Afinal de contas, Nikolai 2° era mesmo o ingênuo que alguns dizem?

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Nikolai 2°, o último tsar russo, era um homem peculiar e estranho que tinha um grande lado sombrio.
  1. Estudante passivo com um programa educacional brilhante
Nikolai 2° vestindo uniforme do exército russo, aos 13 anos de idade. Fotografia tirada por volta do ano de 1890.

Quando criança, o Grão-Duque Nikolai da Rússia teve a vantagem de obter 13 anos de educação. Os primeiros oito anos tinham foco em humanidades e línguas, os cinco que se seguiram, em educação militar, jurídica e política. Nikolai sabia francês, alemão e inglês (que falava tão bem quanto sua língua materna, o russo).

Mas a educação de Nikolai era algo fora do comum, já que ele tinha conferências, mas nunca passava por exames, uma vez que, de acordo com os costumes da corte russa, ninguém podia questionar o grão-duque ou repreendê-lo se ele estivesse errado. Assim, debate-se até hoje o quanto ele sabia das coisas.

2. Teve uma criação rígida

O tsar Aleksandr 3° (dir.) com a tsarina Maria Fiôdorovna. Nikolai está à esq.

Aleksandr 3° educou seus filhos, entre eles, Nikolai, em condições relativamente rígidas para evitar que fossem mimados, mas, aparentemente, isto teve seu lado negativo. Olga Aleksândrovna, irmã de Nikolai, escreveu que os filhos de Aleksandr passaram fome muitas vezes.

Quando a família estava à mesa, as crianças recebiam a comida por último, só quando o jantar já estava terminando. Quando o imperador se levantava da mesa, todo mundo era obrigado a terminar suas refeições, o que não dava às crianças tempo suficiente para comer direito. Era proibido também comer entre as refeições e pedir comida aos empregados era algo inaceitável.

Quando jovem, certa vez Nikolai comeu o conteúdo de sua cruz batismal. Todas as crianças da família real recebiam uma cruz batismal que, diziam, continha um pedaço da Vera Cruz incrustado em resina de cera. O faminto Nikolai abriu a cruz e comeu tudo o que tinha dentro dela, inclusive o pedaço da Vera Cruz.

3. Adorava um misticismo

O tsarévitch Nikolai (futuro Nikolai 2°), em Nagasaki.

Apesar de ser cristão ortodoxo, Nikolai ainda acreditava em misticismo, previsões e destino. Durante uma visita ao Japão, em 1891, ele visitou um renomado monge eremita chamado Terakuto, que dizia prever o futuro.

O monge previu um futuro sombrio para o grão-duque. Depois, em uma visita à Inglaterra, em 1896, Nikolai se encontrou com Kayro (Luis Khamon), um famoso quiromante e cartomante. Este  também previu uma morte violenta para o tsar e sua família.

Mas a história mais famosa de seus misticismos foi quando Nikolai abriu uma carta de seu tataravô, Pável da Rússia. Enquanto vivo, Paulo havia selado ele mesmo a carta, que continha a previsão de um famoso monge chamado Abel. Depois de lê-la, Nikolai ficou de mau humor por muito tempo. Dizem que a carta previa sua morte e a queda do Império Russo.

  1. Estava farto de seus deveres como tsar
Abdicação de Nikolai 2°, em 2 de março de 1917.

Nikolai tinha uma memória fenomenal. “Ele conhecia muitas pessoas que serviam na Guarda, lembrava as proezas de combate de determinados homens e regimentos, conhecia números e nomes de todos os regimentos de seu exército...”, segundo o general Aleksandr Roediger, ministro da Guerra entre 1905 e 1909.

Mas, como explicam alguns psiquiatras, uma memória de elefante pode, às vezes, ser compensada pela pobreza de outras habilidades intelectuais.

O diário do imperador, que foi completamente preservado, deixa esta impressão. Ele contém pouquíssima informação sobre política, relações internacionais ou intrigas judiciais – tudo o que deveria interessar a um tsar na época. Ao invés disto, quase 90% do diário é dedicado a suas rotinas diárias.

Em 9 de janeiro de 1905, por exemplo, o dia que ficou conhecido na história como Domingo Sangrento e o início da Revolução de 1905, Nikolai escreveu o seguinte: “Em São Petersburgo, houve sérios tumultos. Muitas pessoas foram feridas e mortas. Oh, meu Deus, que doloroso! A mamãe veio da cidade nos visitar hoje. Ela tomou o café da manhã com todo mundo, depois caminhou com Micha. Mamãe passou a noite aqui”.

Nikolai não parecia se importar com nada. Quando o ministro Plehve foi morto, ele escreveu: “Perdi meu amigo, o gentil Plehve”. E, em seguida, na mesma página, mais banalidades de sua vida diária: “Tia Marussia tomou o café da manhã conosco… Caminhou com a mamãe… Deu uma volta com Misha...”

Muitos dos contemporâneos de Nikolai notavam que ele era absurdamente indiferente às questões sobre seu governo e o destino da Rússia. O general Dmítri Dubenski, que esteve presente à abdicação de Nikolai, disse mais tarde: “Ele era tão fatalista, que você nem imagina. Ele abdicou do trono como se estivesse perdendo o comando de um regimento”.

"Estamos lidando com uma pessoa normal?", escreveu Aleksander Gutchkov, outro político que esteve presente à abdicação. “Eu sempre duvidei disso, mas essa cena me convenceu de que esse homem, Nikolai 2°, não entende completamente o que estava fazendo…”

  1. Teve muitos hobbies diferentes
Nikolai 2° caçando, na década de 1910.

Apesar de não mostrar muito entusiasmo no trabalho, Nikolai 2° era bom em seus vários hobbies, sobretudo na caça. Assim como o czar Aleixo da Rússia, o segundo tsar da dinastia dos Românov, Nikolai 2° tinha um corpo estatal inteiro, um ramo do Ministério da Corte Imperial chamado de Caça Imperial, dedicado a seu hobby da caça.

Entre 1884 e 1909, o tsar e o grão-duque mataram 638.830 animais e pássaros. Durante uma das caçadas (que durou dias), Nikolai atirou, sozinho, em 1.400 faisões. Esses números são horripilantes não apenas pela crueldade sem sentido com os animais, mas também porque o tsar devia realmente ter coisas mais importantes em que concentrar suas energias.

Nikolai 2° e sua filha, Tatiana, após jogarem tênis.

E ele tinha, a sua maneira. Ele foi o primeiro tsar a praticar o ciclismo. Ele tinha o maior estacionamento da Europa (e, a partir de 1906, viajava para suas caçadas em automóveis). Ele adorava tênis e praticava o esporte com avidez com a família.

Ele também foi um fotógrafo amador que tirou algumas das primeiras selfies da história – isso tudo enquanto o império estava escorrendo pelo ralo. Sua última conta com um bicicleteiro data de 10 de maio de 1917, e seus últimos jogos de tênis ocorreram naquele mesmo mês.

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