Os 23 piores erros de 'Os Últimos Czares', da Netflix

Adrian J. McDowall/Netflix, 2019
Todo mundo viu o mausoléu de Lênin em plena Praça Vermelha sob a legenda “ano de 1905” na abertura da série (enquanto Lênin passou desta para a melhor só em 1924)! Mas esta foi só a ponta do iceberg, segundo especialistas russos...

Os eventos descritos na série da Netflix “Os últimos czares”, a Revolução Russa e o subsequente assassinato da família imperial, foram, na realidade, tão complexos que simplesmente não podem ser transmitidos com os meios e o orçamento de que a série dispõe.

Por isto, não adianta nada tentar retratar aquela época compondo uma colcha de retalhos de imprecisões históricas. O principal problema é que a vida da família Românov na série parece a de uma família americana de classe média alta e a vida política do Império Russo parece um circo itinerante, com pessoas pulando, gritando e brigando por todo lado.

Todas as cerimônias e procedimentos reais do cotidiano dos tsares russos são abandonados por completo e as condições de vida mostradas são bastante modestas – quando, na realidade, Nikolai e a família viviam em completa luxúria.

Apesar do absurdo completo, tampamos os narizes e mergulhamos a fundo na série para trazer aqui uma lista dos erros mais grotescos!

1. A Tragédia de Khodínka e coroação não ocorreram no mesmo dia

A Tragédia de Khodínka é mostrada na série como se ocorresse no mesmo momento da coroação de Nikolai 2°. Mas a coroação dele ocorreu no dia 14 de maio e a tragédia, quatro dias depois, em 18 de maio.

2. Coroação reduzida

Cerimônias durante a coroação de Nikolai 2°.

A coroação mostrada na série é completamente fictícia. A coroação de Nikolai 2° e Aleksandra foi uma das mais luxuosas da história da Rússia. Ela não parecia nada com uma cerimônia comum em uma igreja russa na presença apenas dos membros mais próximos da família. Basta ler sobre a cerimônia e observar as fotos da coroação real.

Cerimônias durante a coroação de Nikolai 2°.

Outro erro crasso é o padre fazendo o sinal da cruz sobre a cabeça do monarca com a Coroa Imperial, algo absurdo: a Coroa Imperial não é um atributo religioso ou um ícone de benzer.

3. O ator que faz o grão-duque Serguêi Aleksándrovitch não parece nem de longe com o homem na vida real

Grão-duque Serguêi Aleksándrovitch, 1913.

Na série, o grão-duque Serguêi Aleksándrovitch é retratado como um conservador de baixa estatura, temperamento amargo e furioso. Segundo a série, ele teria sido assassinado porque era a personificação da autocracia. Na realidade, porém, o grão-duque era completamente diferente e provavelmente uma pessoa muito mais complexa.

Grão-duque Serguêi Aleksándrovitch (centro) com Nikolai 2° (à esq. do grão-duque).

Ele era absolutamente contrário às reformas democráticas, mas também tinha visual e comportamento diversos dos retratados. O grão-duque era mais alto que Nikolai, tinha traços delicados e era loiro. E realmente tinha um caráter amargo e cáustico. Muita gente não gostava dele.

Além disso, havia muitos rumores de que ele era homossexual. “Esse homem seco e desagradável carregava no rosto sinais nítidos do vício que o estava devorando, o vício que tornou insuportável a vida da sua mulher, Elizaveta Fiódorovna, e a levou a uma vida monástica”, escreveu então o político Víktor Obninski.

Os boatos sobre a homossexualidade de Serguêi Aleksándrovitch foram repetidos em diversos livros de memórias da época. Ele e a mulher não tiveram filhos.

Tio do tsar, o grão-duque foi uma das pessoas mais odiadas do país. Ele precisava de proteção o tempo todo. Na série, porém, ele é retratado em carruagens simples em cujas janelas os passantes batiam.

Na realidade, ninguém conseguiria se aproximar da carruagem dele a pé. Ele foi, sim, assassinado por Kaliáiev, que jogou uma bomba em seu veículo, mas isso foi feito às pressas, quando a carruagem desacelerou em um cruzamento.

