Por que as crianças dormiam no frio congelante nos jardins de infância soviéticos?

Sergey Solovyov/Sputnik
Não, essas fotos não foram encenadas – as crianças soviéticas realmente dormiam ao ar livre, inclusive no inverno.

Só de olhar para esta foto, já dá vontade de tremer. Mas, por incrível que pareça, essa era uma prática comum nos jardins de infância soviéticos. É possível encontrar diversas fotos de crianças do lado de fora – fosse no verão, ou no inverno mesmo. 

Hora de soneca nos anos 1950

Mas essa prática não era perigosa para a saúde das crianças? Fomos atrás de um documento chamado “Regras e regulamentos sanitários para jardins de infância”, de 1985, aprovado pelas mais altas autoridades médicas da URSS.

Na época, as instituições infantis entendiam claramente que as crianças deveriam ter acesso regular ao ar fresco. Os regulamentos exigiam que as salas dos jardins de infância tivessem ar circulando não menos que duas vezes por dia, e que as crianças andassem e brincassem regularmente do lado de fora. A equipe do jardim de infância checava se as crianças estavam bem agasalhadas, mas sem excessos: os casacos de inverno eram obrigatórios apenas se a temperatura caísse abaixo de -4ºC. No entanto, nessas “Regras e regulamentos sanitários”, não há informações sobre dormir ao relento.

Campo de trabalho ou hábito saudável? 

Crianças em sacos de dormir

Fotos como essas existem aos montes. Visitamos fóruns on-line e encontramos comentários interessantes sobre o assunto, de pessoas que têm idade suficiente para se lembrar da juventude na União Soviética.

Uma das principais tarefas do primeiro governo soviético era brecar as epidemias em massa, incluindo a tuberculose. No início dos anos 1930, mais de 25 mil médicos trabalhavam em clínicas de tuberculose; em 1957, mais de 130 milhões de cidadãos soviéticos foram vacinados contra a doença. Mas a principal luta contra as epidemias era a higiene do cotidiano, propagada em jardins de infância por toda a URSS.

Crianças na Crimeia, em 1971

Ar fresco é essencial para a saúde. A saúde dos primeiros Romanov – os tsares – era ruim, porque passavam a maior parte de suas vidas dentro de seus quartos, raramente respirando ar fresco, especialmente quando eram crianças.

Por outro lado, as crianças soviéticas passavam muito tempo fora. Em um fórum, @matros_kruzhkin, que passou um ano no sanatório infantil antituberculose, de 1959 a 1960, escreve: “Lembro muito bem desses cochilos em varandas abertas, mesmo no inverno. Apenas o nariz ficava para fora para respirar. No verão, as crianças dormiam em varandas e terraços. No inverno, aqueles que não conseguiam andar eram levados para fora e aconchegados em cobertores. Os quartos eram aquecidos com fogões de lenha”.

Crianças de jardim da infância na Crimea, em 1939

Nas décadas de 1970 e 1980, a prática de terapia com ar e água persistia, e não somente em instituições e sanatórios antituberculose. @DuraLena lembra que, nos anos 1980, “toda a nossa classe de jardim de infância andava do lado de fora apenas de calcinha, e brincávamos com água de uma mangueira”.

Algumas crianças, porém, não curtiam tanto esses momentos, como mostram outras recordações publicadas: “Nunca esquecerei isso, era como um campo de trabalho forçado”, escreve @barbosiara. “Nesses sacos de dormir, não dava para se mexer nem um centímetro, e eu não aguentava de tão apertado – costumava fazer birra de cara, e a maldita professora de jardim de infância só me entuchava ainda mais.”

Para professores de jardim de infância, levar as crianças para fora no inverno não era moleza. @eliabe_l, nascida em Moscou na década de 1950, lembra: “Quanto trabalho foi para as babás! As crianças tinham que ser colocadas em sacos de dormir e depois levadas para o terraço, onde as janelas estavam abertas. Depois da hora da soneca, todos tinham que ser carregados de volta para dentro. E era um jardim de infância comum, não uma instituição de elite. Todas as manhãs, todas as crianças eram examinadas por um médico e, se alguém estava resfriado, eram mandado para casa”. As normas sanitárias prescreviam dormir fora, desde que a temperatura estivesse acima de -10 graus Celsius.

Experiência romântica

Crianças em sanatório no Istmo da Carélia, em 1959

No fim das contas, muitos soviéticos na terceira idade lembram dessa experiência com nostalgia. Alguns preservaram o hábito de dormir fora ou com as janelas abertas, mesmo nos períodos mais frios do ano.

“Lembro que, na creche – ainda antes do jardim de infância –, todos nós éramos colocados em ‘envelopes’ acolchoados depois do almoço e levados para fora para dormir”, lembra @Olk. “Dormíamos em mesas bem grandes. Eu gostava de deitar lá e assistir as folhas caírem no inverno, ou passarinhos pulando nos galhos secos no inverno. Sempre perto de nós havia babá sentada, vestida com sobretudo e apertando seus dedos congelados. Eu então fechava meus olhos rapidamente e fingia estar dormindo.”

Garotinha em saco de dormir em Tcherepovets, em 1973

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