Por que o rei da Grã-Bretanha George 5° traiu o último tsar da Rússia?

Primos, George V e Nikolai 2° eram extremamente parecidos. Foto tirada em Berlim, em 1913.

Primos, George V e Nikolai 2° eram extremamente parecidos. Foto tirada em Berlim, em 1913.

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Rei George 5° ofereceu refúgio a Nikolai 2°, mas depois retirou a oferta inesperadamente e, mais tarde, tentou encobrir o fato.

O último tsar da Rússia, Nikolai 2°, poderia ter escapado do sombrio destino de morrer a tiros junto com a família, executada pelos bolcheviques, se tivesse sido deixado a Rússia após a abdicação, em março de 1917. Seu primo, o rei George 5°, ofereceu refúgio a Nikolai 2°, mas depois retirou a oferta inesperadamente e, mais tarde, tentou encobrir o fato.

"O assassinato [da família real russa] abalou a confiança de meu pai na decência inata da humanidade... Meu pai planejou pessoalmente resgatar Nikolai 2° com um cruzador britânico, mas, de por algum motivo o plano foi cancelado", escreveu o duque de Windsor sobre seu pai, George 5°, no livro “A King's Story” (em português, “Uma história de rei”). No entanto, há motivos para acreditar que foi o próprio George 5° quem cancelou o plano.

‘A Inglaterra não estende sua hospitalidade’

O destino do tsar destronado e de sua família foi um assunto peculiar após a Revolução de Fevereiro de 1917. Os políticos socialistas que chegaram ao poder temiam que uma contrarrevolução pudesse ser fomentada em torno do tsar, enquanto os liberais não queriam dar um impulso à causa radical ao permitir represálias contra Nikolai 2°.

O imperador Nikolai 2° da Rússia (esq.) segura uma pá sob prisão domiciliar em Tsárskoie Selô.

O ex-tsar estava bem ciente do perigo que a radicalização do sentimento público podia significar para sua família. Por isso, ele pediu ao Governo Provisório que lhe permitisse ficar em sua residência perto de Petrogrado (Tsárskoe Selô) até que seus filhos se recuperassem do sarampo e, depois, partissem para a cidade de Românov-no-Murman (hoje, Múrmansk) para irem à Inglaterra por mar".

O governo colocou o casal real em prisão domiciliar em Tsárskoie Selô e, como afirmou o então ministro das Relações Exteriores da Rússia, Pável Miliukov, apoiou a ideia de enviar o tsar para o Reino Unido.

Miliukov dirigiu-se ao embaixador britânico na Rússia, George Buchanan, que mais tarde relatou que Londres estava pronta para aceitar a família Românov e para esse fim, enviaria um cruzador. Mais tarde, quando não houve cruzador, nem partida para Londres, Miliukov perguntou ao embaixador sobre as razões do atraso, e a resposta foi um subterfúgio: “O governo não insiste mais na vinda da família do tsar para a Inglaterra”.

A história foi confirmada pelo ministro da Justiça do Governo Provisório e seu futuro líder, Aleksandr Kerênski. Os ingleses disseram a Kerênski: "O governo da Inglaterra não considera possível estender sua hospitalidade ao antigo tsar enquanto a guerra continua".

Os russos acusados

A versão da história do embaixador foi publicada em 1923em suas memórias, intituladas “Minha missão na Rússia”, e diferia muito da anterior. "Nossa oferta permaneceu aberta e nunca foi retirada", escreveu Buchanan.

O diplomata culpou os russos, argumentando que o Governo Provisório, tendo encontrado oposição de políticos socialistas, "não se arriscou a assumir a responsabilidade pela partida do imperador e recuou de sua posição original".

Em 1927, quando Kerênski em suas memórias afirmou o contrário, o Ministério das Relações Exteriores repetiu o relato de Buchanan e acusou o ex-premiê russo de mentir.

George William Buchanan, 1915.

No entanto, cinco anos mais tarde, a verdade foi relatada pela filha de Buchanan, Meriel, quando ela publicou seu próprio livro, intitulado “A dissolução de um império”. Meriel escreveu que seu pai queria incluir em suas memórias o fato de que a oferta de asilo foi retirada, mas foi forçado a não fazê-lo.

“Ele foi informado no Ministério das Relações Exteriores, onde foi examinar alguns dos documentos, que, se o fizesse, não apenas seria acusado de violar a Lei dos Segredos Oficiais, mas também teria sua pensão cortada. Portanto, o relato que ele fez da promessa do governo britânico de receber o imperador na Inglaterra é uma tentativa deliberada de suprimir a verdade”, escreveu Meriel.

Lorde Stamfordham, secretário particular de George 5° escreveu ao secretário de Relações Exteriores britânico no início de abril de 1917: “Ele [George 5°] deve implorar que você repasse ao premiê que, de tudo o que ele ouve e lê na imprensa, a residência do ex-imperador [russo] e da ex-imperatriz neste país geraria forte ressentimento do público e, sem dúvida, comprometeria a posição do rei e da rainha [ingleses], de quem todos suporiam que o convite ocorreu...”.

‘A culpa deve ser compartilhada’

“A crescente agitação trabalhista e a ascensão do socialismo na Grã-Bretanha estavam causando sérias preocupações a George 5°. O rei temia que a presença de ‘Nikolai Sangrento’ em solo britânico comprometesse sua posição e, posteriormente, derrubasse a monarquia", afirma o historiador britânico Paul Gilbert, referindo-se ao apelido que Nikolai 2° recebeu após ordenar o disparo contra manifestantes pacíficos em São Petersburgo em 1905, no episódio popularmente conhecido como “Domingo Sangrento”.

Rei George 5° da Grã-Bretanha (1865-1936).

O pesquisador argumenta que, embora “o rei George 5° fosse um covarde moralmente, por perder a coragem e se preocupar com as consequências políticas da concessão de asilo ao ex-tsar e sua família o fracasso se deveu a seus parentes na realeza, a outros governos e aos monarquistas russos. Portanto, todas as famílias reais da Europa e os aliados da Rússia na Primeira Guerra Mundial devem compartilhar a culpa”.

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