As fascinantes (e chatérrimas) vidas das tsarinas

Терем царевен Mikhail Klodt

Mikhail Klodt/Perm State Arts Gallery
O que a mulher do tsar não podia fazer? Parece que bastantes coisas... Andar pelos campos ou colher flores, ir para o interior, visitar os parentes... Tudo isso era proibido para as tsarinas. A Rússia Imperial tinha verdadeiro pavor de magia negra, por isso as tsarinas passavam a maior parte de suas vidas em seus aposentos.

Desde os tempos de Ivan, o Terrível, as noivas de tsares eram escolhidas em shows de noivas, tradição levada à Rússia a partir de Bizâncio. As filhas mais belas de famílias nobres eram levadas a Moscou saídas de todo o país, e os casamenteiros do tsar escolhiam várias candidatas.

Nobreza ou riqueza não importavam, apenas a beleza e a saúde da noiva. Entre seis e sete mulheres eram, finalmente, convidadas para os aposentos do tsar para o jovem noivo optar por si só. Depois de escolhida pelo tsar, a moça tornava-se tsarina.

Viver e morrer como tsarina

Acreditava-se que Anastassía (1530-1560), primeira mulher de Ivan, o Terrível (1530-1584), tinha sido vítima de magia negra encomendada pelos boiardos (membros da aristocracia russa entre os século 10 e 17). Ivan torturou e executou diversos deles.

O tsar ficou devastado após a morte da mulher - mas a segunda e terceira também morreram cedo, a última, Marfa Sobakina, apenas duas semanas após o casamento, em 1571 (o que também resultou na execução de muita gente, inclusive parentes de Marfa).

A causa real dessas mortes, porém, provavelmente tenha sido envenenamento, já que os russos usavam com frequência diversos elixires e preparados como medicamentos.

“Exposição de noivas do tsar Aleksêi Mikháilovitch (Aleixo da Rússia)”, 1886, Konstantin Makovski.

Maria Khlopova, morta em 1633, foi a primeira noiva de Mikhaíl Fiódorovich, o primeiro tsar russo da Dinastia Românov (1596-1645). Ela ficou doente pouco depois de se envolver com o tsar, vomitando por vários dias.

Isto foi o suficiente para que os boiardos a declarassem imprópria para o casamento e a enviassem para o exílio. Depois, a segunda noiva de Mikhaíl, Maria Dolgorúkaia (1608–1625), morreu apenas cinco meses depois de declarada tsarina.

Quando, finalmente, Mikhaíl escolheu a terceira noiva, Evdókia Strechneva (1608-1645), ele a levou ao palácio apenas três dias antes do casamento arranjado, temendo que esta também fosse envenenada.

Como uma novela de TV, muitas pessoas desejavam a morte das jovens tsarinas: em primeiro lugar, as famílias das moças que não foram escolhidos como noivas. Assim, no século 17, foram tomadas medidas rigorosas no palácio para proteger as mulheres da família do tsar.

Cinzas nas pegadas

Carruagem e séquito de inverno da tsarina, em gravura do século 17.

Quando uma moça nobre tornava-se uma tsarina, ela não podia mais visitar seus parentes na casa deles. Tecnicamente, era proibido que ela visse pessoas comuns. Assim, seus pais e outros parentes próximos se mudavam para o palácio, onde recebiam altos cargos na corte.

O palácio de madeira do tsar no Kremlin era enorme, com centenas de quartos – pelo menos metade deles, ocupados pelas mulheres.

A tsarina e suas filhas não participavam das cerimônias oficiais em que os homens estivessem presentes. Mas elas tinham seu próprio salão cerimonial, a câmara dourada da tsarina. Ali, em seu trono, a tsarina recebia visitas durante festas ortodoxas importantes e no dia do nome de seu santo padroeiro.

Esses eram os únicos dias em que elas podiam ver pessoas que não conhecia – principalmente do clero, entre nobres boiardos e suas mulheres.

Quando a tsarina e suas filhas viajavam para mosteiros nos arredores de Moscou, elas iam em carruagens fechadas. Quando elas caminhavam das carruagens para as igrejas, os criados seguravam cortinas de veludo ao redor delas para protegê-las de uma exposição indesejada.

