Eram ateus os cosmonautas?

Cartaz "A estrada é mais larga sem Deus." 1975 / Pôster de Iúri Gagárin.

Cartaz "A estrada é mais larga sem Deus." 1975 / Pôster de Iúri Gagárin.

Vladímir Menchikov; Universal History Archive/Getty Images
A religião era um tabu na União Soviética, mas, mesmo assim, era difícil erradicá-la.

“Fui o espaço, mas não encontrei Deus.” Essa frase foi atribuída a Iúri Gagárin (1934-1968), o primeiro homem a ir ao espaço, depois que ele voltou de pioneira missão. A máquina de propaganda soviética usou a declaração para, mais uma vez, acertar os ponteiros em casa: a ciência é superior à religião e, portanto, a sociedade soviética secular está fadada ao sucesso na guerra ideológica.

Na realidade, porém, era muito mais difícil erradicar a fé até dos cosmonautas soviéticos.

“Eu o vi”

Depois que Gagárin voltou do espaço, ele compareceu a uma recepção no Kremlin. Reza a lenda que ali teria havido uma interação engraçada entre a recém-criada super estrela  Gagárin e o líder soviético Nikita Khruschóv.

Iúri Gagárin e Nikita Khruschóv no aeroporto de Vnúkovo durante recepção em Moscou após o voo pioneiro do primeiro, em 14 de abril de 1961.

Khruschóv teria perguntado a Gagárin se ele viu Deus no espaço. “Claro que eu o vi”, teria, então, respondido zombeteiramente o cosmonauta. A resposta de Khruschóv foi tão espirituosa quanto a de Gagárin: “Eu sabia! Mas não conte a mais ninguém!”

Iúri Gagárin.

Na realidade, existem relatos conflitantes sobre as ideias de Gagárin quanto à religião. Por um lado, uma autobiografia de Gagárin escrita por ghostwriters intitulada “Caminho para o espaço” mostrava um Gagárin contra crenças religiosas:

“O voo espacial tripulado foi um golpe esmagador para os clérigos. Nas torrentes de cartas que me dirigiram, tive o prazer de ler confissões em que os fieis, impressionados com as realizações da ciência, renunciaram a Deus, concordaram que Deus não existe e tudo relacionado ao nome dele é ficção e absurdo.”

Quando Gagárin visitou a capital Islândia, Reykjavik, em turnê internacional, um jornalista lhe perguntou se ele tinha rezado antes do histórico voo, e o cosmonauta respondeu energicamente: “Os comunistas nunca rezam a Deus”.

No entanto, algumas fontes afirmam que pioneiro do espaço era um religioso discreto, que não queria comprometer sua posição com as autoridades soviéticas dizendo o que realmente pensava.

Outros cosmonautas soviéticos, no entanto, eram bastante claros quanto a isso.

“Por que eu acredito?”

O cosmonauta soviético Gueórgui Grétchko (1931-2017) tornou-se um religioso fervoroso durante a Segunda Guerra Mundial. Ele tinha apenas dez anos quando a Alemanha nazista invadiu a União Soviética, mas as memórias dos horrores da guerra desencadearam nele uma profunda crença.

“Por que eu acredito? Porque durante a guerra, não foi sequer na frente de batalha, mas na retaguarda ou na ocupação, como aconteceu comigo, uma pessoa não espera por nada, senão Deus. E posso lhe dizer que quase todo mundo tinha fé religiosa naquela época. Porque as pessoas querem viver! E eu, ainda menino, acreditava. Acredito que nasci para ser cosmonauta. E quando, por ingenuidade, paixão ou estupidez, fiz algo para me afastar desse caminho, acho que meu anjo da guarda me castigou severamente. Ele me levou ao desespero. E então, da maneira mais incrível possível, ele colocou de volta no meu caminho”, disse, mais tarde Grétchko.

O cosmonauta soviético Gueórgui Grétchko a bordo do complexo espacial “Soiuz-26” – “Saliut-6”, 1978.

Durante os tempos soviéticos, a fé não era algo que o Estado aprovasse. Os cosmonautas eram pessoas que estavam na vanguarda da corrida tecnológica soviética contra o bloco ocidental e, portanto, simbolizavam o sistema soviético e, assim, passavam por uma seleção estrita. Na época, era impensável que uma pessoa de fé declarada pudesse ser considerada adequada para a nobre profissão de cosmonauta.

Cosmonautas posam no 700º aniversário de São Sérgio de Radonej. Para a ocasião, todos os ícones que estavam na ISS foram exibidos. Normalmente, os ícones da ISS são vistos com muito menos frequência.

Mas, uma vez que os sentimentos religiosos se provaram difíceis de erradicar, o governo às vezes fechava os olhos às crenças pessoais dos cosmonautas, se eles pudessem mantê-las para si.

Padre ortodoxo abençoa o foguete “Soiuz FG” no cosmódromo russo de Baikonur, no Cazaquistão.

Depois da queda da União Soviética, alguns oficiais ateus puderam “sair do armário”, sem temer a repercussão. Aleksêi Leonov (1934-2019), o primeiro homem a realizar uma caminhada no espaço e, portanto, um dos pioneiros do programa espacial soviético, certa vez expressou sua posição sobre a religião:

“É difícil em nossa profissão não ter fé. Um cosmonauta entrando em órbita tem que saber que tudo ficará bem. Hoje, é possível receber a bênção de um padre, visitar uma igreja, e muitos o fazem”, disse Leônov.

Padre ortodoxo abençoa membros de expedição à ISS (Estação Espacial Internacional): o astronauta norte-americano Kevin Ford (esq.), e dois cosmonautas russos Oleg Novitski (centro) e Evguêni Tarelkin (dir.).

Hoje, uma prática aceita entre os cosmonautas é levar ícones ao espaço ou benzer a nave espacial antes de um voo, atos que seriam um provocação inimaginável à ideologia soviética.

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