Por que os bolcheviques jamais renomearam Moscou

Getty Images, Russia Beyond
Depois que Lênin morreu, São Petersburgo passou a se chamar Leningrado. Em pouco tempo, várias outras cidades também receberiam o nome de famosos líderes bolcheviques. Mas por que e como Moscou escapou desse destino?

Tudo começou com a realocação da capital. Após a Revolução de Outubro, antes de São Petersburgo se tornar Leningrado, a cidade perdeu sua função de capital.

Na época em que os bolcheviques tiveram sua segunda revolução, em 1917, São Petersburgo também foi brevemente chamada de Petrogrado. Mas, afinal, por que a então a cidade perdeu seu status para Moscou em 1918?

Capital em fuga

Houve vários motivos para a mudança. Em primeiro lugar, os ex-funcionários do governo tsarista boicotaram a liderança bolchevique. Nas instituições civis de Petrogrado – Banco do Estado, Ministério das Relações Exteriores, Telégrafo Central e outros –, os servidores não compareciam ao trabalho, destruíam documentos ou simplesmente se trancavam em seus escritórios. Com os funcionários administrativos impedindo que as instituições funcionassem adequadamente, os bolcheviques não tiveram escolha a não ser estabelecer novas repartições públicas em Moscou.

Barricada em frente à Catedral de Santo Isaac, na então Petrogrado, em 1917

Além disso, havia um grande número de cidadãos antibolcheviques e soldados do desmantelado Exército Imperial Russo em Petrogrado. Essas pessoas promoviam alvoroços, atacavam os bolcheviques e seus apoiadores, planejavam conspirações e organizavam ataques terroristas. Apenas o bloqueio da cidade e o corte de suprimentos alimentares é que poderiam fazer com que os partidários da monarquia se rendessem, e o governo não conseguia operar de forma eficaz nessas condições.

O terceiro –  e provavelmente mais importante – fator foi a Primeira Guerra Mundial, que ainda estava em curso em 1918. Depois que da declaração de independência da Finlândia, em 6 de dezembro de 1917, a fronteira do novo Estado ficava a apenas 35 quilômetros de Petrogrado. No final de fevereiro de 1918, o Exército alemão estava tão próximo da capital russa que, em 2 de março, começou a bombardeá-la com artilharia de longo alcance. Em 10 de março, um trem secreto com Vladímir Lênin e outros líderes bolcheviques de alto escalão partiu de Petrogrado rumo a Moscou. Dois dias depois,  foi concluído o processo de realocação da capital, e, no dia 16 de março, a mudança foi formalizada pelo 4º Congresso dos Sovietes.

Mas isso ainda não responde a pergunta: por que Moscou nunca foi renomeada?

O país de Stálin

Durante toda a vida, Lênin foi firmemente contra a renomeação de quaisquer cidades, vilas, ruas etc em sua homenagem. Após sua morte, a viúva Nadejda Krúpskaia repetiu em várias ocasiões que Lênin teria achado a ideia desagradável, mas sua voz não foi ouvida. Em 26 de janeiro de 1924, apenas cinco dias após a morte do líder revolucionário, o Segundo Congresso dos Sovietes trocou o nome de Petrogrado para Leningrado, alegando que “as atividades revolucionárias de Vladímir Lênin floresceram pela primeira vez em Petrogrado”.

Petrogrado na década de 1920

A “febre de renomear cidades” foi colocada em prática por Stálin, que reservou também para si algumas homenagens: a cidade de Donetsk, na atual disputada região ucraniana de Donetsk – anteriormente Iuzovka –, foi renomeada como Stalino em 1924. Um ano depois, em 1925, Tsaritsino (atual Volgogrado) passou a se chamar Stalingrado; enquanto Duchambé, capital da República do Tadjiquistão, se tornou Stalinabad em 1929, e Novokuznetsk, na Sibéria, virou Stalinsk em 1932.

Outras cidades maiores e mais importantes da Rússia também receberam nomes de proeminentes líderes bolcheviques. Em 1924, Iekaterinburgo recebeu o nome de Sverdlovsk, em homenagem a Iakov Sverdlov (1885-1919). Em 1931, a cidade de Tver foi renomeada como Kalinin, em referência a Mikhail Kalinin (1875-1946); e em 1932, Níjni Nôvgorod passou a se chamar Górki para reverenciar o escritor socialista-realista Maksim Górki (1868-1936), que nasceu na cidade – embora o próprio Górki tenha se oposto veementemente à decisão e até proibiu o novo nome da cidade de ser usado por sua família e amigos. E assim continuava a lista...

Ao implementar sua campanha, Stálin procurou eliminar a toponímia do Império Russo, substituindo-a por uma soviética. Essas renomeações foram feitas para parecer como se fosse a vontade do povo, e o governo era apenas gentilmente obrigado a renomear as cidades para homenagear líderes generosos e heroicos. No entanto, Stálin resistiu firme e repetidamente a qualquer tentativa de renomear Moscou.

Tentas frustradas

Na primeira vez em que a ideia foi lançada, em 1927, cerca de 200 funcionários públicos bolcheviques entraram com um pedido para mudar o nome de Moscou para Ilitch (o patronímico de Vladímir Lênin), alegando que “Lênin fundou a Rússia livre”. Stálin recusou a proposta sob a justificativa de que nomear duas grandes cidades em homenagem a Lênin seria demais (Petrogrado acabara de se tornar Leningrado).

Vista do Kremlin de Moscou, em 1937

A segunda tentativa, em 1938, foi apresentada por Nikolai Ejov (1895-1940), então comissário do Povo para Assuntos Internos – também capanga e carrasco implacável, que estava começando a perder poder e confiança aos olhos de Stálin. Em uma tentativa de reconquistar o favoritismo do líder, Ejov ordenou que os súditos criassem um projeto de renomear Moscou como Stalinodar (que pode ser traduzido como “presente de Stálin”). O projeto de Ejov citava até mesmo cartas e poemas de “simples moscovitas”. No entanto, Stálin odiava bajulação gratuita e rejeitou a sugestão como sendo “tola”. Ejov foi executado dois anos depois.

Há relatos de que Moscou foi submetida a outra campanha de renomeação após a Segunda Guerra Mundial – e mais uma vez recusada por Stálin. Depois da morte dele, houve uma nova tentativa – também rechaçada –, quando alguns ex-assessores e capangas tentaram renomear a capital russa como uma homenagem póstuma a Stálin.

Pode-se achar estranho que o líder totalitário, que teve inúmeras cidades e vilas renomeadas em sua homenagem e monumentos gigantescos a ele instalados em várias partes do país, não quisesse que a capital recebesse seu nome. No entanto, esta não foi a única vez que Stálin mostrou humildade: ele apagou sua imagem dos rascunhos da Ordem da Vitória e rejeitou a ideia de rebatizar a Universidade Estatal de Moscou.

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