Streltsov, o atacante que tinha tudo para chegar ao topo do futebol, mas se acabou em vodca e sexo

Eduard Streltsov, já aposentado, ensinando jovens jogadores em 1 de julho de 1987.

Eduard Streltsov, já aposentado, ensinando jovens jogadores em 1 de julho de 1987.

Albert Pushkarev, Igor Utkin/TASS
Atacante lendário do Torpedo de Moscou, Eduard Streltsov chegou a ser comparado com Pelé no final dos anos 1950, mas seu estilo de vida selvagem destruiu sua carreira. Condenado por estupro, Streltsov passou cinco anos na prisão.

Torcedores do Torpedo de Moscou costumavam fazer a seguinte piada: “Se Pelé virasse tanto café como Eduard Streltsov bebe vodca, ele teria morrido”. Streltsov era frequentemente comparado à superestrela brasileira, mas nunca teve a chance de encontrá-la em campo.

O motivo era mais que triste: a apenas alguns meses de sua primeira Copa do Mundo, em 1958, Streltsov foi preso e condenado por estupro, sentenciado a 12 anos de prisão.

Depois de cumprir a pena, que foi reduzida para cinco anos, Streltsov foi proibido de jogar na seleção nacional.

Prodígio problemático

No final dos anos 1950, Streltsov era considerado um super-herói. “A chave para o sucesso era simples: talento para os esportes adicionado ao seu charme pessoal: um rosto honesto, um sorriso caloroso... Ele era um milagre em campo!”, escreveu o colunista esportivo Sviatosláv Vassilik.

Eduard Streltsov vestindo o uniforme da seleção nacional russa de futebol.

Em 1954, quando tinha apenas 16 anos de idade, Streltsov estreou pelo Torpedo, e na temporada seguinte levou o clube do nono ao quarto lugar, marcando 15 gols em 22 jogos. Em 1956, Streltsov foi junto com o time olímpico soviético a Melbourne e foi de grande valia para vencer o torneio.

O atacante cresceu sem seu pai, e nunca foi um moço disciplinado que ficava em casa. “Certa vez, ele estava atrasado para o treino de um importante jogo internacional e  teve que seguir o trem de carro”, relembrou depois o jornalista esportivo Piotr Spektor.

Outra vez, em fevereiro de 1958, o atacante passou vários dias em uma delegacia por participar de um briga embriagado. “Mas ele foi perdoado e o deixaram retornar à seleção”, escreveu Spektor. Dois meses depois, porém, Streltsov entrou em um problema ainda maior.

Arrastada para a cama

Em 25 de abril de 1958, Streltsov e dois colegas de time foram à dátcha de um amigo com quatro moças. Uma delas, Maria Lebedeva, de acordo com testemunhas, demonstrou interesse por Streltsov. Com todos ficando cada vez mais embriagados, os dois teriam dado alguns amassos, mas a situação teria ficado sinistra quanto eles foram dormir.

“Streltsov começou a me arrastar para a cama... Estávamos lutando, eu resisti tanto quanto pude, dizendo que ia gritar, mas ele estava tapando minha boca”, relembrou mais tarde Lebedeva. Ela afirma que Streltsov, embriagado, a teria estuprado e, depois, dormido.

Ministra da Cultura vingativa?

No dia seguinte, Lebedeva abriu um boletim de ocorrência na política e Streltsov foi preso. O líder soviético então, Nikita Khruschov, foi informado sobre o caso e teria supostamente ordenado: “Punam-no de maneira severa, coloquem-no atrás das grades por muito tempo!”.

E foi o que o tribunal fez ao sentenciar Streltsov a 12 anos em um campo de trabalhos forçados. Os torcedores argumentavam que o atacante sensacional tinha sido preso e que Lebedeva tinha consentido em ter relações sexuais com ele, que era acusado falsamente.

“Dizem que o partido caiu em um plano da poderosa ministra da Cultura Ekaterina Furtseva, próxima de Khruschov, para desgraçá-lo”, escreveu o jornalista inglês do Guardian Kevin O’Flynn.

Aparentemente, a personalidade indomável de Streltsov teve papel central contra ele próprio: ele havia insultado anteriormente a filha de Furtseva em um baile no Kremlin.

Anatóli Nilin, biógrafo e amigo de Streltsov, considerou a sentença muito dura, mas admitiu que o jogador tinha culpa no cartório. “Você não pode culpar Furtseva, Khruschov ou Stálin se não tem capacidade de se comportar quando está embrigado”.

Libertação

Seleção nacional da URSS em 1966. Streltsov é o segundo (da esq. para a dir.).

Apesar de sua sentença na prisão ter sido reduzida para cinco anos, o tempo atrás das grades foi difícil para Streltsov. Em seus primeiros dias ali ele foi espancado por outros prisioneiros e ficou quatro meses no hospital.

Dali, ele escreveu à mãe: “Não se culpe, é tudo minha culpa. Você me disse mil vezes que ‘amigos’, ‘garotas’ e vodca me trariam problemas. Eu não a ouvi, e aqui estou... Serei uma pessoa diferente quando sair daqui”.

Em 1963, ele saiu da prisão e trabalhou na fábrica ZIL. Dois anos depois, o novo líder da URSS, Leonid Brêjnev, rescindiu a proibição de que ele jogasse futebol profissionalmente, dizendo: “Um encanador pode trabalhar como encanador depois da prisão, por que um jogador não pode jogar?”.

Eduard Streltsov de volta aos campos após sair da prisão.

Assim, Streltsov voltou ao campo, jogando novamente pelo Torpedo de Moscou. Nos anos de idílio, ele não perdeu seu talento. Ele foi considerado o melhor jogador da União Soviética duas vezes, em 1967 e 1968, e jogou até 1970 pelo Torpedo. Em 1990, ele morreu com um câncer na garganta.

Hoje, Eduard Streltsov é uma lenda, considerado entre os mais talentosos jogadores soviéticos de todos os tempos. Mas ele poderia ter chegado muito mais longe, não fosse sua falta de limites.

“No campo de futebol ele era o mais forte. Mas na vida era o mais fraco”, disse seu amigo Valentín Ivânov.

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