Rússia e China estão rejeitando o dólar. Qual seu intuito?

Irina Baranova
Moscou acredita que contratos internacionais em moedas nacionais permitem reduzir a dependência da política do Estados Unidos. O processo de desdolarização já começou - e tem muitas facetas.

Durante os últimos cinco anos, a participação do dólar no comércio bilateral entre a Rússia e a China caiu de 90%, em 2015, para 46% no primeiro trimestre de 2020. A guinada é resultado do programa de desdolarização da economia russa, que se iniciou ainda em 2014, logo após a introdução de sanções financeiras contra a Rússia pelos Estados Unidos em resposta à adesão da Crimeia.

Uma das principais medidas restritivas foi a proibição do uso da moeda norte-americana em contratos internacionais por determinadas empresas russas. A moeda americana sempre foi o principal instrumento de pagamento no comércio mundial, e, na maioria dos casos, até os pagamentos em moedas nacionais são frequentemente convertidos à taxa do dólar. Assim, essa medida teria o potencial de bloquear todo o comércio internacional da Rússia.

Mas o comércio direto entre a Rússia e os Estados Unidos é insignificante. Moscou exporta a maior parte de suas mercadorias e matérias-primas para a União Europeia e para a China.

"A desdolarização da economia russa é um processo inevitável, levando em conta o volume relativamente baixo do comércio entre a Rússia e os EUA - em comparação com a Europa e a China -, assim como os riscos geopolíticos atuais", explica Aleksandr Abramov, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas da Academia Presidencial da Economia Nacional e Adminstração Pública da Rússia.

No entanto, devido à alta volatilidade da taxa de câmbio do rublo, a moeda russa é mais fraca que o euro ou o yuan, o que leva a uma baixa participação do rublo nos pagamentos internacionais. Por exemplo, há anos o rublo consta em menos de 7% dos contratos com China.

Assim, é quase impossível fechar os acordos internacionais de longo prazo em rublos.

Ceremônia televisionada entre o presidente russo Vladímir Putin e seu par chinês, Xi Jinping.

De acordo com as regras da Divisão Internacional do Trabalho, todos os cálculos devem ser vinculados de uma ou outra forma a um equivalente. Assim, todas as empresas internacionais que não querem realizar negócios em dólares preferem o equivalente em euros. A maior petrolífera estatal russa Rosneft, por exemplo, já está fechando todos os seus contratos em moeda europeia.

"A participação do dólar americano na estrutura das reservas dos bancos centrais do mundo é de mais de 60%. Assim, o dólar continua a ser a moeda dominante", afirma o chefe do departamento analítico da consultoria de investimentos Russ-Invest, Dmítri Bedenkov. Segundo ele, hoje, a Rússia continua a vender cerca de 60% dos seus produtos em dólares.

Trocas de rublo e yuan aumentaram.

Ao mesmo tempo, porém, o Banco Central da Rússia continua a reduzir a participação do dólar norte-americano nas reservas do país. Em abril de 2018, após a introdução de novas sanções anti-russas pelos EUA, o regulador russo iniciou a retirada acelerada de reservas dos títulos do governo dos Estados Unidos. Entre abril e maio, os órgãos financeiros conseguiram reduzir os investimentos russos de US$ 96,1 bilhões para US$14,9 bilhões.

Como proteger-se da alta volatilidade do rublo?

Em 2014, o Banco Central da Rússia decidiu adotar um regime de câmbio flutuante para a moeda nacional. A decisão levou a uma drástica desvalorização da moeda russa, mas permitiu que a moeda russa fosse livremente negociada, sem intervenção do regulador.

No entanto, segundo economistas russos, é possível limitar consideravelmente os riscos de desvalorização do rublo apenas realizando mudanças estruturais na economia russa e aumentando o comércio em rublos. Neste sentido, as relações comerciais com a China e com os países da União Econômica Eurasiática têm grandes perspectivas.

A participação dos contratos em rublos no comércio com a Índia aumentou de 35,8% para 77,8% em menos de um ano.

O governo russo insiste que os países do Brics podem reduzir sua dependência da política dos Estados Unidos aumentando o volume de contratos internacionais em moedas nacionais. Basta agora aguardar para ver o que acontece com os outros países do grupo.

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