A interiorana que foi a primeira feminista da Rússia (há mais de um século!)

Retrato de Liza Diákonova. Primeira feminista russa se achava "feia".

Retrato de Liza Diákonova. Primeira feminista russa se achava "feia".

Fundo de manuscritos da Biblioteca Estatal Russa
As mulheres russas sempre aceitaram as ideias progressistas do Ocidente. Tivermos nossas próprias sufragistas, nosso movimento feminino e um monte de revolucionárias mulheres. Mas onde podemos encontrar as raízes do feminismo? Eis a história de uma garota que não sabia nada sobre esses conceitos, mas teve essas ideias sozinha.

Elizaveta Diákonova, mais conhecida por Liza, não se amava. Ela sempre se viu como um ser totalmente não atraente ao sexo oposto e pensava que homem nenhum a amaria. Ela tinha ciúmes da bonita irmã mais nova e ficou desapontada quando essa se casou ao invés de continuar os estudos.

As anotações de Liza Diákonova, intituladas “Diário de uma mulher russa” foram publicadas no início do século 20 após sua misteriosa morte: seu corpo nu foi encontrado nas montanhas de Tirol, no Império Áustro-Húngaro.

Suas roupas estavam enroladas em um local próximo, então, apesar da versão oficial de suicídio, nunca se soube exatamente o que aconteceu.

O renomado especialista em literatura russa (em especial a do conde Lev Tolstói) Pável Bassínski ficou tão intrigado com a história e o diário de Liza, que escreveu um livro sobre ela intitulado “Olhe para mim” (em tradução livre; título original em russo “Posmotríte na menía”).

O título foi publicado pela editora Elena Chubina AST neste semestre.

Lev Tolstói e  feminismo

O primeiro passo para qualquer grande empreendimento, inclusive o feminismo, é ler Lev Tolstói. E Liza Diákonova, nascida em 1874 em Nérekhta, na região russa de Kostroma, era, como muitos de seus contemporâneos, uma fã do conde escritor.

Devido a sua reputação controversa, um de seus livros gozava de especial atenção dos leitores na época: “Sonata a Kreutzer”. Censurado e oficialmente proibido, o romance curto era distribuído em cópias manuscritas pelos fãs do escritor, um risco que esses corriam para manter a obra viva.

A trama foca um homem que, após levar um estilo de vida depravado antes do casamento, resolve entrar na vida de casado de forma altamente moral.

Mas suas relações com a mulher pioram e ele se vê morto de ciúmes da admiração que ela tem por um violinista tocando a Sonata N° 9 de Beethoven. Quando finalmente encontra a mulher com o violinista, mata-a.

Liza na adolescência.

A Sonata a Kreutzer teve uma influência enorme nos jovens do final do século 19. “A principal questão não era o problema do ciúmes, mas que Tolstói claramente negou o sentido positivo do casamento, julgamento a união de mulher e homem, que era abençoada por uma tradição cristã”, escreve Bassínski.

Liza leu o livro em segredo, e esse causou profunda impressão nela. Ela achava extremamente injusto que a mulher tivesse que manter a virgindade até o casamento, enquanto os homens não. Ela decidiu que se fosse casar um dia seria apenas com um homem “puro”. Mas, infelizmente, até seu amigo mais próximo, que ela considerava muito decente, era “impuro”.

Casamento fora de questão

Naquele tempo, era normal que garotas se casassem quando tinham 17, 18 ou 19 anos de idade. Se elas ainda não o tivesse feito aos 20, eram consideradas estranhas.

Liza era a irmã mais velha de uma família grande. Ela havia perdido o pai ainda cedo, e sua mãe queria que a menina se casasse o quanto antes, já que, desta maneira, se livraria do apoio financeiro a ela.

Mas Liza não havia encontrado um amor e não se considerava atraente, achando-se até mesmo feia – o que suas fotografias negam. Ela não queria se casar. Ela amava ler e queria estudar.

Seu afinco por esse pensamento se tornou ainda mais forte quando ela percebeu que todos os homens eram “impuros”. Além disso, ela estava vivendo na França, onde uma francesa lhe incutiu que, se os homens podiam viver como queriam antes do casamento, as mulheres também deveriam fazê-lo.

Certa vez, Liza encontrou uma amiga que havia se casado há não muito tempo e que estava grávida pela segunda vez consecutiva. Liza se surpreendeu: por que ela havia escolhido fazer aquilo pela segunda vez?

Então, a amiga lhe disse algo que confirmou a decisão de Liza de não se casar: “Quando nos casamos, não temos a liberdade de escolher, temos maridos...”

Liza com a avó.

Só estudos e nada mais

Liza se formou no ginásio em Iaroslavl (270 quilômetros a nordeste de Moscou), e queria continuar estudando e conseguir um emprego. Mas a jovem não tinha qualquer autonomia para decidir seu destino.

