4 motivos pelos quais Ivan era “Terrível”

Imagem (dir.) de Ivã, o Terrível, reconstruída a partir de seu crânio (esq.) no Instituto de Antropologia e Etnografia de Moscou.

Imagem (dir.) de Ivã, o Terrível, reconstruída a partir de seu crânio (esq.) no Instituto de Antropologia e Etnografia de Moscou.

Aleksandr Liskin/Sputnik, Russia Beyond
Na Rússia do século 16, “terrível” tinha outro significado em russo. E por que diabos o primeiro tsar russo carregou esse apelido pela vida?

“Terrível”, em português, nos dias de hoje, significa claramente uma pessoa assustadora e maldosa. Muito diferente do apelido Ivã 4°, o primeiro tsar russo. No século 16, a palavra "Grózni", com a qual ele foi apelidado, significava "O forte", "O ameaçador", "O impressionante".

  1. Ele era alto, atlético e muito forte
Ivã, O Terrível. Pintura de 1897 de Viktor Vasnetsov.

Um dos raros relatos da aparência física de Ivã foi registrado por Daniel Prinz von Buchau (1546-1608), um enviado do Sacro Império Romano ao Império de Moscou. “Ele é alto, robusto e cheio de energia. Seus olhos são grandes, observadores e inquietos. A barba dele é preto-avermelhada, longa e grossa”, escreveu Prinz sobre Ivã quando o tsar tinha 46 anos. Prinz também reparou no cajado pesado que o tsar carregava o tempo todo e sugeriu sutilmente que ele simbolizasse “a imponência da masculinidade”.

Os restos mortais de Ivã, o Terrível, em sua tumba. Fotografia de 1963.

Em 1963, o túmulo de Ivã foi aberto e seus restos mortais foram estudados por historiadores soviéticos. Temos uma imagem dos restos de Ivã que mostram que ele certamente eram um homem muito forte. A análise mostrou que Ivã tinha 1,78 cm de altura e pesava de 85 a 90 quilos. As proporções imponentes mesmo para um homem contemporâneo – o que dizer então de um homem do século 16? Assim, não é de admirar que ele fosse temido.

  1. Ele mergulhou fundo na ciência, o que impressionava seus contemporâneos

Quando jovem, Ivã não se dedicou muito aos estudos, preferia festas, muitas vezes até com skomorokhs - músicos pagãos - que geravam desaprovação do clero. Ivã se entregou a diferentes atividades obscenas, promiscuidade e consumo excessivo de bebidas, rejeitando todos os pedidos para que levasse uma vida digna de um governante cristão.

Maximus, o grego, em imagem do séculos 16 ou 17 de autor desconhecido.

Mas o jovem Ivã foi guiado por Maximus, o Grego (1475-1556), um dos principais intelectuais da época, convidado à Rússia e, mais tarde, de Silvestre (-1566), padre da Catedral da Anunciação, em Moscou, que convenceram Ivã a mudar seu modo de vida lascivo. Por volta do final da década de 1540, Ivã seguiu o conselho.

À medida que amadurecia, ele se tornou proficiente em línguas estrangeiras e em ciências diversas. Em sua corte, médicos, astrônomos e cientistas estrangeiros encontraram apoio e recebiam os devidos pagamentos. Ivã começou a colecionar livros e manuscritos raros que teriam formado sua suposta biblioteca perdida. Se ela existe ou não, ainda não se sabe, mas é certo que Ivã desenvolveu uma reputação de intelectual e até mesmo de mágico, o que incutia medo e respeito em seus aliados e inimigos. Ivã também escrevia poemas e compunha músicas.

  1. Ele tinha um temperamento feroz decorrente de sua infância
”Tsar Ivã e a babá” (1886).

Inúmeras fontes indicam que Ivã era excepcionalmente feroz. Aos 15 anos, ele ordenou que um de seus jovens amigos (príncipe Mikhail Trubetskoi) fosse executado como resultado de uma discussão insignificante. Ele também exigiu cortar a língua de outro de seus jovens amigos (Afanássi Buturlin) por xingar o tsar. Durante a vida, ele assassinou diversas pessoas (bobos da corte ou servos) durante explosões de raiva descontroladas.

Esse temperamento feroz tinha uma razão: na infância e juventude, ele viu membros de sua família assassinados por boiardos e moscovitas em rebelião e, devido às intrigas na corte, desenvolveu uma paranoia que tinha bases reais. Afinal, como o historiador russo contemporâneo Serguêi Chokarev provou efetivamente e, como confirma a análise dos restos mortais de Ivã, a causa da morte do tsar (assim como de seu filho Ivã) foi envenenamento por mercúrio.

  1. Ele conquistou o Canato de Cazã, o mais poderoso que restava da Horda Dourada
A fortaleza de Cazã na primeira metade do século 16.

A primeira metade do século 16 foi o auge do Império Otomano, governado por Suleiman, o Magnífico (1494-1566). A influência dos otomanos se estendeu até aos canatos da Crimeia, Astracã e Cazã. Havia um perigo iminente de as terras russas serem subjugadas e conquistadas pelos Cãs muçulmanos. Os Cãs de Cazã e Astracã ameaçaram e saquearam as terras russas, chegando muito perto de Moscou: alcançaram Níjni Nôvgorod e Vladímir.

Pouco depois de se tornar o primeiro tsar russo, em 1547, Ivã, o Terrível, liderou a campanha militar contra o Canato de Cazã, o mais poderoso que restava da Horda de Ouro. Os padres russos, chefiados por Macarius de Moscou (1535-1556), declararam que todos os guerreiros russos que participaram da campanha estavam lutando pela causa cristã e ganhariam a felicidade eterna se morressem nessas batalhas.

Xilogravura da Catedral de São Basílio, em Moscou. 1634.

Para admiração de todo o povo russo, o próprio tsar encabeçou todas as campanhas contra Cazã a partir de 1547. Os contemporâneos louvavam Ivã, que arriscou sua própria vida, indo de Moscou a Cazã, ao invés de ficar sentado no palácio enquanto seus homens arriscavam a vida em batalha.

Em 1552, como resultado de mais uma campanha, Ivã dominou Cazã e entrou na cidade. O povo russo se alegrou com essa vitória, e o prestígio e a coragem de Ivã cresceram imensamente. Essa foi realmente uma vitória merecida e importante, marcada pela construção da Catedral de São Basílio em Moscou – que é até hoje um dos principais marcos da capital da Rússia.

Depois que o Canato de Cazã foi subjugado, o apelido "Grózni" ("Terrível") passou a ser associado a Ivã. Os historiadores não são unânimes sobre quando e onde exatamente ele surgiu, mas há relatos de que o apelido começou a ser associado a Ivã nas canções folclóricas da segunda metade do século 16. Antes de Ivã, o apelido pertenceu a seu avô, o Grão-Príncipe Ivã 3° de Moscou (1440-1505), criador do Estado de Moscou.

 

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