da abolição da veche de Nôvgorod, o sino foi transferido para Moscou. Todas as cidades e terras da República de Nôvgorod ficaram sob o controle direto de Moscou. Todos os cidadãos influentes foram reprimidos. As terras de Marfa Borétskaia, que morreu em seguida, foram confiscadas.

A cidade, que no início da história russa aceitou o primeiro príncipe russo Rurik para reinar e, assim, lançou as bases para o Estado russo, mostrou que a centralização estrita e o poder absoluto nas mãos dos príncipes não era o único caminho de desenvolvimento para as terras russas da Idade Média.

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