Mais tarde, Serguêi Aleksándrovitch é visto saindo de casa com a mulher, como um homem simples. Um guarda apenas observa da varanda – algo muito improvável.

4. A coroação não foi o primeiro dia do reinado de Nikolai 2°

Ao contrário do que o pesquisador Orellana diz no episódio do dia da coroação, o dia da tragédia de Khodínka não foi o início do reinado de Nikolai. Ele foi começou sua atuação como tsar e imperador em 21 de outubro de 1894, imediatamente após a morte de seu pai. A coroação só aconteceu um ano e meio depois, em maio de 1896.

5. O casal real não estava sozinho em Saróv

Celebrações em Saróv, 1903.

Nikolai e Aleksandra aparecem na série viajando para Saróv para orar pela fertilidade da imperatriz. A viagem a Saróv foi cronometrada com a beatificação de São Serafim de Saróv, e Serafim era muito reverenciado entre os russos.

Veja as fotos da viagem. Sob nenhuma circunstância o casal poderia ficar sozinho, vestidos com roupas simples, só rezando - pelo menos 15 mil soldados de infantaria estavam protegendo o casal durante a visita. Assim, havia, literalmente, soldados por todo o lado!

Celebrações em Saróv, 1903.

Qualquer tipo de relação sexual, como as mostradas no filme, teria sido impossível durante a visita, assim como a possibilidade de o tsar e sua mulher usarem roupas tão simples.

6. O czar não fumava cigarros

Nikolai 2° fumando papierosi.

Nikolai 2° fumava muito papierosi, um tipo especial de cilindro de papelão com tabaco. Os cigarros que todo mundo fuma na série sequer existiam então.

7. Nikolai tem pendurada uma ordem que ainda não tinha recebido

Ao longo da série, Nikolai aparece usando uma ordem no peito. É a Ordem de São Jorge, de quarta classe. O problema é que Nikolai só recebeu essa ordem em 1915, e isto foi feito para elevar o espírito de batalha do exército. Na série, ele é visto desde o século 19 com a ordem.

8. O dever do tsar era com o país, não com a família

"Seu primeiro dever é para com sua família", diz, em certo ponto da série, Aleksandra a Nikolai. E isto está completamente errado! A essência da vocação do tsar, materializada na coroação, é seu "casamento" com o Estado.

O país e o povo tinham que ser a principal preocupação do tsar e da família. Se a família fosse o primeiro dever do tsar, ela poderia ter fugido para a Europa antes, o que não ocorreu porque era responsabilidade tsar ficar e também manter o ânimo da nação – o que não aconteceria se ele a deixasse.

9. A Duma não era um governo

Nikolai 2° inaugura a Duma de Estado, em 1906.

A professora doutora Philippa Hetherington chama a Duma de "governo eleito". Na realidade, a Duma era uma legislatura eleita.

10. Kaliáiev foi enforcado, e não executado a tiros

O assassino do grão-duque Serguêi Aleksandróvitch, Ivan Kaliáiev, foi morto por enforcamento, e não por um pelotão de fuzilamento.

11. A Batalha de Tsushima

Orellana diz que a batalha naval de Tsushima durou 40 minutos. Na verdade, ela levou dois dias. E a frota russa que lutando ali não era a do Báltico, mas a do Pacífico.

12. Não há provas de que Nikolai tenha financiado perseguições a judeus

Há muitos rumores de que a polícia secreta de Nikolai 2° teria financiado os chamados “pogroms” (violência e perseguição antissemita deliberada), porém, não há provas disto. Durante o reinado de Nikolai, os pogroms realmente se intensificaram e o exército e a polícia russos tinham muitas figuras antissemitas. Mas ainda é muito debatida a afirmação de que o governo russo estava relutante em deter os pogroms.

13. Ninguém podia gritar com o tsar, nem mesmo o primeiro-ministro

Piotr Stolípin (assim como outros personagens da série) são retratados gritando com o tsar. Isto era algo impossível de acontecer, pelo menos de acordo com as regras do sistema civil russo, até a abdicação do tsar.

14. Raspútin não tentou abusar da filha de Stolípin

Stolípin tinha tanta desconfiança de Raspútin que estabeleceu uma completa vigilância sobre o "monge". Mas nunca na história se mencionou contatos entre Raspútin e a filha de Stolípin.

