Mavródi, o russo que planejou a maior fraude da história da Rússia moderna

Os "bilhetes" de Mavródi não valiam nada, exceto sua palavra (ou seja, nada mesmo!).

Os "bilhetes" de Mavródi não valiam nada, exceto sua palavra (ou seja, nada mesmo!).

Iúri Abrámotchkin/Sputnik
Este homem criou o maior esquema de pirâmide financeira da Rússia e conseguiu ser eleito ao parlamento quando já estava atrás das grades, declarou guerra aos oligarcas e queria unir forças com Julian Assange.

"Era impossível contar o dinheiro, a gente media a olho, por salas cheias", lembrou, em 1994, Serguêi Mavródi, ao falar de sua empresa “MMM”. O esquema de pirâmide dele funcionou por apenas alguns anos. Mas, nesse período, conseguiu 15 milhões de investidores em todo o país.

As ações e cupons da “MMM” circulavam como uma moeda paralela ao rublo e ao dólar, e eram trocados por comida e vestimentas. Mas, mesmo depois que os tribunais declararam que o esquema era uma fraude, seus muitos pequenos investidores o elegeram como deputado no parlamento quando Mavródi já estava atrás das grades.

Um homem de óculos e calças de moletom

O fundador do esquema de pirâmide

Nos tempos soviéticos, Mavródi era um "azarão". Pouca gente sabia quem ele era e de onde vinha. Antes de montar seu esquema de pirâmide, Mavródi, formado em engenharia de software, vendia fitas cassetes piratas, equipamento de escritório importados (ele importou os primeiros computadores da URSS), colecionava borboletas e criava um aquário de peixes.

"Ele era um homenzinho soviético da camada social mais baixa com seus trabalhos temporários esquisitos, mas que tinha sonhos ousados ​​e ocupações ilegais alternativas que lhe permitiam viver melhor que a maioria de seus concidadãos", lê-se sobre Mavródi na revista Forbes.

Mavródi mais parecia um professor de educação física, de moletom e óculos como sempre se vestia, do que um figurão financeiro. Por outro lado, esse pode ter sido seu modo de levar as pessoas comuns a abrir as carteiras para a sua empresa.

A “Cooperativa MMM”, que depois se tornou um esquema de pirâmide gigante, foi criada em Moscou, em 1989. Inicialmente, ela nada tinha a ver com finanças, mas ganhou popularidade rápido: os equipamentos de tecnologia importados vendiam como banana na época.

O negócio ia tão bem que, em 1991, como parte de uma campanha de marketing, Mavródi ofereceu aos moscovitas viagens gratuitas de metro por um dia e, dois anos depois, fez um discurso de Ano Novo na TV para o povo da Rússia – o discurso de Ano Novo à meia-noite é feito no país sempre pelo presidente e é tradicionalíssimo ali.

Assim, quando Mavródi lançou ações da “MMM” para venda pela primeira vez, em 1º de fevereiro de 1994, os russos já o conheciam bem (pelo menos, eles achavam que conheciam). Uma ação custava 1.000 rublos (cerca de 65 centavos de dólar, de acordo com a taxa de câmbio da época). Mas os preços de compra e venda de ações aumentavam o tempo todo. Mavródi definia pessoalmente os preços cotados – que, na verdade, eram números arbitrários.

Por um período muito curto, isso funcionou. "Na MMM não tem problema": esse era seu slogan publicitário. A empresa prometia aos acionistas que compraria de volta suas ações imediatamente, mediante solicitação. Os pagamentos aos participantes do esquema de pirâmide eram feitos com o dinheiro de novos investidores.

Em julho de 1994, o preço das ações havia atingido os 125.000 rublos. “Mavródi deu esperança às pessoas, era como um raio de luz. Nós vivemos todo esse tempo na pobreza e ali surgia uma chance", explica o ator Liônia Golubkov, que era o rosto da campanha de publicidade da “MMM”.

‘Ativista’ contra a escravidão

Ele também logo entrou em atrito com as autoridades. Mavródi afirmava que sua empresa representava quase um terço do orçamento nacional. Ele afirmava que suas ações não tinham objetivo de enriquecer a si mesmo, mas de "intervir no saque do país".

