Que fim levaram os descendentes de Grigóri Raspútin?

Kira Lissítskaia (Photo: Bettmann, Heritage Images/Getty Images; Freepik)
Para alguns, ele era um charlatão, para outros, um “homem santo”, que previu a queda do Império Russo pouco antes da própria morte. Seus descendentes tiveram que viver na sombra do "monge tsarista" por muitos anos – e quase todos tiveram um duro destino.

Grigóri Raspútin foi próximo da família Românov e um homem da mais controversa reputação. Após seu assassinato, em 1916, sua imagem e papel na história da Rússia foram completamente demonizados. Em 1933, o nome Raspútin foi quase apagado do país, e quase todos os seus descendentes tiveram vidas duras e morreram cedo, exceto por um.

“Elementos do mal”

Raspútin (1869-1916).

Dos sete filhos de Grigóri Raspútin e Praskóvia, apenas três sobreviveram até a idade adulta: Matriôna, Varvára e Dmítri. Eles moraram com a mãe na aldeia Pokrovskoie, a 1.150 quilômetros de Moscou, até o ano de 1913. Quando a situação de Raspútin na corte real se tornou mais estável, ele decidiu se mudar para São Petersburgo permanentemente e levou as filhas, tentado torná-las senhoras respeitáveis e nutrir seu futuro. Depois de colocar Matriôna e Varvára em uma escola preparatória privada com os melhores professores, ele começou a apresentá-las pouco a pouco a seu novo círculo - a família real.

As crianças da família real pareciam feitas de porcelana em uma casa chique de bonecas, lembrou Matriôna mais tarde em suas memórias: “Os filhos do tsar queriam saber tudo sobre mim: em que ginásio estudava, quem arrumava meu cabelo e me vestia, se tinha algum brinquedo mecânico, se já tinha visto o iate deles, qual era o nome da nossa vaca em Pokrovskoie etc.”

Raspútin  com os três filhos.

As meninas fizeram amizade com as crianças da família Romanov rapidamente. Matriôna logo trocou seu nome, considerado algo popularesco, por Maria, que soava melhor naqueles tempo. No entanto, os sentimentos contrários a Raspútin começaram a crescer após a mudança da família para São Petersburgo, um ano depois. Eles atingiram seu auge após a morte de Grigóri, no palácio Iussupov. A família de Raspútin deixou a cidade, mas só Matriôna conseguiu deixar o país.

Raspútin com a mulher e a filha Matriôna.

Pouco antes, ela tinha se casado com Borís Solovióv, um oficial e seguidor leal de seu pai e da família real. Ela também adquiriu novos documentos de identificação e partiu para a Europa através de Vladivostok, já que não era possível seguir a Oeste devido à guerra. Os trens da Transsiberiana frequentemente ficavam presos por meses a fio. Por isso, o casal deixou Vladivostok em uma balsa que evacuava tchecoslovacos. Eles tiveram que passar por meio do Japão, Cingapura e Canal de Suez para chegar à Europa. A viagem durou dois anos, e no meio dela Maria deu à luz seu primogênito. A família se estabeleceu em Berlim antes de se mudar para Paris quatro anos depois. Essa fuga salvou a vida de Maria — diferentemente de seu irmão e de sua irmã.

A viúva de Raspútin no centro com os filhos.

Após o assassinato do pai, Varvára voltou para Pokrovskoie, para a casa do irmão. Em 1922, eles foram destituídos de todos seus direitos e acusados ​​de serem “elementos do mal”. Na década de 1930, Dmítri, a mãe e a família foram presos e enviados para trabalhar no Norte, onde morreram de disenteria. Já Varvára simplesmente desapareceu. Existe a hiótese de que ela morreu de tifo na década de 1920.

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Maria Rasputin.

