Como soldados chineses ajudaram os bolcheviques a manter o poder na Rússia

Primeira unidade chinesa do Exército Vermelho em Petrogrado, 1918

Primeira unidade chinesa do Exército Vermelho em Petrogrado, 1918

Sputnik
Os soldados chineses eram alguns dos mais disciplinados, resistentes e cruéis entre os que lutaram ao lado do Exército Vermelho na Guerra Civil Russa.

“Um [soldado] chinês é durão, não tem medo de nada. Seu irmão pode ter morrido na batalha, mas ele não piscará... Se ele entende que está enfrentando um inimigo, o inimigo não deve ser invejado. Um [soldado] chinês lutará até o fim”, escreveu o comandante soviético Iona Iakir em suas “Memórias de um Velho Soldado do Exército Vermelho”.

Mais de 40 mil soldados chineses lutaram na Guerra Civil Russa ao lado do Exército Vermelho. Mas o que os levou a se envolver no conflito nas terras de outros povos?

Sob as bandeiras da revolução

Em 1917, a Rússia tinha uma população de quase 200 mil pessoas de etnia chinesa, das quais a maioria realizava trabalhos braçais na indústria, agricultura e construção. Isso porque o governo tsarista tentou resolver o problema da escassez de mão de obra resultante da Primeira Guerra Mundial recrutando mão de obra barata na China.

Primeira unidade chinesa do Exército Vermelho em Petrogrado, 1918

No entanto, quando a Guerra Civil começou e os bolcheviques chegaram ao poder, os chineses na Rússia se viram em uma situação difícil. Com o país mergulhando cada vez mais no caos, não havia muitas oportunidades para eles se sustentarem. Quando a Sibéria, bem como os portos do norte e do sul, caíram nas mãos da Guarda Branca e das tropas aliadas, o acesso de volta para casa para a população chinesa da Rússia central foi cortado. Além disso, nem todos queriam voltar à China, que então passava pela Era dos Senhores da Guerra, sendo dilacerada por grupos militares e políticos.

Nesse contexto, alistar-se no Exército Vermelho poderia ser a única maneira de o proletariado chinês, que havia se acumulado nas grandes cidades russas, conseguir alimentar sua família mesmo e ganhar dinheiro suficiente para bancar a viagem de volta. “Os chineses levavam o pagamento muito a sério. Eles davam suas vidas facilmente, mas exigiam ser pagos em dia e ser bem alimentados ”, lembra Iakir.

No entanto, o dinheiro não foi a única razão pela qual milhares de chineses se alistaram sob as bandeiras vermelhas. Muitos deles tinham afinidade com a ideologia da revolução socialista e do comunismo. “A Rússia tsarista e a China, com sua dinastia Qing governante, não estavam muito distantes: em ambos os países, os ricos viviam com luxo e comodidade, enquanto os pobres viviam com fome e frio”, escreveu o soldado Chen Bo-chuan em suas memórias “Dias e Noites na Sibéria”.

Soldados do 225º Regimento Internacional Chinês

No entanto, quando a Guerra Civil começou e os bolcheviques chegaram ao poder, os chineses na Rússia se viram em uma situação difícil. Com o país mergulhando cada vez mais no caos, não havia muitas oportunidades para eles se sustentarem. Quando a Sibéria, bem como os portos do norte e do sul, caíram nas mãos da Guarda Branca e das tropas aliadas, o acesso de volta para casa para a população chinesa da Rússia central foi cortado. Além disso, nem todos queriam voltar à China, que então passava pela Era dos Senhores da Guerra, sendo dilacerada por grupos militares e políticos.

Nesse contexto, alistar-se no Exército Vermelho poderia ser a única maneira de o proletariado chinês, que havia se acumulado nas grandes cidades russas, conseguir alimentar sua família mesmo e ganhar dinheiro suficiente para bancar a viagem de volta. “Os chineses levavam o pagamento muito a sério. Eles davam suas vidas facilmente, mas exigiam ser pagos em dia e ser bem alimentados ”, lembra Iakir.

No entanto, o dinheiro não foi a única razão pela qual milhares de chineses se alistaram sob as bandeiras vermelhas. Muitos deles tinham afinidade com a ideologia da revolução socialista e do comunismo. “A Rússia tsarista e a China, com sua dinastia Qing governante, não estavam muito distantes: em ambos os países, os ricos viviam com luxo e comodidade, enquanto os pobres viviam com fome e frio”, escreveu o soldado Chen Bo-chuan em suas memórias “Dias e Noites na Sibéria”.

Ren Fuchen (no centro, de jaleco branco) com seus soldados

“Todos eles são guerreiros corajosos, mas não suportam uma coisa, o brilho do aço”, lembrou o líder partidário Iakov Nikulikhin em seu livro “Na Frente da Guerra Civil”. “Os cossacos estavam cientes disso e nos dias ensolarados antes de um ataque eles começariam a agitar suas espadas fora da bainha. Isso deixou os chineses em pânico e eles fugiram para se esconder em um campo de girassóis. Mas, de modo geral, um soldado do Exército Vermelho chinês é corajoso, ele não recua quando confrontado com tiros de metralhadora e luta corajosamente”, continuou Nikulikhin.

