O que poderia ser mais americano que Bon Jovi? E o que é mais britânico que Ozzy Osbourne? O “príncipe das Ttrevas”, perdido nas ruas da capital russa ficou chocado com os soviéticos esperando, em longas filas, para comprar repolho. Ele foi a Moscou "para se desintoxicar" do álcool e entrou em tal estado de embriaguez que tentou até mesmo matar a mulher.
Quando tudo isto aconteceu, a URSS ainda não tinha seu famigerado primeiro McDonald's ainda e os jeans ainda eram considerados "contrabando".
O ano era 1989. A Perestroika andava a pleno vapor. O sistema comunista estava minado por reformas cada vez mais incisivas, e logo entraria em colapso. Juntamente com o Bon Jovi e Ozzy Osbourne, o Scorpions, o Mötley Crüe, o Cinderella e o Skid Row chegavam a Moscou.
Nos dias 12 e 13 de agosto daquele ano, no estádio Lujnikí (que ainda se chamava então "Lênin"), as bandas fizeram o primeiro festival internacional de rock da história da URSS.
O "Moscow Music Peace Festival", como foi oficialmente chamado, foi quase imediatamente rebatizado de "Woodstock russo". Um ano antes, um evento do tipo seria completamente inimaginável.
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A preparação do evento começou depois que Mikhaíl Gorbatchov, que chegou ao poder em 1985, declarou, da tribuna de uma reunião do Partido Comunista: "É permitido tudo o que não é proibido por lei".
O organizador do festival, Stas Namin, decidiu colocar as palavras do líder à prova.
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"Do ponto de vista legal, era uma confusão... Ninguém era preciso fazer para obter as permissões. A cada passo, eu repetia descaradamente a frase do Gorbatchov", contou Namin.
Na verdade, antes do início do festival, ninguém acreditava que ele aconteceria realmente. “Estávamos esperando a qualquer momento que a ‘gente séria’ da KGB nos dissesse: ‘Ok, agora basta!’”.
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Esses grupos de rock chegaram à União Soviética mais ou menos como se devessem fazer um show na Lua. Três semanas antes do evento, 64 vans entraram no país com o equipamento técnico e tudo de que se poderia precisar. “Levamos cubos de gelo da Suécia! Tinha comida para o período inteiro, colheres, garfos, copos... Pensamos que não conseguiríamos encontrar nada na Rússia”, contou o manager e produtor Doc McGhee em um documentário de Iúri Dud.
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Na verdade, ninguém sabia o que esperar naquela época. Jon Bon Jovi, por exemplo, acreditava ter visto "bandidos" vendendo esteróides em todos os cruzamentos da Rússia. As autoridades soviéticas, por sua vez, não sabiam o que esperar dos fãs de rock e de Ozzy Osbourne. Mais de 150 mil pessoas se reuniram no estádio para os dois dias de shows.
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Resumindo, além dos seguranças, foram enviados ao Estádio Lênin também militares e policiais para manter a ordem. "Tinha tantas pessoas de uniforme que parecia um desfile do exército", lembrou o vocalista do Mötley Crüe.
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Oficialmente, o festival foi realizado sob um slogan completamente novo para a União Soviética: "Contra o alcoolismo e o vício em drogas". Ele se tratava realmente de um evento de caridade para ajudar os viciados em drogas. O produtor Doc McGhee fez todos os esforços para que os músicos não ingerissem álcool e drogas até o final da viagem à URSS.
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Mas a ideia, claro, não era viável e estava fadada ao fracasso. Sebastian Bach, o vocalista do Skid Row, disse: “A gente não podia acreditar como a vodca era barata! Custava só alguns dólares por garrafa. Por isso, a gente nem comia, só bebia”.
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Até mesmo a segurança não sabia como se comportar, e um grande número de pessoas conseguiu se infiltrar nos bastidores e comer o suprimento de alimentos dos grupos. Naquela época, a ideia de fugir da URSS ainda era popular, e o músico da banda russa Naiv quase voou para os Estados Unidos em uma caixa de equipamentos por sugestão de um engenheiro do Mötley Crüe.
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Este primeiro festival internacional de rock em um país comunista foi assistido por quase um bilhão de pessoas em 59 países. Ele foi o primeiro evento da MTV transmitido ao vivo via satélite.
“Mas as pessoas realmente nos chocaram. Elas estavam prontas para as mudanças”, contou Doc McGhee.
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Ninguém foi preso, para a surpresa geral. Depois da visita à União Soviética, os Scorpions gravaram sua famosa música “Wind of Change”.
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