Quais doenças acometeram tsares, tsarinas e grão-duques russos?

Monarcas adoeciam pelas mesmíssimas razões que seus súditos: uma enorme sujeira e falta de educação.

Febre tifoide

É de cair o queixo, mas a febre tifoide atingia a todos na Rússia tsarista – desde os camponeses pobres aos imperadores. A infecção intestinal causada por uma bactéria do gênero Salmonella era frequente nas residências imperiais devido à falta de saneamento. Mas só em 1868 parou-se de coletar água diretamente do Nievá para a cozinha do palácio (o rio é o principal de São Petersburgo, que foi capital da Rússia de 1712 a 1918). Já os filtros minerais e caldeiras para ferver água só foram instalados no Palácio de Inverno (a residência dos imperadores russos) na década de 1910!

Vale a pena recordar que o assunto aqui é apenas a água usada pela família imperial, e no Palácio de Inverno viviam e corriam de um lado para o outro muitos servos, criados, ornalheiros etc. Nos quartinhos deles apareciam visitantes que, além do mais, não tinham lá muito cuidado com a higiene, por isso o palácio estava repleto de piolhos, percevejos, baratas e, é claro, ratos, que acordavam os próprios imperadores com seus sons.

Nikolai 2°.

É claro que, em tais condições, o tifo, por exemplo, acometesse a realeza: Maria Aleksándrovna, mulher de Aleksandr 2°; seu filho Aleksandr 3° (na juventude); sua filha Ksênia Aleksándrovna. Nikolai 2° teve um tifo muito complicado no outono do ano de 1900 - em dado momento o tsar ficou tão mal que a herança do trono começou a ser discutida.

O tsar começou a ter uma perturbação digestiva em 22 de outubro de 1900 e sua temperatura quase imediatamente subiu para 39 ou 40 graus Celsius. A febre alta e a forte dor de cabeça duraram até 12 de novembro.

O imperador sequer chegou a ser tratado. No início, temia-se diagnosticar a doença e, depois de um longo tempo, é que se começou a discutir sobre os medicamentos. Após 13 de novembro, a temperatura começou a cair e, em 30 de novembro, Nikolai passou sua primeira meia hora na varanda depois da doença.

“O tempo estava ensolarado, quente e calmo... Graças a Deus eu superei bem a febre tifoide e não sofri nada o tempo todo. Tinha forte apetite e agora meu peso está aumentando notavelmente dia após dia..." Nikolai se recuperou, mas apenas meio ano depois quem pegou a doença foi a pequena Olga, entre maio e junho de 1901.

Tuberculose

Escarradeira.

A escarradeira, um acessório com o qual nos deparamos com frequência na literatura clássica russa, estava, no início do século 19, em todas as salas de qualquer palácio. Ela se destinava não apenas a receber cuspes do tabaco mascado, tão popular na época. Na sala de visitas da imperatriz Maria Aleksándrovna, havia quatro escarradeiras: ela não apenas teve febre tifoide, mas também uma tosse crônica provocada pela tuberculose.

Catarina 1°.

A tísica nas residências imperiais foi terrível porque as pessoas dos séculos 18 e 19 não entendiam a natureza bacteriana da doença e, como resultado, não sabiam como se proteger dela. A fonte da infecção podia ser tanto as escarradeiras instaladas em todos os cantos, como as pessoas que visitaram o palácio com a tuberculose latente, que era uma das doenças infecciosas mais comuns na época.

Catarina 1° (1684-1727) morreu de tuberculose aos 43 anos, assim como membros da família real – como a irmã do imperador Pedro 2°, Natália (1714-1728) – e figuras importantes do Império, como, Aleksandr Menchikov (1673-1729). A tosse crônica torturou a imperatriz Isabel Aleksêievna (1779-1826), mulher de Aleksandr 1° (1777-1825).

Na corte de Nikolai 1°, a partir da década de 1830, passou-se a manter burros de ordenha cujo leite era usado como medicamento antituberculose. Mas meios reais de combater a tuberculose seseriam descobertos apenas na virada do século 19 para o 20. Em 1844, a filha do imperador, Aleksandra Nikoláievna (1825-1844), morreu de tuberculose e, em 1899, foi a vez do irmão de Nikolai 2°, Gueórgui Aleksándrovitch (1871-1899).

Doenças na bexiga e nos rins

Pedro 1°.

A urolitíase levou à morte de Pedro, o Grande (1672-1725), que adorava comer e ingerir muita bebida alcóolica. O rei teve seus primeiros problemas urinários em 1721, e em 1724 já havia desenvolvido uma inflamação que levou a sua morte em janeiro de 1725. Poucos dias antes de sua morte, na tentativa de aliviar o sofrimento do imperador, foi realizada uma autópsia de sua bexiga.

Anna Ioannovna (1693-1740) não levava um estilo de vida muito louco e não bebia. Mas, em 1740, ela se queixou de fortes dores nas costas e começou a tossir sangue. Em 5 de outubro, ela perdeu a consciência durante um jantar no palácio e morreu apenas três semanas depois. Uma autópsia mostrou que a causa da morte foram cálculos renais e um bloqueio na bexiga.