Os brancos se ressentiam dos chineses no Exército Vermelho, além de outros estrangeiros em suas fileiras: letões, estonianos, húngaros. “Selvagens, infiéis e espiões alemães” eram considerados um dos principais pilares do poder bolchevique e, quando feitos prisioneiros, eram geralmente fuzilados na mesma hora.

Da Polônia ao Oceano Pacífico

Os 40 mil soldados chineses do Exército Vermelho nunca atuaram como uma força única. Em vez disso, foram divididos em destacamentos com não mais de 2.000 a 3.000 soldados cada e então incorporados a unidades maiores espalhadas por todo o país. Desse modo, havia soldados chineses na 25ª Divisão de Fuzis do lendário comandante vermelho Vassíli Tchapaiev e até mesmo na guarda pessoal de Lênin.

Uma das unidades mais fortes e confiáveis ​​ do Exército Vermelho nos Urais e na Sibéria foi o 225º Regimento Internacional Chinês sob o comando de Ren Fuchen. Após sua morte, em 29 de novembro de 1918, Fuchen foi postumamente condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha e Lênin encontrou-se com sua viúva e filhos.

Cerca de 500 cavaleiros chineses serviram na melhor unidade militar dos bolcheviques, o 1º Exército de Cavalaria de Semion Budionni. Durante a Guerra Polaco-Soviética, um contra-ataque inimigo no rio Vístula os dividiu e parte do exército se separou das forças principais, forçando-os a recuar para o território alemão, onde foram detidos. Os alemães mantiveram os chineses separadamente, tentando persuadi-los a permanecer em seu serviço, mas os chineses recusaram e logo retornaram à Rússia junto com os outros prisioneiros.

No Extremo Oriente russo, uma das unidades chinesas mais famosas foi o destacamento partidário do comunista San Di-wu, que lutou com sucesso contra as tropas cossacas brancas, invasores japoneses e norte-americanos, bem como saqueadores chineses, os Honghuzi. San Di-wu era conhecido por sua excepcional coragem: muitas vezes entrou em combate corpo a corpo com o inimigo, foi ferido quatro vezes e até mesmo descarrilou uma locomotiva a vapor norte-americana.

Soldados chineses no pôster do movimento branco 'Sacrifício pelo Internacional'

Havia também chineses ao lado da Guarda Branca. No entanto, houve casos em que, ao se depararem com seus compatriotas do Exército Vermelho na frente, os soldados chineses mudaram de lado sem hesitar.

Punição sem rodeios

A disciplina de ferro dos soldados chineses se manifestava não apenas na batalha. Sua diligência e inquestionável obediência às ordens foram particularmente úteis no cumprimento de ações punitivas e execuções. Nas áreas em que os russos poderiam titubear, os soldados chineses agiam com precisão e sem emoção.

Mas nem todos eram comunistas e odiavam seus inimigos de classe. Muitos tratavam os confrontos com o inimigo e as execuções de camponeses e operários rebeldes com a mesma indiferença, como um trabalho rotineiro pelo qual recebiam um salário.

A poetisa Zinaida Gippius, que antes de fugir da Rússia soviética no final de 1919 morava em Petrogrado (atual São Petersburgo), escreveu em seu diário: “Você sabe o que é carne chinesa? Eis aqui o que é: como vocês sabem, os ‘tchequistas’ dão os corpos dos Guardas Brancos executados aos animais no zoológico... As execuções são conduzidas pelos chineses. Tanto aqui como em Moscou. Durante as execuções e ao enviar os corpos ao zoológico, os chineses realizam saques. Eles não liberam todos os corpos, mas escondem os mais jovens e depois vendem a carne como vitela... O Dr. N. comprou um pedaço de carne ‘com osso’ e identificou o osso como humano .. Em Moscou, uma família inteira acabou padecendo de dores de estômago... ”.

Cartaz de propaganda do movimento branco representando soldados vermelhos chineses e letões

“Um ataque rápido de batedores de infantaria e do 1º Batalhão derrotou os chineses”, relembrou o oficial da Guarda Branca Anton Turkul. “Cerca de 300 foram capturados. Muitos traziam nos dedos alianças de casamento de ouro tiradas dos executados e cigarros e relógios nos bolsos, também roubadas dos executados. Os algozes asiáticos da Tcheka, com seu fedor de rato, seu cabelo preto como o feltro e rostos escuros achatados, enervaram os nossos soldados. Todos os 300 chineses foram fuzilados.”

Depois da guerra

Depois que a Guerra Civil chegou ao fim, os chineses continuaram servindo na polícia soviética, no Exército Vermelho e nos serviços de segurança. Eles lutavam contra bandidos e resguardavam as rotas ao longo das quais os alimentos eram entregues às províncias famintas durante a fome de 1921 e 1922, durante a qual até cinco milhões de pessoas morreram.

Centenas deles decidiram ficar na URSS para sempre. Casaram-se com russas e encontraram empregos na indústria e na agricultura. Cha Yan-chi, por exemplo, era formado em agronomia e ajudou a desenvolver o cultivo de arroz no Cáucaso. 

Mao Tsé-Tung em 1939

No entanto, a maioria dos que compunham o contingente chinês do Exército Vermelho acabou retornando para sua terra natal. Com vasta experiência em combate e treinamento especializado, eles voltaram para ajudar Mao Tsé-Tung a estabelecer o domínio comunista e logo se tornaram o núcleo do Partido Comunista Chinês.

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