Como os russos tomaram Pequim no início do século 20?

Tropas russas em Pequim.

Tropas russas em Pequim.

Universal History Archive/Getty Images
Soldados de cinco grandes potências se uniram para invadir a capital chinesa em 1900 durante o Levante dos Boxers — mas russos foram os primeiros a colocar bandeira nacional nas antigas muralhas da cidade.

No final do século 19, o outrora poderoso Império Qing se tornou uma semicolônia de cinco potências (Estados Unidos, Japão, França, Grã-Bretanha e Rússia) que o exploravam impiedosamente em prol de seus interesses. Incapaz de resistir à pressão estrangeira, a elite política do país buscava apenas permanecer no poder e lucrar com a situação. Enquanto isso, o povo chinês afundava na miséria.

O descontentamento chinês com o domínio estrangeiro levou à formação de várias sociedades secretas, os chamados "destacamentos sagrados", cujos membros se tornaram conhecidos como “Yihetuan” — os mesmos que foram apelidados pelos europeus de "boxers", já que os exercícios físicos que praticavam se assemelhavam com essa luta.

 Caricatura política francesa do final dos anos 1890.

Em 1899, os "boxers" lançaram uma grande rebelião contra os estrangeiros, que passaram a exterminar — entre eles, se encontravam padres cristãos e até compatriotas que tinham se convertido ao cristianismo.

Um diplomata russo na China, Ivan Korostovets, escreveu sobre um desses episódios de matança: “Não contentes com a destruição da igreja e do mosteiro, os 'boxers' mataram quase toda a congregação ortodoxa e muitos cristãos albazistas [descendentes de cossacos russos que se estabeleceram na China no século 17]. Os cadáveres dos nossos cristãos, bem como as pessoas vivas, foram lançados nos poços [...] Os 'boxers' também destruíram o cemitério russo atrás do muro da cidade, destruíram as lápides e jogaram fora os ossos dos enterrados.”

Pequim no início dos anos 1900.

O governo da Imperatriz Cixi não conseguiu suprimir a revolta, e logo a chamada Aliança dos Oito Poderes (Rússia, Alemanha, Grã-Bretanha, França, EUA, Japão, Áustria-Hungria e Itália) iniciou uma intervenção à China em grande escala. Desses, porém, apenas cinco participaram da intervenção em Pequim, especificamente, com seus militares (Estados Unidos, Japão, França, Grã-Bretanha e Rússia).

Em junho de 1900, os chineses atacaram a Ferrovia Sino-Oriental, propriedade do Império Russo, na Manchúria, e sitiaram o Bairro dos Embaixadores em Pequim, onde diplomatas estrangeiros e seus familiares se refugiaram sob a proteção de várias centenas de soldados.

Os

Apesar da superioridade numérica, as tropas Qing e as unidades de “boxers” eram inferiores às da aliança quanto a sua eficiência em combate. “O soldado chinês não é um covarde, mas não foi treinado para ser corajoso, não foi treinado para se controlar, não está acostumado a ser soldado como o europeu”, escreveu o médico russo Vladímir Korsakov, que participou da campanha militar na China.

Após a captura dos fortes Dagu, na foz do rio Haihe, e a captura de Tianjin, as tropas da aliança iniciaram um ataque contra a capital do Império Celestial. Cerca de 30 mil defensores de Pequim enfrentaram 9 mil japoneses, 5 mil russos, 2 mil soldados americanos e 800 franceses, além de 3 mil soldados indianos enviados pela Grã-Bretanha.

Tropas russas defendendo o Bairro dos Embaixadores em Pequim.

As tropas russas foram as primeiras a atacar. Na noite de 14 de agosto, a companhia do capitão Iaroslav Gorski eliminou a guarda no Portão Dongbianmen. Os soldados conseguiram entrar e subir na muralha, hasteando ali a bandeira russa.

Tropas russas atacam o Portão Dongbianmen.

Os membros da aliança começaram a atacar a cidade apenas pela manhã. Durante um dia inteiro, as tropas japonesas travaram ferozes batalhas pelo Portão de Qihuamen e chegaram até a pedir apoio de artilharia russa.

Canhões russos atiram nos portões de Pequim à noite.

No estágio final, os norte-americanos entraram nas batalhas, e ingleses e franceses entraram na cidade quase sem encontrar resistência no caminho. As tropas da aliança desbloquearam o Bairro dos Embaixadores e assumiram o controle sobre toda a cidade até o final daquele dia. As maiores perdas durante a operação foram sofridas por russos e japoneses: cerca de 60 pessoas morreram e duzentas ficaram feridas.

Tropas dos EUA atacam Pequim.

Em 15 de agosto, após um curto bombardeio da artilharia americana, a aliança ocupou o palácio da Cidade Proibida, de onde a Imperatriz Cixi já havia fugido. Nos dias seguintes, as forças de ocupação sujeitaram a cidade a saques devastadores, acompanhados da morte de Yihetuan, soldados do governo e civis. Depois desses eventos, os países da aliança passaram a acusar uns os outros pelos crimes cometidos.

Tropas russas em Pequim.

Após a captura de Pequim, os russos derrotaram o inimigo na Manchúria, assumindo temporariamente o controle sobre toda a região, e começaram a reconstrução da Ferrovia Sino-Oriental.

Prisioneiro chinês, provavelmente

Em setembro de 1900, a Imperatriz Cixi mudou de lado, mandando matar todos os Yihetuan em todo o país. Um ano depois, o Levante dos Boxers foi reprimido e a aliança forçou a China a assinar o chamado "Protocolo Final". Segundo esse documento, o Império Celestial era obrigado, entre outras coisas, a pagar indenizações, e ficava impedido de importar armas e munições por dois anos, além de ter que passar uma série de fortalezas litorâneas para as tropas das potências europeias, os Estados Unidos e o Japão.

Cavalaria russa.

“Pequim foi tomada pelo sangue e suor de dois membros leais da aliança: os russos e os japoneses, que, pela primeira vez, sob fogo e balas, experimentaram uma irmandade de armas”, escreveu o jornalista russo Dmítri Iantchevetski. As boas relações entre as duas nações, porém, não duraram muito. Poucos anos depois, os dois impérios entraram em uma guerra que terminou em um desastre completo para a Rússia.

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