“Tsarina visitando convento feminino”, pintura de 1912, de Vassíli Surikov.

Nos aposentos das mulheres, todas as empregadas eram do sexo feminino. As mais altas funcionárias mulheres eram chamadas de “boiarinias” (as mulheres dos boiardos). Elas supervisionavam o tesouro da tsarina, sua roupa e sua comida.

Uma mulher de boiardo também servia como juíza para todos os conflitos e crimes dentro das câmaras das mulheres.

Mas, se houvesse suspeita de crimes graves, como feitiço ou magia negra, o caso era transferido para o horrível “Privi Prikaz”, instituição para investigações políticas que o tsar supervisionava pessoalmente.

Tsarina e seu séquito durante cerimônia em gravura do século 17.

Em 1638, as mulheres que trabalhavam na lavanderia da tsarina relataram que uma delas, Daria Lamanova, tinha roubado tecido da roupa íntima da tsarina.

Uma investigação revelou que Daria estava se encontrando com uma feiticeira chamada Anastassía e tinha jogado cinzas sobre as pegadas da tsarina Evdokiya na sujeira do pátio com cinzas - uma suposta tentativa de amaldiçoar a tsarina, portanto.

Todas as mulheres envolvidas no caso foram interrogadas no “Privi Prikaz” e  foram torturadas até a morte.

Um reinado mais justo

Vestes de tsarinas russas.

Além de boiarinias, a tsarina tinha cerca de 50 servas que formavam seu séquito no dia a dia, mas não moravam dentro do palácio, além de membras mais jovens da nobreza criadas com as filhas do tsar como amigas e ajudantes.

Além disso, havia um verdadeiro exército de servas. Elas faziam a cama da tsarina, sentavam-se nos quartos para realizar tarefas pequenas, como consertar e lavar roupas.

Havia mulheres especiais, que liam em voz alta para a tsarina e suas filhas, cantavam hinos religiosos e, para um entretenimento mais leve, a tsarina também frequentemente mantinha mulheres anãs e “bobas da corte”.

Havia servos homens também. Primeiramente, padres rezavam as missas dentro dos aposentos da tsarina (assim como o tsar, ela tinha uma capela e uma sala separada para orar próximo a seu quarto).

A Câmara Dourada da Tsarina no Kremlin de Moscou.

Dezenas de meninos entre 10 e 15 anos de idade ajudavam a tsarina e suas filhas à mesa. Assim que atingiam a maturidade, eles foram mandados embora dos aposentos das mulheres.

Cerca de 100 homens adultos vigiavam as câmaras dia e noite, mas nunca podiam ver as mulheres, assim como os forneiros, que faziam a manutenção do aquecimento das câmaras das mulheres apenas quando elas estavam ausentes.

Além de visitar igrejas e mosteiros, as tsarinas faziam caridade e algum outro trabalho oficial. Era comum os nobres e mulheres enviarem suas queixas à tsarina, e não ao tsar – a tsarina tinha menos deveres estatais e podia atender a alguns casos dirigindo-se diretamente ao tsar.

Quarto no Palácio Terem, no Kremlin de Moscou.

A tsarina também passava muito tempo fazendo roupas de alta qualidade, muitas vezes bordando ela mesma. Um manto feito por uma tsarina era um dos presentes mais imponentes que um embaixador ou governante estrangeiro podia receber da família real russa.

As noites da tsarina eram passadas com o tsar e a família. Eles podiam jogar xadrez, ler a Bíblia ou livros ortodoxos, ouvir histórias contadas por viajantes ou peregrinos, que eram frequentemente convidados a entreter o tsar e sua família.

O tsar podia passar a noite nos aposentos da tsarina, mas isso não acontecia todos os dias, e exigia medidas de segurança especiais.

Os aposentos femininos chegaram ao fim com o governo de Pedro, o Grande (1672–1725). Sua mãe, Natália Naríchkina (1651-1694), foi a primeira tsarina russa a ir a uma apresentação de teatro.

Ela adorava dançar e assistir a recepções diplomáticas. Ela derrubou os velhos hábitos e regras dos aposentos femininos e, finalmente, a divisão do palácio em duas metades foi proibida por seu filho. No século 18, a corte real russa passou a se assemelhar muito com as europeias.

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