Ele dizia querer aplicar o dinheiro arrecadado na população para resgatar as propriedades estatais privatizadas, para que elas não caíssem nas mãos de oligarcas e ficassem com o povo. Ele dizia que as pessoas se tornavam escravas econômicas dos oligarcas e depois eram "jogadas no lixo com uma pensão de US$ 100".

Ações da

Quando as ações da “MMM” se esgotaram, a empresa solicitou uma emissão adicional, mas o Ministério das Finanças recusou. Assim, Mavródi emitiu "cupons MMM" que se pareciam com notas russas de 10 rublos, mas, em vez do retrato de Lênin, tinham o de Mavródi.

O cupom da “MMM”, porém, não era um papel com valor: era só um pedaço de papel cujo valor estava em nada mais que a promessa de Mavródi. Ou seja, uma grande ilusão.

Deputado em fuga

As primeiras acusações foram feitas em agosto de 1994, mas Mavródi não foi julgado imediatamente. E ele era acusado de evasão fiscal, e não de fraude. "Que impostos? Se as autoridades alegam que é um esquema de pirâmide, significa que eu não lhes dei a parte deles? Eles estão loucos?", zombava o fundador da “MMM” mais tarde.

O anúncio da pena de Mavródi ocorreu em Moscou.

Ele foi preso mas, enquanto estava sob custódia e sendo investigado, Mavródi conseguiu se registrar como candidato a deputado da câmara baixa do parlamento russo e ser eleito: os investidores do seu esquema de pirâmide queriam recuperar o dinheiro aplicado e votavam nele.

Assim, ele conseguiu imunidade parlamentar e entrou no parlamento vindo diretamente da cela de uma prisão. Mas Mavródi não compareceu às sessões parlamentares e, um ano mais tarde, foi destituído do mandato. E desapareceu. A investigação sobre a “MMM” foi retomada e Mavródi foi colocado na lista internacional de procurados pela justiça.

Protestos contra o relançamento da companhia

Ele foi detido em janeiro de 2003, em um apartamento alugado em Moscou, onde estava escondido. Durante todo esse tempo, seus seguranças lhe levavam comida e roupas enquanto ele próprio, usando um nome falso, registrava a bolsa virtual “Stock Generation” em um país do Caribe.

Mavródi foi condenado a quatro anos e seis meses de prisão, mas foi libertado quase imediatamente porque já havia cumprido esse período enquanto estava sob custódia antes do julgamento (dois anos depois, Bernie Madoff era condenado a 150 anos de prisão por criar um esquema de pirâmide semelhante nos Estados Unidos).

Exportação dos esquemas de pirâmide

O dinheiro dos investidores nunca foi encontrado. Mavródi provavelmente retirou-o do país por meio de suas subsidiárias no exterior. Após o julgamento, ele continuou envolvido em esquemas de pirâmides, concentrando-se em exportá-los: ele abriu esquemas semelhantes na África do Sul e na América Latina.

No início de 2017, o site do esquema “MMM” da Nigéria se tornou mais popular que o Facebook ali. Em 2011, ele escreveu para Julian Assange com uma proposta de unir forças "na luta contra a hipócrita facção financeira global".

Mas os resultados das ações da “MMM” foram além da destruição econômica dos russos: mais de 50 pessoas se suicidaram quando perceberam ter investido tudo o que tinham e que não receberiam nada de volta. Mavródi era, porém, imperturbável. "Disseram-me: 'Eles foram enganados e não sabiam o que estavam fazendo'. Mas eles eram adultos e capazes", respondeu Mavródi.

Mavródi morreu em março de 2018, após sofrer um ataque cardíaco, aos 62 anos de idade. "Você sabia que ninguém [dos parentes] queria acompanhar o caixão?", disse um dos ex-funcionários de Mavródi.

O próprio irmão se recusou a enterrar Mavródi ao lado dos pais. No final, foram os ex-investidores da MMM que pagaram pelo funeral.

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