McDonald’s comunista? Saiba como a bandeira soviética foi parar no logo da marca americana

Getty Images; AFP
Empresa norte-americana queria tanto conquistar o coração dos cidadãos soviéticos que até colocou a bandeira do país em seu logo e distribuiu crachás com o martelo e a foice como lembrancinha.

Pouco tempo atrás, um usuário de um fórum on-line russo publicou uma foto de um crachá do McDonald’s com a bandeira soviética. “Meu pai trabalhou no primeiro McDonald’s na URSS e recebeu esse crachá”, escreveu.

Acontece que, no primeiro ano após o lançamento do McDonald’s na União Soviética, a foice e o martelo podiam ser vistos não apenas nos crachás de seus funcionários, mas também nas lembrancinhas e até no logotipo do restaurante. No entanto, como isso só durou cerca de um ano, há muito poucas recordações do período mais soviético na história da famosa cadeia de fast food dos EUA.

McDonald’s, seu comunista!

A construção do restaurante McDonald’s na praça Pushkinskaya começou em 1988 e, em 31 de janeiro de 1990, recebeu seus primeiros clientes.

Os primeiros visitantes foram recebidos do lado de fora pelo enorme logotipo da empresa trazendo a bandeira soviética, com direito a foice e martelo.

A inauguração do primeiro restaurante McDonald’s na URSS foi um evento extraordinário, embora os preços não fossem exatamente acessíveis para um cidadão soviético comum. Um Big Mac, por exemplo, custava 3,75 rublos; o Mc Fish, em torno de 3,25 rublos; e um hambúrguer simples, 1,6 rublos.

Para se ter ideia de quanto isso valia na época, cabe lembrar que o bilhete mensal de ônibus em Moscou custava 3 rublos, e um almoço em uma cantina saía por somente 1 rublo. E, mesmo assim, os russos passavam horas na fila, apenas para ter um gostinho dos hambúrgueres e da Coca-Cola ‘capitalistas’. Os primeiros clientes também receberam crachás e bandeiras, novamente com a bandeira soviética.

De tempos em tempos, aparecem anúncios on-line com a venda desses crachás. Alguns ainda guardam os conjuntos exclusivos com quatro crachás em uma caixa de madeira. Segundo o proprietário de um desses conjuntos, eles foram presentados sobretudo a visitantes estrangeiros nos primeiros dias após a abertura do primeiro McDonald’s em Moscou e, portanto, são bastante raros.

A URSS se tornou o 52º país onde o McDonald’s se fazia presente. Na época, a unidade na praça Pushkinskaya era uma dos maiores da rede: era capaz de acomodar até 700 clientes, além de outros 200 no terraço.

Em seu primeiro dia, recebeu mais de 30.000 clientes, superando o recorde anterior do McDonald’s estabelecido em Budapeste (mais de 9.000 clientes).

Recrutamento pesado

Ainda em 1988, foi assinado um acordo para estabelecer a empresa Moscow-McDonald’s, depois do qual o jornal “Moskovsky Komsomolets” publicou as vagas de emprego na empresa. Os candidatos foram solicitados a enviar pelo correio um questionário preenchido e anexar foto – e aguardar. No final, havia cerca de 25.000 candidatos para pouco mais de 600 vagas. Uma das primeiras funcionárias, Elena Vassílieva, lembra como foi a entrevista de emprego: “Por exemplo, eles me perguntaram o que eu faria se um cliente sentado à minha mesa estivesse de mau humor? Respondi que tentaria distraí-lo, animá-lo. Eles me perguntaram sobre meus hobbies, sobre os livros que li. Eles me observaram caminhar, sorrir. Deve ter tido peso o fato de eu falar inglês e ter diploma universitário. Onde me formei? No Departamento de Mecânica e Matemática da Universidade Estatal de Moscou, onde sou estudante de pós-graduação agora.”

Ela admite não ter se arrependido de escolher o McDonald’s em vez de seguir carreira na ciência. “Recebi um bom dinheiro, e o horário de trabalho era conveniente.”

A empresa pagava 2 rublos por hora, o que significava que, incluindo bônus, os funcionários podiam receber cerca de 300 rublos por mês – o salário médio profissional na época. Além disso, os primeiros funcionários treinaram no Canadá.

Pera lá, mas por que Canadá?

Embora a McDonald's seja uma empresa americana, na imprensa soviética, foi apresentada como uma canadense. Ironicamente, o fato é que o primeiro restaurante, de fato, era um empreendimento conjunto soviético-canadense.

Vladímir Malichkov (à esq.), diretor do soviético-canadense McDonald’s e presidente do Conselho, e George A. Cohon, vice-diretor

Embora o McDonald’s seja uma empresa americana, na imprensa soviética, foi apresentada como se fosse canadense. Por ironia do destino, o primeiro restaurante era, de fato, um empreendimento conjunto soviético-canadense.

A capa da edição de maio de 1990 da revista “Young Technician” diz que é um restaurante canadense, mas, ao mesmo tempo, fica claro que seu logotipo é marcado com a bandeira soviética. Foi justamente porque se tratava de uma empresa canadense que o McDonald’s de Moscou inseriu a bandeira soviética em seu logotipo. 

Como assim? Naquela época, o logo do McDonald’s canadense também tinha a bandeira do Canadá e o mesmo estilo de marketing foi mantido para a URSS.

Em Moscou, a bandeira soviética foi removida menos de um ano após a abertura do primeiro restaurante – e por razões óbvias.

O segundo restaurante do McDonald’s na cidade, na Gazetny Pereulok, construído em 1993, já trazia o logotipo internacional habitual, isto é, sem bandeiras.

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