Aos 80 anos, primeiro surfista da URSS ainda quer pegar onda (nem que seja marola!)

Em algum lugar próximo a Washington entre 1972 e 1974.

Em algum lugar próximo a Washington entre 1972 e 1974.

Arquivo pessoal
Este vovô russo ainda pratica esportes todos os dias e se lembra de como surfou pela primeira vez na Crimeia, há mais de meio século, com uma prancha que construiu com amigos geólogos e oceanógrafos – os mesmos que ajudaram a escolher os melhores picos para pegar onda na URSS.

O ano era 1966. O mês, agosto, fim de verão. Depois de três dias de cortando chapas, ele finalmente chega à arenosa praia de Tarkhankut, no litoral da Crimeia com alguma coisa sobre a qual montar. O som das ondas tinha começado à noite e, ao amanhecer, Nikolai Popov e seus amigos começaram a testar uma prancha feita a partir de projetos desenvolvidos com base em revistas norte-americanas e australianas.

“As ondas eram muito irregulares. Mas foi, provavelmente, a primeira vez em que se surfava no nosso país”, lembra Nikolai.

Nikolai na Crimeia em 1966.

Na URSS, poucas pessoas conseguiam ir visitar a Austrália, a Nova Zelândia ou os Estados Unidos, onde o surfe se desenvolvia – esta possibilidade só era dada, talvez, a diplomatas e correspondentes da agência de notícias russa “Nôvosti” (também conhecida como APN), que tinha escritórios em mais de 120 países.

“Em 1966, trabalhei na APN e perguntei a colegas especificamente como eles podiam me aconselhar para eu me dedicar ao surfe. Eu entrevistei umas 100 pessoas e descobri que, apesar de algumas terem ouvido falar de surfe, ninguém tinha tentado praticar o esporte. Naqueles dias distantes, não se recomendava que os soviéticos fizessem viagens com objetivos exóticos assim. E então percebi que o destino me deu uma missão: tornar-me o primeiro surfista soviético”, diz Nikolai.

Jack London e a prancha caseira

Início da construção da prancha. Nikolai está de costas na foto.

Mas o interesse pelo exótico esporte cresceu em Nikolai, que anteriormente tinha sido capitão da equipe de esqui da Universidade Estatal de Moscou, em 1961, mesmo ano em que lhe presentearam o livro “A travessia do Snark”, de Jack London.

No volume, o autor descrevia como tinha construído um iate com os amigos, nadado quase ao redor do mundo e visitado o Havaí e as ilhas da Polinésia – onde viu, pela primeira vez, pessoas surfando em pranchas.

Primeira prancha construída por Nikolai e amigos em 1966.

“Ele causou uma impressão inesquecível em mim, e eu decidi que iria sem falta me familiarizar com o surfe. Estava claro que para isso eu tinha que chegar aos distantes países do sul, o que era muito complicado. Então, em 1965, quando me formei, tive a ideia de fazer uma prancha eu mesmo, seguindo os projetos e fotos de revistas norte-americanas antigas. Como estudei na Faculdade de Geografia da Universidade Estatal de Moscou, eu tinha amigos oceanógrafos, e enchi a paciência deles com a história de quais locais seriam mais adequados para surfar dentro do país”, conta Nikolai.

Depois de muito matutarem, os amigos chegaram à conclusão de que as ondas mais adequadas para o esporte se formavam na região de Evpatoria e na costa do mar Cáspio, próximo de Makhatchkalá, na república do Daguestão. Eles também decidiram fazer uma expedição à Crimeia e criar a prancha com poliestireno.

Tarkhankut, Crimeia, 1966.

“Fomos de carro, alugamos uma casinha na beira da praia e começamos, entre amigos, a fazer a prancha. Eles passaram três dias cortando chapas, colando-as com resina epóxi, recolando com fibra de vidro e fizeram uma quilha - tudo como ensinavam nas revistas. A prancha, claro, não era muito resistente, usamos por quase um mês, e ela acabou quebrando com uma forte onda”, conta.

Dos EUA à URSS

Após a expedição à Criméia, a história de Nikolai com o surfe continuou. Em 1970, ele foi aos EUA junto com uma exposição soviética que durou um ano inteiro e passou por diversas cidades, entre elas San Francisco e Los Angeles.

Ali, Nikolai logo conheceu os surfistas locais e percorreu os picos de surfe norte-americanos mais famosos por quase um mês – entre eles, a Half Moon Bay e a Stinson Beach, próximas a San Francisco.

“Para tanto, ainda era necessário ser um pouco apaixonado. É fácil tomar uma pranchada na cabeça, e não é uma tarefa de 15 minutinhos. Ali, era preciso esperar de 2 a 3 horas a onda e estar pronto para passar esse tempo na água fria sem roupa de mergulho, que eu não tinha”, diz.

Depois de um intervalo curto, Nikolai voltou a trabalhar nos EUA por dois anos, entre 1972 e 1974, onde surfava já regularmente toda temporada até meados de novembro. Então ele já tinha sua roupa de surfe e prancha, que ele comprou por 50 dólares de outros surfistas que conheceu.

De volta ao país de origem, em 1975, Nikolai, o primeiro surfista soviético, partiu em uma jornada para dominar os melhores picos de surfe em casa: viajou duas vezes com uma barraca para a península de Sulak, perto de Makhatchkalá, surfou no litoral de Riga (hoje, na Letônia), no Palanga (na Lituânia) e próximo a Evpatoria.

Califórnia, anos 1970.

"Eu não tinha alunos então, mas às vezes deixava experimentarem minha prancha. As pessoas estavam simplesmente curiosas, mas ainda precisavam se acostumar, o que não acontece de primeira. Em geral, ninguém torcia o nariz - todos, até mesmo as autoridades e o Komsomol, trataravam meu esporte com respeito e aprovação”, diz Nikolai.

Sem caldo!

Em meados da década de 1970, a revista “Técnica da juventude” publicou duas matérias sobre surfe escritas por Popov, que geraram muitas reações do país inteiro.

As pessoas escreviam cartas para o autor sobre suas tentativas de surfar, inclusive na ilha Sacalina e na península do Kamtchatka, no Extremo Oriente russo, já quase no Japão.

"Uma coisa era certa: todos eles reclamavam que a água estava fria pra dedéu, sem roupa de mergulho não dava ne para molhar o joelho ali", diz Popov.

Nikolai em local próximo a Washington, entre 1972 e 1974.

Graças a seus artigos, representantes de um estaleiro perto de Feodosia que projetavam pranchas de windsurf entraram em contato com Nikolai.

"Eles queriam torná-las desmontáveis para que as pranchas de três metros de peso pudessem ser usadas também para o surfe. Eu dei conselhos de como fazê-lo do melhor modo e ajudei nos experimentos”, lembra Nikolai.

Como resultado, as pranchas acabaram difíceis de controlar, grossas e pouco adequadas para o surfe. Mas o ponto positivo é que esta foi uma das primeiras tentativas de inserir o surfe na URSS.

A última vez que Nikolai surfou em 1987. Desde então, ele deixou suas duas pranchas de surfe, compradas nos Estados Unidos, em sua dátcha (casa de campo).

“Se eu surfaria agora? Talvez sim, mas só em marola”, diz rindo.

Nikolai posa para foto em 2015.

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