A longa história de Joe Biden com Moscou

Então primeiro-ministro russo Vladimir Putin (dir.), cumprimenta o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante reunião em Moscou em 10 de março de 2011

Então primeiro-ministro russo Vladimir Putin (dir.), cumprimenta o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante reunião em Moscou em 10 de março de 2011

Reuters
Sua primeira visita à Rússia, então parte da URSS, foi em 1973. E ele teria até oferecido um emprego improvável para Putin.

O novo presidente eleito dos EUA Joe Biden, de acordo com as projeções, tem uma longa história na política. E não faltam negociações com Moscou na lista de empreendimentos políticos. Curiosamente, Biden lidou não apenas com a Rússia moderna, mas também com o governo da antiga URSS. O Russia Beyondorganizou uma breve história das relações de Joseph Robinette Biden Jr. com o país que ele recentemente chamou de “a maior ameaça para os Estados Unidos” nos dias de hoje.

Desde 1973

Joe Biden se tornou senador dos EUA em 1972 e visitou a URSS um ano depois, em 1973. Seis anos mais tarde, em agosto de 1979, ele retornou em uma visita oficial. Seu destino na União Soviética foi Leningrado (atual São Petersburgo), com o objetivo de convencer outros senadores americanos a apoiar o acordo sobre a redução de armas estratégicas entre os EUA e a URSS.

Era uma época em que as duas superpotências estavam envolvidas em negociações complexas em meio à desconfiança generalizada ditado pela Guerra Fria.

Biden, no entanto, foi um defensor ferrenho das Conversações sobre Limites para Armas Estratégicas, que ficaram conhecidas como SALT-II.

Com o nível de desconfiança mútua entre os EUA e a URSS, convencer os falcões americanos da necessidade de apoiar a ideia de negociações com o inimigo ideológico foi uma tarefa difícil que o então jovem Joe Biden estava determinado a cumprir.

“Em 1979, o jovem Joe Biden era um defensor do controle de armas em geral e do SALT II em particular. O objetivo era, em grande medida, convencer os senadores indecisos a apoiarem o tratado, que havia sido assinado em junho, mas aguardava a ratificação do Senado”, explica o professor Peter Kuznick, especialista em história norte-americana do século 20.

“É interessante ver o papel desempenhado por um Joe Biden mais jovem e aparentemente mais progressista na época. Biden tinha uma forte crença em tratados internacionais. Ele queria ver cortes profundos nos arsenais nucleares e armas convencionais. Ele buscou neutralizar as tensões da Guerra Fria”, acrescenta Kuznick.

Durante a visita em agosto de 1979, Biden se encontrou com as principais figuras do establishment político soviético, incluindo o secretário-geral do Partido Leonid Brejnev, o premiê Aleksêi Kosiguin e o ministro das Negócios Estrangeiros soviético Andrei Gromiko, entre outros.

Anos depois, Biden relembrou esta visita em um discurso que fez a estudantes russos na Universidade Estatal de Moscou, durante nova passagem pela Rússia em 2011:

“Brejnev estava ‘mais doente do que pensávamos’ então. Ele se desculpou, saiu mais cedo da reunião e passou a palavra para Kosiguin, primeiro-ministro Kosiguin, que em sua declaração de abertura disse o seguinte – eu nunca vou esquecer –, ele disse: ‘Antes de começarmos nossa discussão, senador, vamos concordar que nós não confiamos em você e você não confia em nós. E nós dois temos um bom motivo’.”

A imprensa local publicou um pequeno relato sobre a viagem de Biden à União Soviética, intitulado ‘Introdução a Leningrado’. O artigo do jornal “Pravda” falava sobre a visita de Biden ao Cemitério Memorial de Piskariovskoie.

Artigo no jornal Pravda

“A humanidade é grata ao povo de Leningrado por sua grande façanha. A paz que eles conquistaram deve ser o objetivo de nossas vidas”, disse o senador Biden.

Biden visitou a URSS novamente em 1988 como membro do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos. Um dos poucos testemunhos restantes da visita de Biden na época são algumas fotos em preto e branco dele com o ministro dos Negócios Estrangeiros soviético Andrei Gromiko.

Senador norte-americano Joe Biden (segundo da esq.), com o membro do Comitê de Negócios Estrangeiros do Senado e presidente do Presidium do Soviete Supremo da URSS Andrei Gromiko (segundo da dir.), durante negociações no Kremlin

Nas fotos, Biden é visto sorrindo, enquanto Gromiko, conhecido por ser um homem reservado e negociador duro, parece bastante sombrio ao apertar a mão do senador:

Biden cumprimentando Gromiko

Emprego para Putin

Com o colapso da União Soviética, o fim da Guerra Fria e a escalada política de Biden, o norte-americano teve que lidar com a recém-independente Rússia na posição de vice-presidente durante o governo Obama.

Nos primeiros anos, o governo Obama propôs uma política de “reset” nas relações entre Moscou e Washington, com o objetivo de normalizar as relações EUA-Rússia após a Guerra Russo-Georgiana em agosto de 2008.

Com Biden como vice-presidente, os dois países assinaram o tratado START, regulando a redução de armas nucleares em 2010. Em 2011, ele visitou Moscou, como emissário de Obama, e se encontrou com o então presidente Dmítri Medvedev e Vladimir Putin, que na época estava no cargo de primeiro-ministro.

Então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden (à direita), e o presidente russo, Dmítri Medvedev, sorriem durante reunião na residência presidencial em Górki, nos arredores de Moscou, em 9 de março de 2011

Biden conduziu os preparativos necessários para a visita futura de Obama à Rússia, discutiu o futuro do “reset” nas relações EUA-Rússia e as perspectivas da adesão da Rússia à OMC, reuniu-se com empresários russos e norte-americanos e apresentou a palestra mencionada anteriormente aos alunos da Universidade Estatal de Moscou.

Havia também quem suspeitasse de outros objetivos não declarados na agenda oficial. O especialista em relações internacionais e editor-chefe da revista “Russia in Global Affairs”, Fiódor Lukianov, publicou um artigo (em russo), onde descrevia o plano de Biden de oferecer a Putin uma função improvável como secretário-geral da OTAN.

Segundo Lukianov, durante a visita de 2011 a Moscou, Biden deveria oferecer a Putin, então premiê da Rússia, a posição de prestígio na Aliança, em troca da intervenção militar da Rússia na Líbia. Por mais absurda que a teoria possa ter soado, o autor disse ter a confirmação de duas fontes independentes em Bruxelas.

Vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, de costas para a câmera, ouvindo o primeiro-ministro russo Vladimir Putin, em 10 de março de 2011

Como se sabe agora, a Rússia se opôs à intervenção militar na Líbia, que aconteceu logo depois da visita de Biden em 2011 e Vladimir Putin, que voltou à presidência em 2012, nunca mencionou que tal oferta tivesse sido feita.

Desde 2011, Biden demonstra suspeitas cada vez mais intensas sobre as intenções de Moscou e criticou a política externa de Vladimir Putin em diversas ocasiões, mais recentemente chamando a Rússia de “a maior ameaça para os Estados Unidos neste momento” durante os debates presidenciais de 2020 nos EUA.

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