15. A casa de Raspútin não tem nada a ver com a realidade

Rasputin's house in Pokrovskoye.

Imagine aquecer esta casa na Sibéria a 30 graus Celsius negativos! É só checar a casa verdadeira de Raspútin em Pokróvskoie, na região de Tiumên.

16. Grão-duque "Nikolacha" é algo absurdo

O professor doutor Orellana chama o grão-duque Nikolai Nikolaievitch, primo em segundo grau de Nikolai 2° e Comandante-em-Chefe do exércitos russo nos primeiros anos da 1° Guerra Mundial, de “Grão-Duque Nikolacha”. Isto é como chamar a rainha Elizabeth II de “Lizzy”. Apenas a família chamava o general de “Nikolacha”.

17. Aleksandra não governou o país

O poder imperial russo é mostrado na série como um trabalho de casa que a esposa pode assumir enquanto o marido está em viagem. “Concentre-se na guerra, cuidarei de tudo em casa", diz Aleksandra a Nikolai - como se a guerra fosse em outro país.

Depois disso, Aleksandra ocupa a mesa de trabalho de Nikolai e "começa a governar", algo totalmente despropositado. O Império tinha um governo, a Duma, o Senado em governo, um exército de oficiais e funcionários estatais que a imperatriz chegou a manipular um pouco por meio de uma vasta rede de assessores e servidores. Mas ela nunca controlou oficialmente o governo.

18. O imperador não podia ter um empregado africano

Quando a imperatriz Maria Fiódorovna chega a Moguilióv para encontrar o filho deposto, é um empregado africano quem abre a porta para ela. O imperador russo nunca teve empregados africanos em seus aposentos particulares.

19. A arma com que Raspútin é assassinado não existia

Webley .455

É engraçado como o conde Iussúpov usa uma arma moderna contra Raspútin. O monge provavelmente foi morto por um revólver Webley, calibre .455. Não era nada muito difícil de se conseguir para a filmagem.

20. Não existia uma “Guarda Marinha” na Rússia

Nikolai 2° usa uma certa “Guarda Marinha” para garantir a segurança de sua família. Mas não existia tal regimento ou força no exército russo. Durante a Revolução, os regimentos que guardavam a família Imperial em Tsárskoie Selô eram chamados de Comboio Próprio de Sua Majestade Imperial e Regimento Próprio de Sua Majestade Imperial. E, na verdade, eles não desertaram, mas sim protegeram a família real até sua prisão pelo governo provisório.

21. Ideias fora do lugar

No quinto episódio da série, os acontecimentos são todos misturados, até virarem mentira. Vários anos são condensados em uma narrativa sem continuidade. O professor Sean McMeekin, do Bard College, diz: “Em pouco tempo, vários soldados tinham tomado as ruas. Alguns deles começaram a levantar bandeiras vermelhas, comandar veículos e, à noite, ficou claro que o governo tinha perdido o controle da ordem pública em Petrogrado”. Não fica claro, porém, a que dia ele se refere.

Há um consenso entre os historiadores de que um tumulto geral durou dias a fio durante os distúrbios da Revolução. E é claro que devia haver bandeiras vermelhas! Milhares delas! Os soldados, por sua vez, obviamente dirigiam veículos – além de trens, navios etc.

Já quando o professor doutor Orellana diz que o exército começou a desertar em determinado momento, seria interessante também saber a que ele se refere, já que diferentes porções do exército e guarnições desertavam caoticamente, enquanto outras ainda permaneciam leais ao tsar.

22. A imperatriz não podia se ajoelhar na presença de guardas bolcheviques

Enquanto os guardas da casa de Ipátiev vasculham os pertences dos Românov, Aleksandra surge diante da câmera rezando ajoelhada, algo que ela nunca faria na presença de guardas soviéticos.

23. O tsar não era o "representante de Deus na Terra"

O professor doutor Hetherington se refere a Nikolai como o "representante de Deus na Terra". É uma visão distorcida do papel do imperador russo. Durante a cerimônia de coroação, os tsares russos eram ungidos pela segunda vez na vida para servir ao propósito de Deus de serem tsares, uma missão e vocação semelhante à do sacerdócio.

 

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