A vida também não ia bem para a única filha sobrevivente de Raspútin em Paris. Borís Solovióv abriu um restaurante, mas o negócio não foi para frente, e a maioria dos clientes eram emigrantes russos pobres que só pediam fiado. Em 1924, Borís contraiu tuberculose e morreu logo depois. Nessa época, Maria já tinha dois filhos.

Na miséria, ela inicialmente trabalhou como governanta para famílias ricas, antes de aceitar um emprego como dançarina no Théâtre de l'Empire  — as aulas de balé que tomou ainda em São Petersburgo a ajudaram.

Maria Rasputin.

Sua vida logo mudaria: na década de 1930, ela foi notada pelo diretor do circo norte-americano "Barnun". Ela conseguiu um emprego com a condição de que atuasse em uma gaiola com um leão. “Nossa avó, é claro, concordou”, escreveu sua neta, Laurence. “Depois de fugir da Revolução, da Primeira Guerra Mundial e da Guerra Civil, uma gaiola com um leão não a assustava.”

Seu sobrenome teve um papel importante: o público estava interessado em ver “Maria Raspútina, a filha do monge louco, famoso por suas façanhas na Rússia” (como ela era anunciada nos cartazes), que, supostamente, podia domar animais selvagens apenas com seu “olhar herdado de Raspútin”. Maria fez turnê por quase toda a Europa e Estados Unidos com esse show.

Mas tudo acabou em Miami, onde ela foi atacada por um urso polar. Depois de passar por uma longa recuperação no hospital, ela encerrou a carreira como domadora de animais. Os jornalistas mais tarde aumentariam a história com todo o sensacionalismo possível, escrevendo que Grigóri Raspútin também tinha caído sobre uma pele de urso polar quando foi baleado em 1916.

Depois disso, Maria trabalhou como rebitadora em uma fábrica de construção naval americana. Após a Segunda Guerra, ela foi para fábricas de armas, onde trabalhou até a velhice. Ela recebeu a cidadania dos Estados Unidos em 1945 e morreu em 1977, com quase 80 anos. Os descendentes sobreviventes de Maria vivem no Ocidente e sua neta, Laurence Huot-Solovyeva, visita a Rússia frequentemente.

Assunto proibido

Laurence atualmente mora em uma mansão em Paris decorada com móveis que ela herdou. No quarto, fotos do bisavô enfeitam as paredes.

Por muito tempo, o nome Raspútin foi um assunto proibido na família. “Lembro-me de meu pai batendo com o punho na mesa para que o nome dele nunca fosse pronunciado em casa e que as raízes russas da família nunca fossem mencionadas”, contou ela ao jornal russo Kommersant. Essa proibição se devia à sombria reputação de Grigóri, que pode ter influenciado a vida da família em Paris. “Aqui, Raspútin é uma palavra que tem conotação negativa, pois é usada para caracterizar políticos com forte tendência a dar conselhos.”

Túmulo de Maria em Los Angeles, Califórnia.

“Só com a morte de meu pai, meu primo, sobrinho dele, disse: ‘Devemos recordar toda a nossa história, tudo o que sabemos sobre nosso bisavô’.”

Laurence contou essa história a seus amigos em seu aniversário de 60 anos: “Nossos convidados quase caíram da cadeira”, ri. Desde então, o assunto deixou de ser tabu.

“Se alguém pensa que tenho dons extraodinários, devo desapontá-lo”, diz Laurence. “Sou simplesmente uma mulher. Sozinha, trabalhei como secretária e criei meus filhos. Tenho três netos. Nos últimos anos, minha vida ganhou novo significado espiritual... Estou mais envolvida com a história da Rússia, a história do Cristianismo Ortodoxo, estudo minhas raízes e passo tempo com os russos.”

Laurence conversa com jornalistas, participa de conferências acadêmicas, mas ainda confessa que algumas pessoas a evitam. “Tenho amigos que dizem: ‘Sabe, Laurence, gosto de você, mas não posso apresentá-lo à minha família’. Simplesmente porque sou descendente de Raspútin.”

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