Por que os monarcas russos são tsares, e não czares?

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Em artigo opinativo para o Guardian, a jornalista britânica Vivian Groskop teceu crítica enfurecida à série da Netflix “The Last Czars”. Um dos motivos era o próprio título da série, que usa a palavra “czar”, a transliteração norte-americana, no lugar de “tsar”, a empregada no Reino Unido e mais próxima do russo. E mal sabe ela das pronúncias risíveis que a dublagem brasileira fez com os nomes dos russos, apesar de o original em inglês ser bem mais fiel ao russo...

Qual é a origem da palavra “tsar”? O que a ideia de “tsarismo” significou para o povo russo e como os monarcas russos eram coroados?

A palavra tsar é derivada do título latino para imperadores romanos, César. Ela surge no Antigo Oriente Eslavo no século 11. Os russos chamavam o imperador bizantino de “tsar”. A palavra também era usada para se referir a reis bíblicos e reis antigos.

Mas os russos não chamavam monarcas estrangeiros de “tsares”, nem por ironia. Estes eram chamados de reis, rainhas, imperadores, xeques, marajás e assim por diante. Os governantes russos também adotaram o título de "imperador", em 1721 (o primeiro “imperador” foi Pedro, o Grande), mas eles também eram chamados de “tsares”.

O Grande Príncipe de Toda a Rus, Ivan, o Grande (1440-1505), nomeou-se "tsar", "imperator" e "keyser" em correspondência diplomática. O filho de Ivan, Vassíli 3°, que, em 1514, foi oficialmente reconhecido como imperador pelo Sagrado Imperador Romano Maximiliano I, continuou a usar os títulos de seu pai. No entanto, o primeiro tsar a ser formalmente coroado foi Ivan 4°, o Terrível (1530-1584).

Simbolismo

Coroação de Nikolai 2° e Aleksandra Fiódorovna, em 1896, em pintura de Laurits Tuxen.

Apesar de "tsar" ser derivado de "César", o título de tsar carrega um simbolismo diferente: ele é ortodoxo. Durante a cerimônia de coroação, estes imperadores eram ungidos para o tsarismo - o padre crismava o monarca, fazendo o sinal da cruz na testa dele, em seus olhos, narinas, boca, orelhas, peito e em ambos os lados de cada mão com o crisma (também chamado de mirra).

A partir daí, o tsar era uma pessoa única: parte leigo, parte sacerdote. Ele era o único leigo que poderia passar pelas Portas Reais na igreja e estar presente no altar com os sacerdotes, o que só acontecia durante sua unção.

Isto mostra que ser tsar é um grande empenho e missão, equiparável ao sacerdócio. Os ortodoxos russos acreditavam que o sagrado e o secular, a Igreja e o Estado estão unidos em uma única pessoa, o tsar, que é chamado por Deus para "casar" com seu tsarismo e seu povo.

Coroação do tsar

Interior da Catedral da Dormição, em Moscou.

Na Rússia, o novo governante assumia todos os privilégios e responsabilidades de tsar imediatamente após sua ascensão ao trono. A coroação, que precisava ser bem preparada e era caríssima, ocorria mais tarde - muitas vezes, até um ano após a ascensão ao trono.

Procissão de coroação em 1896.

As coroações russas ocorriam em Moscou. A cerimônia era enorme, longa, exuberante e ocorria na presença do crème de la crème da nobreza russa. O tsar (e sua consorte, a tsaritsa, se houvesse) saía do Pórtico Vermelho (em russo, “Krásnoe kriltsô”), no Kremlin de Moscou, e ia até a Catedral da Dormição.

Ali, o tsar era ungido pelo Patriarca Russo, mas só colocava a coroa sobre a cabeça ele mesmo -porque o pré-requisito do ritual era que o tsar não se curvasse diante de ninguém, nem mesmo o principal sacerdote da Igreja Ortodoxa, o Patriarca.

Após sua coroação, o tsar, como governante do Império, sentava-se no trono e coroava a esposa com sua própria coroa, e depois colocava a coroa da consorte sobre a cabeça dela. Enquanto isso, a esposa se ajoelhava na almofada ao lado do trono dele.

Coroa Imperial Russa.

O tsar e a tsaritsa eram, então, ungidos e recebiam a Sagrada Comunhão. O tsar compartilhava o pão e o vinho separadamente, de maneira clerical. Esta era a única vez em que o tsar, ou qualquer leigo ortodoxo, tinha permissão para receber a comunhão dessa maneira.

Então, o tsar dizia o juramento da coroação, em que prometia preservar a autocracia intacta e governar seu reino com justiça.

Nikolai e Aleksandra.

Durante todos os procedimentos, rezavam-se orações e realizavam-se cerimônias simbólicas, entre elas, a entrega das insígnias imperiais: a Coroa Imperial, o cetro e o  orbe, além da bandeira do Estado.

Após a coroação, grandes celebrações se seguiam. Multas e impostos eram temporariamente reduzidos, os prisioneiros eram perdoados e um feriado nacional de três dias era proclamado.

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