Antes dos 21 anos, ela não podia entrar  em cursos educacionais femininos sem autorização da mãe, que não era moderna como ela e acreditava que Liza deveria se casar o quanto antes e que os estudos somente a atrapalhariam neste intento.

Mesmo a pequena herança que o pai deixara para Liza não ajudava: ela não podia usá-la antes de completar 21 anos.

Como mostra a pesquisa de Bassínski no volume dedicado a Liza, os direitos da mulher russa no século 19 eram realmente restritos. Por exemplo, sem autorização do pai ou do marido, ela não podia viver onde escolhesse.

Além disso, o casamento era realizado, obrigatoriamente, na igreja e o divórcio era quase impossível.

“Da herança dos pais, a filha poderia receber apenas 1/14 de bens móveis e 1/8 de imóveis. O resto era dividido em partes iguais entre os filhos homens”, escreve o pesquisador.

Este era ainda mais um motivo de ira para Liza, que se manteria pelo resto de sua vida: por que ela deveria receber uma herança menor apenas por ser filha, se era tão próxima do pai?

Mas a lei russa ainda era melhor que a francesa naqueles tempos, quando o homem se tornava proprietário legal da herança da mulher na França.

Da mesma maneira, na Rússia era preciso de autorização do pai ou do marido para que uma mulher pudesse estudar ou conseguir um emprego.

Sem pai ou marido, Liza conseguiria se inscrever sozinha em cursos em São Petersburgo. O único problema era ser menor de 21, o que tornava necessária a autorização da mãe – que ela não tinha.

Assim, Liza pede ajuda a homens – e consegue! O diretor dos cursos de São Petersburgo chegou até mesmo a escrever duas cartas à mãe de Liza para convencê-la de que a menina estaria bem e apta a estudar em uma atmosfera boa e de alta moral.

São Petersburgo no final do século 19.

Self-made woman

Bassínski escreve que Liza não colocava suas fichas nem nas sufragistas inglesas, nem nas feministas francesas, e que ela pouco ligava para os círculos e clubes femininos na Rússia. Ela entendia, porém, a importância de as mulheres se unirem para lutar por seus direitos e por sua independência dos homens.  

Liza chegou a escrever um artigo intitulado “Sobre a questão feminina” onde tomava posicionamento anticlerical, dizendo que “o cristianismo apoiou a escravização da mulheres com base religiosa”. Isso em pleno século 19.

O final do século 19 foi marcado pelo crescimento do movimento revolucionário e eplo número de revolucionárias que, em primeiro lugar, apoiavam os homens revolucionários, ao invés de serem figuras separadas desses.

Liza ficou fascinada, inicialmente, pela coragem dessas mulheres – ela chegou a estudar nos mesmos cursos em São Petersburgo que Nadiêjda Krupskaia, revoucionária e, então, futura mulher do líder bolchevique Vladímir Lênin.

Mas o que Liza nota no final das contas é apenas o número que cresce sem parar de alianças nos dedos das revolucionárias. Por isso, ela estava decepcionada, já que, apesar de lutar pelos ideias de liberdade aquelas mulheres apenas tinham casos de amor com os rebeldes e se casavam.

Liza na Inglaterra.

Trabalho fechado a mulheres

Apesar de tudo isso, Liza consegue se educar da melhor forma possível a uma mulher na Rússia naquele tempo. Mas as mulheres ainda não podiam conseguir empregos, e os cursos não forneciam licenças de trabalho.

Assim, ela mudou-se a Paris e passou nos exames para ingressar na Sorbonne.

E antes mesmo de a noção de feminismo aparecer pela primeira vez, Liza escreve em seu diário:

“Não exijo que as mulheres tenham direitos iguais aos dos homens, que ambos os sexos sirvam em escritórios estatais ou governem o país. Não, há homens suficientes para isso. Mas deem às mulheres uma esfera mais ampla de ação, o direito de um humano em geral. Deem o direito de desenvolver seu intelecto e coração para aquelas que não têm a oportunidade de se casar e precisam ganhar seu dinheiro por si próprias. E, se dentre essas mulheres aparecerem alguns intelectos e talentos extraordinários, não os oprimam, deem-lhes fontes para um desenvolvimento livre... E presumo que haverá uma quantidade suficiente de mulheres que queiram se casar.”

A vida fora da Rússia, porém, se mostrou difícil para Liza, subnutrida, vivendo em condições insalubres, com agravamento de doenças. Assim, os médicos lhe sugeriram que voltasse a seu país.

A caminho da Rússia, nas montanhas de Tirol, na Áustria, em 11 de agosto de 1902, sua vida foi interrompida. As últimas entradas de seu diário levaram alguns leitores a acreditar em suicídio, mas seu irmão sempre rejeitou essa possibilidade.

Seu corpo foi enterrado em Nérekhta.

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