Aleksandr 2°.

Aleksandr 3°, que morreu em 1896, aos 49 anos de idade, sofria de nefrite (inflamação nos rins). Em julho de 1894, o oficial Vassíli Krivenko descreveu o tsar em um jantar de gala: "eu e os outros presentes ficamos impressionados com sua aparência doentia, o rosto amarelado e os olhos cansados".

"Ele tinha dificuldade em movimentar as pernas, os olhos estavam anuviados e as pálpebras, caídas... Os rins do imperador não funcionam bem e os médicos acreditam que isso se deve, em grande parte, a uma vida sedentária", escreveu o general Nikolai Epantchin em agosto de 1894.

Os médicos verificaram a presença de proteína na urina do tsar, um sinal de nefrite, e informaram que a doença era praticamente incurável.

A misteriosa doença dos primeiros Românov

Aleksêi Mikháilovitch.

Quatro dos reis da dinastia Românov que governaram no século 17 sofriam de uma doença com sintomas semelhantes: por alguma razão, era-lhes difícil e doloroso andar.

Mikhaíl Fiódorovitch (1596-1645) mostrou sinais dessa doença logo depois de completar 30 anos. No verão de 1627, ele reclamou com o pai: "A doença ficou cada vez mais pesada para as minhas pernas devido às viagens e sou transportado de charrete em charrete".

Enterro de Fiódor Aleksêievitch.

A saúde do tsar foi tratada pelos médicos alemães Wendelinus Sibilist e Johann Bülow, que receberam enormes quantias de dinheiro. Em 1643, o tsar foi acometido pela erisipela, uma infecção de pele causada por uma bactéria e, depois, por uma angina. Mas o diagnósticos dos médicos era que: "o estômago, o fígado e o baço estão  impotentes por causa de tanto se sentar, ingerir bebidas geladas e melancolia".

Em 1645, o tsar, a caminho da missa matinal, começou a reclamar que as "entranhas estavam atormentadas" e morreu naquela mesma noite.

A barriga d’água ou ascite é um acúmulo de líquido na cavidade abdominal, que muitas vezes resulta de cirrose hepática e é uma doença longa e complicada. Um sintoma básico é o inchaço das pernas. Além disso, a ascite pode gerar outras complicações, como a peritonite (inflamação do peritônio), que resulta na dor abdominal. O aumento da cavidade abdominal provoca pressão alta e a inflamação, febre alta.

Mikhail Fiódorovitch reclamava desses sintomas. Mas seus médicos receitaram vinho do Reno com ervas "para remover o muco" – e é difícil encontrar algo pior para essa doença do que a ingestão de álcool.

O filho do primeiro Românov, Aleksêi Mikháilovitch, sofria de pressão alta e obesidade a vida toda. O tsar adorava fazer sangrias, que melhoravam a doença. Ele também sofria de inchaço e se queixava de problemas estomacais. Ele morreu em 1676, rapidamente, com uma enorme febre.

Na missa, o pai do próximo imperador, Fiódor Aleksêievitch (1661-1682), foi "carregado em cadeiras" - ele também tinha problemas com os movimentos das pernas desde a infância e mal conseguia andar aos 14 anos de idade, com as pernas muito inchadas.

Muitos historiadores dizem que a causa desse inchaço era o escorbuto, devido à falta de vitamina C. Mas os imperadores ingeriam pratos variados, frutas e legumes, inclusive repolho, que contém uma enorme quantidade de vitamina C.

O cardápio do tsar Fiódor para o jejum da Assunção, por exemplo, era: “Repolho cru e cozido, cogumelos salgados e açafrão, crus e cozidos, bagas, groselha etc.”. Limões e laranjas também estavam presentes na mesa real. Mas Fiódor Aleksêievitch morreu aos 21 anos de idade “de escorbuto”, e seu irmão mais novo, Ivan Aleksêievitch (1666-1696), co-governante de Pedro, também sofria com o inchaço das pernas e morreu aos 29 anos.

Pesquisadores sugerem que os primeiros membros da família Romãnov tinham problemas de metabolismo. Talvez eles tivessem sido envenenados? É improvável, dada sua grande atenção à nutrição e as mudanças frequentes de médicos, que frequentemente experimentavam os alimentos e as bebidas antes deles.

Uma das hipóteses é a de que o chumbo seria a causa disso, pois ele ficava depositado no interior dos canos de madeira de água do palácio (não havia cano de água em Preobrajenski). Talvez os produtos da decomposição do chumbo, que entravam nos organismos dos tsares junto com a água potável, tenham levado a essas consequências. Ou, talvez, a causa possa ter sido uma doença renal hereditária. A causa exata, no entanto, nunca foi checada, e para tanto seria necessário realizar uma autópsia dos restos mortais dos primeiros membros da família Românov, principalmente Fiódor e Ivan Aleksêievitch.

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